Querida Angola do futuro (carta para a Angola de 2075)
Escrevo-te de Paris, neste ano de 2025 em que celebramos o nosso meio século de existência. Escrevo-te a 50 anos de distância, sentado entre duas margens: a da terra angolana que me viu nascer depois do rugir dos canhões e a desta cidade-luz onde escolhi pousar o olhar para melhor te ver. Talvez seja este o paradoxo da minha geração: precisar de se afastar um pouco para medir a grandeza do caminho percorrido, e o abismo que ainda nos separa das nossas promessas.
Não conheci o 11 de Novembro de 1975. Não segurei a bandeira nesse dia. Mas herdei-lhe o peso, a febre e os vincos. Transmitiram-nos essa independência como quem transmite um relato sagrado, uma epopeia. No entanto, ao crescer, aprendi também a escutar os silêncios dessa história. Os não-ditos que assombram as nossas memórias familiares, as feridas abertas de 27 de Maio, as cicatrizes da guerra civil que marcaram a infância de tantos dos meus. Nós, filhos do depois, carregamos os sonhos dos nossos pais, mas também o peso dos seus fantasmas.Deixamos-te um país que, aos 50 anos, ainda se procura. Uma nação rica de uma juventude audaz e criativa, mas tantas vezes condenada ao exílio para poder florescer. Uma cultura de uma vitalidade estonteante, mas que alguns “guardiões do templo” insistem em aprisionar em visões estreitas e eurocêntricas, como eu próprio constatei em debates recentes. Uma terra de contrastes desarmantes, onde a riqueza do petróleo cavou mais fossos do que construiu pontes, aprofundando desigualdades em vez de as curar.Da minha margem parisiense, deixando a voz viajar pelas colunas do PÚBLICO, da Forbes Afrique, da Folha de São Paulo ou do Le Point, formulo votos para ti, Angola de 2075.Desejo que tenhas concluído a tua descolonização mental. Que sejas um país que assume com orgulho toda a sua africanidade, sem complexos de inferioridade nem de superioridade. Que a negritude já não seja tema de debate, mas a fonte natural da tua força e do teu brilho.
Desejo que tenhas reconciliado os teus filhos com o teu solo. Que a diáspora já não seja uma necessidade económica, mas uma escolha. Que os teus talentos encontrem espaço para florescer nas tuas universidades, nos teus laboratórios, nos teus ateliers de artistas e nos teus campos, construindo uma prosperidade finalmente partilhada.Desejo-te uma elite digna desse nome. Não uma classe de predadores, mas uma geração de servidores esclarecidos, para quem o poder não é despojo de guerra, mas instrumento para libertar o potencial infinito do teu povo.Desejo, acima de tudo, que sejas uma pátria. Não apenas um território, não apenas um passaporte, mas um lar. Um lugar onde cada angolano, de Cabinda ao Cunene, se sinta inquestionavelmente em casa, em segurança, e orgulhoso de contribuir para o edifício comum.
Nós, nascidos depois da independência, somos as pontes. As pontes entre a memória dos mais velhos e a ousadia da juventude. As pontes entre a Angola real e o mundo. A nossa tarefa é árdua: terminar de construir a casa que os nossos pais começaram, por vezes com planos incompletos.Quando leres esta carta, dentro de meio século, espero que sorrias dos nossos receios com benevolência. Espero que tenhas transformado as nossas lutas de hoje em vitórias partilhadas. E que tenhas feito deste país — que é a nossa paixão e a nossa dor, o nosso orgulho e o nosso dilaceramento — a referência de dignidade e criatividade que sempre prometeu ser.E, sobretudo, que nunca deixes de ser, Angola de 2075, o sonho que começámos a construir.Com fé inabalável, apesar de tudo,Headhunter e observador pan-africanista, Paris, 2025










