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Morreu o realizador neozelandês Lee Tamahori, empenhado cultor da identidade maori

O realizador neozelandês Lee Tamahori, que há vários anos sofria de doença de Parkinson, morreu aos 75 anos, em casa. Autor de dramas como Once Were Warriors —​ Alma de Guerreiros, sobre uma família maori, e de filmes de acção como XXX: Estado Radical 2 ou 007 – Morre Noutro Dia, foi um empenhado cultor da identidade do povo originário do seu país.“O seu legado perdura na sua whānau [família], nos seus mokopuna [netos], em cada cineasta que inspirou, em cada limite que ultrapassou e em cada história que contou com o seu olhar genial e o seu coração sincero”, comentou a família, em comunicado enviado ao canal público de rádio da Nova Zelândia RNZ. “Um líder carismático e com um espírito criativo feroz, Lee defendeu o talento maori tanto no ecrã como fora dele.”Figura respeitada do cinema da Nova Zelândia, país dos oscarizados Jane Campion e Peter Jackson, teve em Once Were Warriors — Alma de Guerreiros (1994) a sua “revelação” no mercado internacional, quando o filme se estreou no Festival de Cannes. Colocava o actor Temuera Morrison na personagem de um pai violento, alcoólico e belicoso, numa família humilde e de etnia maori em que os problemas, de geração em geração, se empilham rumo ao desastre. Um retrato que se encaixava, de certa forma, no realismo social da época, e que ao mesmo tempo focava as cicatrizes impostas pela colonização da Nova Zelândia ao seu povo autóctone, os maori.Em Cannes, Once Were Warriors — Alma de Guerreiros impressionou; na Nova Zelândia, tornou-se o filme mais rentável de sempre, com resultados de bilheteira que ultrapassaram O Piano (1990), que dera o Óscar a Jane Campion. A saga O Senhor dos Anéis, apesar da sua pegada neozelandesa, não entra na mesma corrida, porque se trata de uma co-produção maioritariamente norte-americana.Lee Tamahori, de ascendência maori e britânica, nasceu em Wellington, a capital do país, em 1950. Na adolescência, gostava de faltar às aulas para ir ver o que estivesse a passar no cinema — normalmente, produções americanas e filmes de acção. A sua entrada profissional no plateau fez-se pela via técnica: era fotógrafo, mas também trabalhava em publicidade, passou pelo som e depois ascendeu a assistente de realização de Nagisa Oshima em Feliz Natal, Mr. Lawrence (1983). Após a estreia como realizador com uma curta-metragem, adaptou o tal romance de Alan Duff (1990), Once Were Warriors, nesse filme pelo qual é ainda hoje mais recordado.Houve também, claro, 007 — Morre Noutro Dia, de 2002, com Pierce Brosnan como James Bond e Halle Berry como co-protagonista. Mas a tentação de o destacar à cabeça da sua filmografia é perversa, porque o filme não é propriamente estimado: nem pelos fãs de Bond, nem pelos cinéfilos. Na altura da estreia, o PÚBLICO sublinhava que o 20.º filme da saga era “o mais caro filme Bond de sempre e o primeiro com efeitos especiais por computador”. Numa visita às filmagens, Helen Barlow descrevia Tamahori como “temerário”, “ágil”, explicando que o percurso do cineasta pós Once Were Warriors — Alma de Guerreiros não tivera o mesmo impacto e por isso se entregava à tarefa de fazer um novo Bond de alma e coração.Educado pelos filmes de Sam Peckinpah ou Don Siegel, Tamahori realizara entretanto Mulholland Falls (1996), com Nick Nolte e Chazz Palminteri, uma história de violência policial em Los Angeles, No Limite (1997), com guião de David Mamet e protagonizado por Anthony Hopkins e Alec Baldwin, bem como o mais popular A Conspiração da Aranha (2001), com Morgan Freeman. “As pessoas encaravam-me como aquele realizador da Nova Zelândia que faz filmes sobre tipos que espancam mulheres e que só é bom num tipo de cinema duro”, dizia Lee Tamahori ao PÚBLICO em 2002 no plateau britânico de 007 — Morre Noutro Dia.0007 —Morre Noutro Dia foi um sucesso de bilheteira, mas não teve grande recepção crítica, apesar de momentos memoráveis e de piscares de olho reverenciais aos Bond do passado. Seguiu-se o dispensável XXX: Estado Radical 2 (2005) espécie de franchise lançado por Vin Diesel que este abandonou ao segundo tomo e deixou nas mãos de Ice Cube. Entre outras linhas da sua filmografia consta a realização de um episódio de Os Sopranos, na televisão. Viriam ainda A Dupla Pele do Diabo (2011), um filme sobre o filho de Saddam Hussein e o seu duplo, ambos interpretados pelo britânico Dominic Cooper, e depois, finalmente, O Patriarca (2016), em que o realizador regressava a casa.Passado na Nova Zelândia em 1960, confronta duas famílias maori, colocando novamente Temuera Morrison no papel de patriarca. Aqui mais velho (e já depois de ter encarnado Jango Fett e Boba Fett na renascida saga Star Wars), o patriarca gere os conflitos familiares em torno de um amor proibido à imagem de Romeu e Julieta. Mais uma vez, Tamahori adaptou a obra de um conterrâneo, desta feita Witi Ihimaera, escritor de ascendência maori.O seu último filme, The Convert (2024), com Guy Pierce, não teve estreia comercial em Portugal.

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