DESPORTO

Reprogramar as quebradas gera método de ensino que chega à Europa e à África

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Dar chances para quem vive em regiões com menos recursos chegar ao mercado de trabalho de tecnologia. Este é o objetivo da Mais1code3, uma startup criada na Zona Leste de São Paulo e que já formou mais de quatro mil jovens.A edutech – uma startup da área da educação – teve dois criadores, Tauan Matos, 31 anos, e Diogo Bezerra, 32 anos. “Nasceu em uma favela, o Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo. O Diogo estava entregando marmita durante a pandemia e um jovem perguntou para ele: ‘Você conhece alguém que cria sites e aplicativos?’ Aí o Diogo disse que naquele momento não, mas que ia procurar alguém que pudesse ensinar a ele”, conta Tauan, que é formado em Web Design.Para responder à pergunta, Diogo procurou Tauan. “Ele, que é meu amigo desde a infância, me procurou perguntando se eu fosse desenvolver um projeto dentro na periferia, como eu faria”, lembra. Tanto Diogo quanto Tauan vivem no Jardim Pantanal.O primeiro passo foi procurar quem poderia ensinar o jovem. “Tinha organizações que ensinavam, mas era na Faria Lima, na Paulista, uma realidade bem diferente da periferia, para jovens que nunca tinham nem ido para o centro de São Paulo”, afirma Tauan. O Jardim Pantanal fica a mais de 35 quilômetros da região central da cidade de São Paulo e uma viagem até lá em transportes públicos pode levar perto de duas horas.Diogo, que tem uma escola de inglês no Jardim Pantanal, e Tauan começaram a desenvolver o projeto voltado para quem não tem conhecimento de tecnologia. “Chamamos amigos desenvolvedores, de algumas empresas do Brasil, para eles trazerem a visão do que estava acontecendo para que pudéssemos criar uma jornada para esse jovem específico. Gosto de dizer que o Gabriel, que foi quem fez a pergunta ao Diogo, foi a pedra jogada no lago que começou as ondinhas”, diz Tauan.Inicialmente, o ensino era individual. “Criamos um modelo de ensino que chamamos One-on-one. Pegava um jovem da periferia e um desenvolvedor do mercado de trabalho para trabalharem juntos. No início deu certo ter um mentor e um aluno”, observa.Resolver problemas da comunidadeSó que o número de jovens começou a crescer. “Chegou um momento que nós tínhamos um número muito maior de jovens e muito menor de mentores. Foi quando nós desenvolvemos a plataforma em que os alunos poderiam se desenvolver”, recorda. O ensino utiliza como método identificar os problemas vividos pela comunidade de onde vêm os alunos e busca encontrar soluções tecnológicas para resolvê-los.Com alunos entre os 18 e os 35 anos, ele contabiliza até hoje, nos quatro anos de existência da Mais1code, ter mais de três mil alunos e impactado indiretamente dez mil pessoas, incluindo os parentes que vivem em um núcleo familiar com aumento de renda. Neste momento, o número de estudantes chega aos 200 no Jardim Pantanal. “Eu costumo dizer que a gente está reprogramando as quebradas”, avalia Tauan.Todo o ensino na Mais1code é gratuito. “No Brasil, temos parceiros que são grandes empresas, como o Nubank, o Instituto Algar, o Mercado Livre e a Coca-Cola Foundation”, comemora. Ele afirma que o orçamento anual é de um milhão de reais. A presença no Web Summit de Lisboa, dentro da delegação da ApexBrasil e do Sebrae, tem como objetivo conseguir mais investidores para poder ampliar o programa.A atuação da edutech é em quatro áreas. “Eles aprendem sobre linguagem de programação, com todas as tecnologias que existem, aprendem inglês com foco na tecnologia, e temos um programa que é soft skills, que são as habilidades necessárias para entrar no mercado de trabalho. Agora, estamos com formação aberta para criar agentes de inteligência artificial, para ensinar a mexer com IA”, informa Tauan.O curso dura de seis meses a um ano. Atualmente, é utilizada inteligência artificial para poder ampliar o alcance da escola. “A IA faz gestão interna, acompanhamento, ensino e até o inglês dá para aprender via WhatsApp. Ela ensina sete idiomas: inglês, francês, espanhol, alemão, italiano, português e japonês”, revela Tauan.O percurso educativo dos jovens não termina a Mais1code. “Eles têm acesso à faculdade de graça na área. Pode ser análise e desenvolvimento de sistemas, engenharia de sistemas ou outras”, explica. Ele conta que, atualmente, ex-alunos da edutech trabalham em empresas como Oracle, Rede Globo, Microsoft e alguns até resolveram criar suas próprias startups.InternacionalizaçãoDesde a primeira participação em um Web Summit, há dois anos, a Mais1code conseguiu se internacionalizar. “Temos um projeto piloto em São Tomé e Príncipe, financiado pelo Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Eles entraram com 48 mil reais. Está sediado na Universidade Lusíada e tem a possibilidade de se tornar um programa nacional”, afirma Diogo.A universidade é uma instituição portuguesa. “Fazemos a ponte entre Brasil, Portugal e África”, diz Diogo. A Mais1code também está em uma incubadora portuguesa, a Com.Estrela, situada no Fundão, interior de Portugal.
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