Bea Lema: um livro bordado para recuperar o “legado feminino” e falar de saúde mental
É um livro colorido sobre um tema pesado. Junta bordado e desenhos a marcador para tecer a história que também é a da autora: uma criança que se vê perdida sem saber como lidar com a doença mental da mãe. Em Corpo de Cristo, a autora galega Bea Lema, de 40 anos, explora a sua infância confusa nos anos 1990, os delírios da mãe, a falta de acompanhamento psicológico e também a forma como a religião e a superstição acabavam por ser os refúgios de quem se via a braços com um problema que não conseguia explicar ou tratar.Num livro bordado, Bea Lema queria dar esse ponto de esperança. “Mesmo nas situações mais difíceis, há sempre algo a que nos podemos agarrar”, conta a autora numa entrevista ao P3. Bea Lema esteve em Portugal para participar no festival AmadoraBD, onde os seus bordados estiveram em exposição. O livro, lançado em Outubro pela editora Iguana, tem sido reconhecido internacionalmente: Prémio do Público no Festival de Angoulême de 2024 (foi nessa cidade que fez uma residência na Maison des Auteurs que resultou neste livro); Prémio Nacional de Banda Desenhada de Espanha de 2024; Prémio de Melhor Novela Gráfica Internacional de 2025, no Festival Comicon de Nápoles. A caminho está também uma curta-metragem que se estreia este mês em Espanha.Mas, para Bea Lema, os testemunhos que lhe vão chegando são “o mais bonito”. Estas histórias de depressão, ansiedade ou psicose são, muitas vezes, vividas em silêncio. “E o silêncio não ajuda”, desabafa.Como foi o processo de construção deste livro?Muito longo. Comecei a trabalhar nele em 2016. Primeiro, tive uma edição mais curta em galego, tinha 48 páginas, feitas digitalmente só a preto e branco. Aí, o que fiz a nível narrativo foi trabalhar mais a minha memória: isto é autoficção, mas tem muito da minha história de vida. A motivação para começar [o livro] foi a necessidade de entender e contar a minha própria história.A certa altura, apercebi-me que tinha sido essa menina que foi mãe da sua própria mãe. Comecei a ter muitas perguntas: porque é que isto aconteceu? O que levou a minha mãe a uma situação assim? E foi um processo de procura de respostas. A nível lógico, tive de criar um contraste entre a dureza da história e a parte gráfica, que é mais colorida, mais inocente, que penso que ajuda a falar sobre o tema.
Corpo de Cristo
Autora: Bea Lema
Editora: Iguana
184 págs., 20,45€
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E o bordado?O tecido apareceu muitíssimo depois, de uma maneira casual, não estava previsto. Comecei a interessar-me pelas arpilleras, uma forma de criação que vem da América Latina e é uma espécie de colagens têxteis, feitas em sacos de serapilheira. É feito com tecido e também com bordado. Tenho uma colecção em casa de arpilleras bolivianas e decidi fazer uma das páginas do livro, que já tinha desenhado, com esta técnica. Atrasou-me bastante o processo: o bordado é lento, é quase relaxante, quase uma meditação.Comecei também a investigar de onde vinham estas arpilleras, qual seria a sua história. E percebi que as arpilleristas chilenas, durante a ditadura de Pinochet, usavam esta técnica para representar a violência no país: sequestros, desaparecimentos, assassinatos… Pareceu-me muito forte a forma como empregaram a costura, um ofício historicamente imposto a mulheres e à casa, que não estava pensado de uma forma expressiva nem criativa. Pareceu-me interessante tomar esse legado feminino para contar as histórias que me importam.
Arpillera chilena feita durante a ditadura de Pinochet
Fernando Lavoz/GETTY IMAGES
O livro foi uma forma de processar estas emoções da infância?Sim, a arte mobiliza-me para as minhas próprias questões. A mim, sai-me de forma muito natural empregar a arte como forma de busca, de compreensão das minhas circunstâncias, do mundo. No final, as histórias nunca são de uma só pessoa. Acontecem dentro de um contexto social. Na realidade, a minha história é a história de muitas outras pessoas.É também, então, uma história da Galiza nessa época? Em que havia este contexto de estigma em relação à saúde mental, de alguma repressão da mulher, da dominância da religião?Diria que era uma situação geral de Espanha, havia muita repressão da mulher quando falamos de problemas como a psicose ou os delírios. Havia esta ideia de que “esta mulher está tola”, está “doente dos nervos”, que é uma expressão que se usava muito e que individualizava o problema na pessoa, como se o mal fosse dela. Nunca se tinha em conta aquilo que poderia levar a esta doença.
