Quatro projectos portugueses ganham bolsa de jornalismo e ciência — e um é do PÚBLICO
“A desinformação em saúde, sobretudo na área da alimentação, tornou-se uma ameaça silenciosa”, sublinha Conceição Calhau, nutricionista, investigadora e professora catedrática da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (FCM/UNL). Essa ameaça, continua, é “impulsionada por redes sociais que oferecem soluções rápidas, infundadas e perigosas, através de mensagens simplistas, sem base científica, mas com consequências para a saúde”.A investigadora em nutrição e metabolismo coordena a equipa da FCM que, ao longo dos próximos oito meses, irá desenvolver com o PÚBLICO um projecto de jornalismo de investigação baseado na ciência e focado no combate à desinformação disseminada por influenciadores de fitness, bem-estar e estilo de vida saudável.A iniciativa Factness – Factos em saúde, nutrição e exercício físico, que engloba também a investigadora em open-source intelligence Inês Narciso, é um dos quatro projectos portugueses escolhidos para a edição inaugural das bolsas de investigação colaborativa entre jornalismo e ciência Journalism Science Alliance.Este estímulo ao reforço de pontes entre jornalistas e cientistas é liderado pela Universidade Nova de Lisboa e pelo European Journalism Centre, com financiamento do programa Europa Criativa. O concurso, que recebeu 162 candidaturas provenientes de 54 países, elegeu 24 projectos apresentados por equipas de 15 países: Alemanha, Bélgica, Bulgária, Chéquia, Croácia, Eslovénia, Espanha, Finlândia, Itália, Macedónia do Norte, Países Baixos, Polónia, Portugal, Roménia e Sérvia.Além do Factness, o júri externo independente atribuiu bolsas aos consórcios Expresso-INESC/TEC, para estudar, à luz da ciência política e da ciência dos dados, o contributo do TikTok para o crescimento da extrema-direita entre os jovens portugueses; Farol de Ideias-Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL, para a produção de um documentário sobre o risco que a construção do novo aeroporto de Lisboa coloca ao sistema aquífero Baixo Tejo-Sado, “a maior reserva de água doce da Península Ibérica”; e Fumaça/Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA), que irá analisar as barreiras sociais que influenciam a libertação antecipada no sistema prisional português.As bolsas atribuídas oscilam entre os 20 mil euros, no caso do Expresso e do Fumaça, e os 50 mil euros, atribuídos ao PÚBLICO e à Farol de Ideias.Factness: em primeiro plano, o jornalismo“Numa época de desinformação disseminada à velocidade da luz nas redes sociais, este projecto procura pôr em primeiro plano o jornalismo – que é informação credível e verificada”, resume Teresa Firmino, editora de Ciência do PÚBLICO e líder do projecto Factness. “Esta iniciativa irá escrutinar, através do crivo da ciência, o que os influencers dizem e promovem nas redes sociais sobre nutrição, dietas e exercício físico. Será que essas afirmações têm fundamento científico? Terão estes todas estas pessoas formação na área que comunicam? Será meramente marketing?”Na resposta a estas questões de partida, o trabalho desenvolvido pelo consórcio abordará a verificação de factos, com o apoio dos parceiros científicos (e secundado por um conselho consultivo que reúne especialistas de várias áreas do conhecimento, do direito do consumo às neurociências, da psicologia social à computação), cruzada com o mapeamento do mercado dos suplementos alimentares e com a identificação de influenciadores que comunicam estes temas de forma responsável e correcta.“Acreditamos que este esforço conjunto constitui um passo essencial para proteger a saúde pública e reforçar a confiança no conhecimento, na ciência e na comunicação responsável, pilares fundamentais de sociedades mais informadas, críticas e saudáveis”, aponta Conceição Calhau.Para amplificar a mensagem, o projecto irá também testar um novo formato, que envolverá comédia e informação verificada.










