<em>Primitiva</em>, a nova revista em papel que viaja por um mundo imperfeito
As imagens tinham uma intensa carga dramática. Um porco estendido no seu leito de morte, ramos de ervas ardentes a chamuscar-lhe o pêlo, um golpe medonho à altura da jugular. “Primitivos”, bradaram vozes indignadas no Instagram de Luís Octávio Costa, aka Kitato, o autor do vídeo de uma matança algures nos frios de Monção. “Sou jornalista, contador de histórias reais. Não uso inteligência artificial. Procuro mostrar o mundo como ele é, com sangue, pele queimada e sofrimento, com alegria, brindes e respeito, também”, explicou Luís Octávio dias depois, num post ilustrado com bacias metálicas salpicadas de sangue, cornos de vacas que se entrelaçam, unhas sujas em mãos de trabalho e dióspiros esquecidos na árvore.Era Dezembro de 2024, o vídeo e o post tiveram perto de 50 mil visualizações, e aquele “primitivos” ficou a bailar na cabeça inquieta do ex-jornalista do PÚBLICO. E quando, nos primeiros meses deste ano, ele e mais três pessoas buscavam um nome para a revista em papel que vão lançar este sábado, 15 de Novembro, no Mira Fórum, no Porto (17h), foi evidente que só podia ser um: Primitiva. “Era tão claro que o nome tinha de ser este. Primitiva é uma palavra só, não muito longa, fácil de ler até noutras línguas. E faz todo o sentido a nível de pensamento social e político”, refere Luís Octávio Costa.A Primitiva é uma revista de viagens que não é só uma revista de viagens: “É uma revista de histórias do mundo que têm a viagem como fio condutor.” Ajuda a defini-la dizer que a matança do porco em Monção podia muito bem estar neste primeiro número. Não está, mas estão lutas de homens musculados em arenas de terra barrenta em Lahore, no Paquistão; bravos que correm paisagens na ilha Terceira, Açores; fotografias de um Iraque que o mundo não vê e da louça portuguesa de Bisalhães; um casamento em Bengala, na Índia; retratos de pais e filhos de mãos dadas planeta fora.“São histórias que estão ligadas à essência das coisas, à terra, à exploração do mundo, do fundo do mar ao pico da montanha”, interpreta o director Luís Octávio Costa. Filipe Morato Gomes, autor do blogue Alma de Viajante e também fundador da Primitiva, acrescenta: “Não temos uma reportagem geral sobre Paris ou outra cidade, e nunca teremos. Aqui procuramos ir ao particular, às vezes até ao nicho do nicho.”Inspirada “em projectos internacionais de referência no campo das revistas independentes”, conforme se lê na sua apresentação, a Primitiva “posiciona-se como uma publicação premium, que alia jornalismo, design e fotografia para construir um arquivo de histórias essenciais”. “Pensámos num produto que qualquer um de nós queria comprar e não encontrava no mercado”, traduz Luísa Pinto, editora da nova revista e também ela ex-jornalista do PÚBLICO. A equipa da Primitiva fica completa com Rui Barbosa Batista, jornalista da Lusa, e Fábio Alves, o director criativo, que concebeu um projecto gráfico arrojado e em diálogo permanente com os outros dois eixos fundamentais da revista, o texto e a fotografia.
Nelson Garrido
Nelson Garrido
Um design “incorrecto” para um mundo imperfeitoA Primitiva entrou para impressão nos primeiros dias de Novembro, na Norprint, em Santo Tirso. Foi lá que encontrámos a equipa fundadora – à excepção de Rui Barbosa Batista, em viagem, ossos do ofício – empolgada com o nascimento do “filho”, palavras de Filipe Morato Gomes. “É uma sensação incrível estar aqui a ver isto nascer”, diz, enquanto se debruça para analisar as primeiras provas que saem das máquinas de offset. Porque o mundo pode ser cada vez mais digital, mas o papel “continua a ser um lugar de resistência e de preservação”, diz Luís Octávio Costa. Aliás, o número inaugural abre justamente com um elogio ao papel feito por múltiplas vozes. “O papel é uma certeza, uma certeza com milhares de anos. No dia em que desaparecer, morreremos nós também”, escreve António Araújo, editor da Fundação Francisco Manuel dos Santos.A nova revista exorta os leitores a olharem “mais fundo, sem filtros nem pressas, para além do imediato”, descreve Filipe Morato Gomes. Com 220 páginas – onde, por decisão editorial, só há 12 de publicidade, a abrir e a fechar –, é um objecto “intemporal” e ao qual se volta “sempre que se quiser”, acrescenta Luísa Pinto. “A Primitiva é para ser guardada e relida.” Fábio Alves vai mais longe: “É um produto de culto, para coleccionadores, que pode ser revisitado ao longo dos anos.”
O director criativo entrou no comboio da Primitiva “numa estação mais à frente, quando a viagem já tinha começado”, ouviu a equipa e interpretou o conceito à sua maneira. “Quando comecei a perceber as histórias que eles queriam contar, vi que vêm de uma raiz imperfeita, de um mundo que não é sempre lindo e bonito. E foi isso que quis transpor para o design.” Quando viu as primeiras propostas de Fábio Alves, Filipe ficou “chocado”.“Letras a vermelho? Páginas ao contrário? Uma revista sem números nas páginas?” Mas depois tudo fez sentido. “O vermelho é a cor primitiva, é a primeira cor, é rupestre. As fontes também são das primeiras que foram criadas. E depois assumimos a imperfeição como parte do projecto, quase como se tivéssemos um design incorrecto”, explica Fábio Alves. “O Fábio quis conduzir os leitores como se estivessem a fazer uma viagem por terra, de transportes públicos, em vez de irem de avião”, reflecte Filipe Morato Gomes, que já fez duas voltas ao mundo, ambas relatadas nas páginas da Fugas.“Não há um livro de estilo gráfico, porque o design ajusta-se a cada história, ao ritmo, à cor”, junta Luísa Pinto. E então, qual matrioska, tudo se encaixa, de novo. “Queremos contar histórias que importam. Em vez de acrescentar ruído, queremos abrir espaço para a escuta e para a memória”, nota Luís Octávio. E, de novo, cada história é um pedaço de mundo que pode ser tosco, sujo ou visceral. Como uma matança do porco nos frios de Monção.
O primeiro número da “Primitiva” teve uma tiragem de 2000 exemplares
Nelson Garrido