Na maioria das pessoas que vivem algo assim, isso vem também de contexto e de uma vivência anterior. Quando se vê através desse ponto de vista, a pessoa para mim já não é uma doente mental, mas uma pessoa ferida
Para mim, era a mensagem mais importante do livro: entender que, na maioria das pessoas que vivem algo assim, isso vem também de contexto e de uma vivência anterior. Quando se vê através desse ponto de vista, a pessoa para mim já não é uma doente mental, mas uma pessoa ferida. Vê-la assim desperta outra empatia.E ajuda a reconhecer que é importante apoiar, oferecer tratamento, não a deixar sozinha… Exactamente. Falando concretamente no contexto da Galiza, que é aquele em que surge esta história: é uma zona do Norte, da costa, que viveu muita miséria na guerra, profundamente influenciada pela religião. Nesse tempo, ir a um psiquiatra não era opção.Nesse momento de desespero, entramos nestes sistemas de crença e percebemos que havia rituais. O mais representativo na Galiza é o Corpiño de Lalín, onde historicamente fazem este ritual em que expulsam o demónio do corpo ou o mau-olhado. Uma vez por ano, havia ali quase uma catarse colectiva das pessoas que estavam isoladas em que a loucura se podia expressar, em que se podia gritar, se podia convulsionar. Hoje entender-se-ia como uma realidade arcaica, atrasada, algo que nos envergonhasse. Mas, nessa realidade, isto acontece por uma série de circunstâncias que as pessoas não escolhem. Não partilhando essas crenças, é possível respeitá-las.
Não o vê como algo negativo?A linha é muito ténue. Se vamos aos extremos pode ser negativo, mas é também um espaço de escuta, como se vê no livro. Era o único lugar de escuta de Adela [a personagem principal, a mãe]. No médico não havia escuta, era medicação e já está. O seu marido tampouco compreende o que se passa, nem sabe como lidar com tudo isto.Na religião, nas visitas à igreja, ao pôr uma vela ou um santinho, encontra um pouco de sossego. Também me fez questionar como é que eu vivo hoje em dia a minha espiritualidade. Por rejeição da religião católica, ficamos um pouco órfãos de espiritualidade. No meu caso, acho que a vivo através do desenho, da criação, uma actividade que não é tão racional, que é mais intuitiva e criativa. Isto pode estar ligado a esta procura de espiritualidade. É um tema para revisitar na actualidade, repensá-lo. Afinal, é uma necessidade que, enquanto humanidade, sempre nos acompanhou.
A autora galega Bea Lema
DR
Sendo um livro de autoficção, o que há aqui de ficção?Quando se trabalha a memória, há uma reconstrução dos factos porque a realidade não tem essa estrutura tão clara, é muito mais caótica. E é o meu ponto de vista. Se qualquer outro protagonista desta história a contasse, seria uma história completamente diferente. Há partes, como os flashbacks, em que eu tinha menos informação e são partes que estão mais ficcionadas, ainda que tenha indícios de que as coisas foram assim.Demora muito tempo a fazer uma página destas?Depende muito porque há uma mistura de técnicas: algumas são feitas 100% à mão, outras à mão e à máquina, e outras 100% feitas à máquina. Pode demorar três semanas ou um par de dias. Depois os bordados são digitalizados.
