COP30: a Amazónia sob os olhos do mundo
Fui delegada na minha primeira COP aos 18 anos, em Madrid, e o momento que mais me marcou foi a grande marcha a meio da conferência, que reuniu meio milhão de pessoas nas ruas. A COP30 será a minha sexta COP – mas, passados seis anos, as reivindicações continuam as mesmas: justiça climática e social.Agora, enquanto a Cimeira das Nações Unidas decorre no coração da Amazónia, todos os olhos estão voltados para o Brasil, à procura de sinais de liderança à altura da urgência climática. Estarei em Belém para acompanhar de perto estas negociações históricas, e a verdade é que o país se encontra numa encruzilhada: promete proteger a floresta, mas concede novas licenças a empresas de petróleo, minando a confiança e colocando em risco as comunidades que há gerações defendem estas terras.O mundo quer ver ação concreta – mas será que o Presidente Lula e o Presidente da COP30, André Corrêa do Lago, estarão à altura do que a ciência exige?
De onde partimos?A COP30 é um teste importante para o multilateralismo climático – e chega numa altura decisiva. Em julho de 2025, o Tribunal Internacional de Justiça emitiu um parecer consultivo histórico, confirmando que os Estados têm o dever legal de prevenir danos climáticos. Agir contra a crise climática não é apenas uma escolha política: é uma obrigação jurídica, apoiada por tratados climáticos, direitos humanos e leis internacionais.Apesar disso, a nova ronda de compromissos dos países (as Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDC, na sigla em inglês), cujo prazo inicial só 5% dos países cumpriram, mostra uma falta grave de ambição e uma crise de confiança. Este fracasso não é ao acaso: está enraizado numa ordem económica que aumenta a desigualdade e protege interesses corporativos, enfraquecendo a cooperação internacional, especialmente num contexto marcado por guerras, genocídios, protecionismo económico e regimes autoritários. Depois do desastroso resultado da COP29, em que os países em desenvolvimento foram pressionados a aceitar um acordo insuficiente sobre financiamento, a desconfiança entre nações atingiu níveis alarmantes. Se a COP30 não conseguir mudar o rumo, qual é o real propósito destas negociações face à realidade de um planeta em colapso? Vivemos impactos climáticos que superam sistematicamente as projeções e causam prejuízos anuais de centenas de milhares de milhões. As perdas recaem de forma desproporcionada sobre populações empobrecidas e vulnerabilizadas pela marginalização, destruindo vidas e ecossistemas e condenando gerações à instabilidade.
O que está em jogo?O grande tema das negociações climáticas deste ano é a transição justa. A ação climática só é justa se mantiver as sociedades vivas e prósperas – criando empregos, oportunidades e futuro nas comunidades. Um plano climático não pode apenas substituir o que se perde, tem de ampliar as possibilidades, fortalecendo economias locais – dos transportes à energia limpa, da agricultura ao ensino. O verdadeiro teste é simples: as comunidades prosperam à medida que as indústrias mudam?Ora, estando nós na Amazónia, não podemos esquecer a proteção da natureza e dos ecossistemas: acabar com o desmatamento, proteger a biodiversidade e transformar os sistemas alimentares são passos essenciais para uma ação climática eficaz. A adaptação também precisa de avançar: o Objetivo Global de Adaptação, ainda em negociação, deve garantir que países e comunidades vulneráveis recebam recursos, tecnologia e apoio para enfrentar os impactos da crise climática, com soluções lideradas pelas próprias comunidades. No financiamento, é preciso restaurar a confiança depois do fracasso da nova meta da COP29, e os países historicamente responsáveis devem aumentar o apoio à adaptação, perdas e danos, e alinhar o financiamento global com os objetivos do Acordo de Paris. E, claro, a igualdade de género é central: a COP30 deve consolidar um novo Plano de Ação de Género que transforme igualdade de género, justiça racial, direitos humanos e justiça climática em compromissos concretos.É hora de a ação climática evoluir e de os decisores políticos colocarem as prioridades das pessoas no coração de todas as respostas climáticas.Passados três anos, voltamos às ruasBelém vai ferver – não apenas de calor, mas também de debates, exposições, palestras, apresentações culturais e manifestações da sociedade civil. Do rio Napo, no Equador, até às comunidades da Mesoamérica, povos indígenas e ativistas climáticos unem-se na cidade. A Flotilha Yaku Mama percorreu 3000 quilómetros de rios da Amazónia, ligando comunidades do Equador, Peru, Colômbia e Brasil, para exigir o fim da expansão dos combustíveis fósseis e garantir que os povos indígenas liderem decisões climáticas globais. O percurso começou com cerimónias sagradas e atravessou comunidades ribeirinhas, registando histórias de resistência e apelando a uma transição energética justa, baseada no conhecimento ancestral.Leo Cerda, ativista Kichwa do Napo, onde a mineração contaminou rios e trouxe violência à sua comunidade, lembra-nos: “Esta é a COP da Amazónia. O mundo não vem para uma cidade distante; vem para a nossa casa, e a nossa casa está num ponto crítico.” Através do Projeto HAKHU, Cerda apoia alternativas económicas à extração e, como parte da Flotilha Yaku Mama, reforça: “A floresta não existe sem os Povos Indígenas. As decisões sobre a Amazónia devem ser tomadas pelos povos da Amazónia.”Ao mesmo tempo, a Caravana Mesoamericana pelo Clima e pela Vida viajou desde o sul do México até ao Brasil, amplificando lutas territoriais e histórias das comunidades que defendem a terra, promovendo justiça climática, soluções climáticas vindas dos povos e da natureza e pressionando governos sobre a urgência das crises. Mulheres indígenas lideraram estes esforços, ligando a defesa da terra e da água à proteção das suas culturas e corpos, desafiando décadas de exclusão das negociações climáticas oficiais. À chegada a Belém, estas caravanas e flotilhas deixaram uma mensagem clara: a COP30 não pode continuar a decidir sobre nós, sem nós.Depois de três COP consecutivas em que a sociedade civil não se pôde mobilizar (Egito, Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão), uma grande marcha pelo clima terá lugar no primeiro sábado da conferência, dia 15, reunindo milhares de jovens, comunidades indígenas, cientistas e habitantes de Belém. A Cúpula dos Povos acontecerá em paralelo, reunindo mais de mil organizações e coletivos, assim como a “COP Indígena” e vários outros espaços para eventos da sociedade civil e do movimento climático.Beto Marubo, defensor do Vale do Javari, lar da maior concentração de grupos indígenas isolados do mundo, lembra-nos: “Esta COP está a ser chamada de ‘A COP das ruas’. Será lá, fora dos espaços oficiais, que as nossas vozes serão ouvidas, e onde a verdade será dita.” Desde os assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips, em 2022, Marubo intensificou os pedidos de proteção governamental às terras indígenas, combatendo a mineração e a caça ilegal.Em todo o planeta, desde os sindicatos até às comunidades indígenas, há uma exigência unificada: que a ação climática funcione a favor das pessoas, e não contra elas. Este é o desafio da COP30 – e a mensagem é clara: agora é o momento de transformar promessas em ação, e a justiça climática não pode esperar mais.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










