A COP30 não deveria servir carne nas suas refeições oficiais
Sou vegana por razões éticas (pelos animais) há mais de metade da minha vida. Além de defender os direitos de todos os animais sencientes, acredito, porque acredito na ciência, que a forma como tratamos os outros animais está intimamente ligada à forma como tratamos o planeta.Em 2013 escrevi um artigo intitulado Veganismo e Ambientalismo – Aquilo que comemos!?, publicado na revista da Quercus. Ingenuamente, talvez, pensei que, doze anos depois, já não fosse preciso repetir o mesmo. Afinal, o mundo continua a recusar olhar para o óbvio: não há futuro sustentável enquanto continuarmos a servir destruição nos pratos.Aqui estamos, em 2025, e a COP30, a grande conferência mundial sobre o clima, continua a servir animais e produtos de origem animal nas suas refeições oficiais. Fala-se de neutralidade carbónica e de justiça climática, enquanto se consomem os próprios indivíduos e ecossistemas cuja destruição se discute. É difícil imaginar contradição maior. Mesmo que alguém deixe de lado toda a dimensão ética associada aos animais, considerando apenas o clima, continua a não fazer sentido.Há mais de uma década, escrevi que a exploração animal “não é moralmente justificável, como também não é sustentável”. Os dados mais recentes confirmam-no com absoluta clareza: os sistemas agro-alimentares são responsáveis por cerca de um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa (FAO, 2023). Dentro destes, as actividades agrícolas e pecuárias representam cerca de metade, e a pecuária, em toda a sua cadeia, é responsável por cerca de 12 a 14,5% das emissões antropogénicas globais.A pecuária é também o principal motor da desflorestação amazónica, associada a cerca de 80% da perda de floresta no Brasil, e usa, de forma directa ou indirecta, mais de 77% das terras agrícolas, fornecendo apenas 18% das calorias globais e 37% da proteína. A agricultura, no seu conjunto, consome cerca de 70% da água doce retirada no planeta, sendo que a produção de ração e pasto para animais representa aproximadamente 22% dessa utilização.Há décadas que as COPs se sucedem em promessas, relatórios e metas, mas evitam o tema mais óbvio: o prato, a produção e o consumo de animais e de produtos de origem animal. Enquanto a alimentação de origem animal for tratada como questão “cultural” e não como problema estrutural do clima, continuaremos a falhar. Servir animais e produtos de origem animal numa conferência sobre o colapso climático não me parece muito diferente de distribuir cigarros num congresso sobre doenças respiratórias e cancro do pulmão. Não faz sentido.O que em 2013 era mais um aviso tornou-se uma constatação. Honestamente, não tenho uma visão positiva do futuro. Isto soa menos a alerta e mais a autópsia. Há muito que o tempo acabou. Continua a faltar coragem política para reconhecer que a mudança alimentar é parte incontornável da solução climática e que continuar a fingir o contrário, para agradar às indústrias, é perpetuar o desastre. Mudar a forma como olhamos para os animais vistos como “comida” não é uma renúncia. É um acto de justiça e de responsabilidade de quem levanta a bandeira da justiça climática.Em 2013 terminei o meu artigo com duas palavras: “Pense nisto.” Em 2025 só as posso repetir, com mais urgência e muito menos esperança. Pensem nisto, mesmo que já seja tarde demais.