A sua formação é em artes?Eu tirei Desenho Industrial, desenho de produto. Sempre tive uma queda artística, mas estava muito presente a ideia de que tinha de fazer algo mais sério, que me garantisse um emprego. Trabalhei durante muitos anos na fábrica de cerâmica de Sargadelos, que é muito emblemática na Galiza. Depois, tive uma crise, não queria fazer mais nenhum objecto… foi quando comecei a desenhar.Este livro de bordado e ilustração é inédito? Conhece mais livros assim?É pouco habitual. Há um ilustrador inglês, Gareth Brookes, que trabalha em alguns destes livros com bordado, mas não é muito habitual.Quando era criança e adolescente sentia, de certa forma, que era mãe da sua mãe?Quando somos crianças temos capacidade de nos adaptar ao que está em casa. De uma forma inconsciente, sabes que és totalmente dependente dos teus pais e de uma maneira muito orgânica fazes o que tens de fazer para te sentir querido. Eu assumi esse papel de uma forma inconsciente. Levei muitos anos, tinha quase 30 anos, quando me caiu a ficha de que estava a passar por isto.Não pensava no que estava a acontecer? Ou era-lhe tão natural que nem processava?Que alguma coisa se passa, sabe-se sempre, até porque quando somos mais novas nos comparamos com a responsabilidade que têm as nossas amigas. Eu sentia que, se eu não estivesse lá para dar a medicação [à mãe], ela iria ficar mal. E que não tinha outro recurso para que alguém assumisse essa responsabilidade. Entre ela ficar doente ou assumir eu a carga, preferia fazê-lo eu. É daí que vem a tensão. A problemática da família, em que o pai ou irmão não assumem a situação e há um abandono.É também reflexo da sociedade patriarcal em que é exigido e esperado das mulheres que assumam esse cargo de cuidadoras.Totalmente. Creio que, como sociedade, temos uma conta pendente com o tema dos cuidados. Se a mulher deixa o lar e integra o mundo do trabalho, há um vazio, tem de fazer as duas coisas, ou então recorrer a serviços pagos, que também é um sector muito feminizado. Damo-nos mal com o cuidado em geral e temos pouca consciência de que todos fomos dependentes na infância, podemos vir a sê-lo ao longo da vida, se ficarmos doentes, por exemplo, ou se chegarmos a velhos. Não é algo com que nos possamos desentender. Nem deixar que recaia só por uma pessoa. Se não o estás a fazer, alguém o está a fazer por ti. Tem de ser algo partilhado.
Falta trabalho, falta recursos na saúde pública. Que as consultas durem mais tempo, que os recursos não sejam unicamente a medicação. (…) Quando pomos toda a esperança na medicação, também é algo extremista e problemático
Acredita que o livro e a sua história acabam por ter um final feliz?Para mim é importante, até através da parte visual, procurar as partes luminosas da história. Ter presente que, mesmo nas situações mais difíceis, há sempre algo a que nos podemos agarrar. Pode ser a beleza das pequenas coisas. No final, queria que tivesse este ponto de esperança.Afinal, ao redor destes temas temos um imaginário colectivo que está mais perto de um filme de terror. Pensamos que quando uma pessoa tem psicose é uma pessoa perigosa, quase. Para mim, como tem muito da minha história, precisava também que fosse algo que tivesse partes mais positivas.
Ainda há muito estigma em torno da saúde mental e mesmo da psicose de que falava? Ainda é tabu?Sim. Para uma pessoa que vive isto na primeira pessoa há complexos, porque ninguém se quer ver sob esta etiqueta de doente mental. E a família ou as pessoas em redor também não sabem acompanhar. Dizemos “uff, está mal, não vou vê-la”, “como é que digo ao meu colega de trabalho que a minha mulher está a falar de um demónio?”. O silêncio não ajuda. Falta trabalho, faltam recursos na saúde pública. Que as consultas durem mais tempo, que os recursos não se limitem à medicação.E, se alguém sente que a religião, de alguma maneira, lhe dá uma sensação de comunidade, de pertença, algo a que se agarrar, se a pessoa está estável… isso não tem de ser um problema. Problema é quando vamos aos extremos. Quando pomos toda a esperança na medicação, também é algo extremista e problemático.
Imagem retirada da curta-metragem de animação realizada pela autora com as produtoras UniKo e Abano Producións
DR
Ainda há, portanto, um longo caminho a percorrer no que toca à saúde mental?Sim, sim, sim. Como sociedade já estamos preparados porque há algum tempo que se fala de saúde mental, de ansiedade, de transtornos depressivos. Temos de dar um passo à frente em relação a estas temáticas mais problemáticas, mas voltamos ao mesmo: faz falta uma mudança estrutural para termos mais meios. Consultas com mais periodicidade, mais longas, em que se tenha mais em conta o contexto da pessoa, se tem um trabalho, com quem vive, qual é o seu passado… ter meios para que isto mude. Caso contrário, é complexo.










