China e petroestados do Golfo recebem financiamento para proteger o clima
Apenas um quinto dos fundos que os países mais desenvolvidos, como a maior parte da Europa, os Estados Unidos e o Japão, estavam obrigados a canalizar para os países em desenvolvimento, sob a forma de financiamento climático, foram destinados realmente às nações mais pobres. A Índia foi, de longe, quem mais recebeu, mas também a China e os Emirados Árabes Unidos beneficiaram deste financiamento.A análise feita pela publicação online Carbon Brief, em colaboração com o jornal The Guardian, a dados divulgados pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), mostra que a meta de dirigir 100 milhões de dólares em financiamento climático para as nações mais vulneráveis (só atingida em 2022), um compromisso assumido ao abrigo do Acordo de Paris, foi para projectos muito diferentes.Financiou projectos de agricultura sustentável no Níger, mas também redes eléctricas nos Emirados Árabes Unidos, um dos maiores produtores de gás natural do mundo.Mas para os países mais vulneráveis, muitos deles no continente africano, os apoios foram sob a forma de empréstimos, frequentemente concedidos em termos desfavoráveis, que fazem crescer o peso da dívida de nações que estão já muito endividadas, salienta a Carbon Brief.Armadilha dos empréstimos para os mais pobresDados do Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento mostram que 44 dos “países menos desenvolvidos”, conhecidos pela sigla em inglês LDC, gastam duas vezes mais a pagar os empréstimos de financiamento climático do que o valor que recebem.Se as nações mais ricas prometeram 33.400 milhões de dólares em financiamento climático a estes 44 países em 2021 e 2022, cerca de metade – 17.200 milhões – foram concedidos sob a forma de empréstimos, sobretudo pelo Japão, pela França e bancos de desenvolvimento, contabiliza a Carbon Brief.
95%
do inanciamento climático que Angola e o Bangladesh receberam foi sob a forma de empréstimos, que agravam a dívida externa
A organização Oxfam, que diz que os países mais ricos estão a “obrigar de forma injusta os países mais pobres a contrair dívida”, através de empréstimos, calcula que o “verdadeiro valor” do financiamento climático em 2022 não foi os 100 mil milhões de dólares contabilizados pela OCDE, mas antes algo entre 28 e 35 mil milhões de dólares – um quarto do valor oficial. Precisamente por causa do peso da dívida.Alguns destes países receberam mais de dois terços do seu financiamento climático sob a forma de empréstimos, que podem empurrar os governos para a chamada “armadilha da dívida”, um ciclo vicioso em que ficam presos os países mais endividados sem meios para pagar o que devem e investir no desenvolvimento, ao mesmo tempo.Angola lidera a tabela: recebeu neste período perto de 217 milhões de dólares em empréstimos de França, sobretudo para desenvolver a sua infra-estrutura de abastecimento de água, e 571,6 milhões de dólares em empréstimos de várias instituições multilaterais. E isto resume, basicamente, o financiamento climático a que o país africano teve acesso. O mesmo acontece no Bangladesh, que está em segundo lugar nesta lista, e em que 95% do financiamento climático que recebeu foi sob a forma de empréstimos.
Um cnanl de água poluída em Benguela: muito o financiamento climático recebido por Angola, sob a forma de empréstimos, foi para melhorar a infra-estrutura de água
AMR ABDALLAH DALSH/REUTERS
Os maiores beneficiários do financiamento climático internacional foram grandes países de rendimentos médios, como o Egipto, as Filipinas e o Brasil, concluiu a análise, o que de certa forma reflecte o grande peso populacional que estes estados têm.A Índia recebeu 14 mil milhões de dólares em 2021 e, em 2022, absorveu praticamente todos os empréstimos disponíveis, para projectos como linhas de metro e comboio em grandes cidades, como Nova Deli e Bombaim. A Índia recebeu 9% de todo o financiamento climático bilateral e multilateral, realça a Carbon Brief, mas neste país vive 18% da população mundial.Os ricos que se fazem de pobresMas a China, que é o maior emissor de gases com efeito de estufa a nível mundial, neste momento, a segunda maior economia e um grande financiador de projectos de energia internacionais e também o mais importante produtor de painéis solares, recebeu mais de três mil milhões de apoios em financiamento climático neste período. Isto porque ainda é classificada como um país em desenvolvimento, de acordo com o padrão estabelecido quando foi assinada a Convenção das Alterações Climáticas das Nações Unidas, em 1992.No entanto, a China tem enfrentado uma pressão cada vez maior para que, em vez de receptor de financiamento, se assuma como financiador, porque o seu nível de desenvolvimento progrediu enormemente desde o início da década de 1990 – esse costuma ser um dos pontos quentes de discussão nas cimeiras do clima.Petroestados do Golfo, como os Emirados Árabes Unidos, beneficiam também de apoios. Os Emirados Árabes Unidos, um exportador de combustíveis fósseis que tem um Produto Interno Bruto (PIB) per capita ao nível de França e do Canadá, receberam do Japão 1300 milhões de dólares para um projecto de redes eléctricas e outro de transformação de resíduos em energia, que foram registados como financiamento climático.Até a Arábia Saudita, que está entre os dez maiores emissores de carbono graças aos seus gigantescos campos petrolíferos e posição maioritária na empresa petrolífera Aramco, recebeu cerca de 328 milhões de dólares em empréstimos japoneses, incluindo 250 milhões de dólares para a sua empresa de electricidade e 78 milhões de dólares para parque de painéis solares, salientou o Guardian.
A China é um dos maiores investidores em projectos de energia a nível internacional, mas tem recebido financiamento climático
CHINA DAILY/REUTERS
Outro paradoxo é que a falta de regras claras sobre o que pode ser classificado como “financiamento climático” permite que por vezes sejam apoiados projectos que perpetuam a exploração e uso de combustíveis fósseis – que é precisamente o que se pretende evitar, para reduzir as emissões de gases de estufa que provocam o aquecimento global e as alterações climáticas.Por exemplo, o Japão concedeu um apoio de 18 milhões de dólares a uma empresa nipónica de gás natural liquidificado para se instalar no Senegal, e cerca de um milhão de dólares para projectos de gás na Tanzânia, diz a Carbon Brief. Apesar disso, este tipo de projectos parecem ser uma minoria do financiamento climático em África, cerca de 1% de todo o dinheiro canalizado para o sector energético, segundo esta análise.










