CIÊNCIA

A verdade sobre o FC Porto-Sp. Braga

O futebol é aquele jogo em que uma equipa precisou de 683 passes para enquadrar três remates na baliza, mas no fim jogou melhor do que o adversário, a quem bastaram 301 passes para enquadrar quatro (e marcar dois golos). O recente FC Porto-Sp. Braga merecia um compêndio metalinguístico: jogar melhor significa tomar o caminho mais difícil? Tomar o caminho mais simples significa jogar pior? Rodrigo Mora ainda é o melhor jogador do mundo?No Dragão, domingo passado, o Sp. Braga possuiu. Possuiu muito, e possuiu quase tudo, menos o que leva aos golos e às vitórias. O FC Porto possuiu pouco (30% da posse de bola mais ou menos), e o que possuiu não possuiu lá muito bem, mas quase sempre teve diante de si uma auto-estrada para os três pontos. Enquanto o Sp. Braga, de Carlos Vicens, “tikitakava” na sua linha do meio-campo como se não houvesse amanhã, o observador experimentado só podia fundamentar uma impressão: o FC Porto estava a uma recuperação de bola e dois passes seguidos de marcar. Como o Genk, esta quinta-feira na Pedreira: 623 passes do Braga, seis remates enquadrados; 363 passes dos belgas, oito remates enquadrados (e quatro golos, dois deles dentro da fórmula recuperação/dois passes seguidos cuja promessa Farioli havia exposto no Dragão.Expôs melhor do que aplicou. Até chegarem os suplentes Gabri Veiga e Borja Sainz, ou não recuperava, ou, quando conseguia fazê-lo, nunca engatilhava o segundo passe. Essa particular incompetência ajudou os regimentos do pensamento único a contribuir, mais um bocadinho, para a eternização de uma ideia feita: a de que as equipas vencedoras têm todas de vestir a mesma farda, de comer de faca e garfo e de ignorarem o que o adversário lhes oferece, mesmo quando lho oferece descaradamente.Talvez o treinador do FC Porto não diga a verdade toda quando sugere que foi possuído pelos demónios de Vicens de forma voluntária, mas isso não muda a situação gerada. Para o Sp. Braga, o golo consistia num elaborado estratagema de 20 passes, uma dramática variação de flanco e talvez duas tabelas na pequena área. Para o FC Porto, o golo pedia uma recuperação e dois passes consecutivos. O jogo só poderia ter sido mais simbólico do bizarro pensamento prático do treinador Francesco Farioli se o jogador substituído pelo recuperador (e inestético) Pablo Rosário, na segunda parte, fosse o criativo Rodrigo Mora (que já não estava em campo).Finalmente titular, quando o FC Porto fraquejante parecia render-se à necessidade dos seus talentos (não se preocupem, acontecerá em breve), Mora cumpriu apenas mais uma lição do futebol moderno que o levará, um dia, a ser um jogador total. Quando o jogo pede linhas rectas, que diferença pode fazer um especialista em curvas impossíveis? Ignorem a minha opinião e ouçam a do romântico Arsène Wenger, antigo treinador do Arsenal, explicando como pôde uma das melhores equipas do planeta suicidar-se com a contratação de um dos melhores jogadores do planeta.Wenger conta que o Liverpool, campeão inglês em 2024-25, fez um pacto com o diabo no último Verão. Para convencer Florian Wirtz, espantoso criativo da selecção alemã, a preferir Anfield ao Bayern de Munique (por 116M€), o treinador Arne Slot ter-lhe-á prometido a mirífica posição 10. Foi lá que Wirtz jogou nos primeiros seis ou sete jogos, vencendo sempre, apesar de contribuir pouco ou nada para os golos da equipa. Até deixar de vencer. “Wirtz custou ao Liverpool o melhor meio-campo da liga inglesa”, defende Wenger. Na terça-feira, o trio de médios (Gravenberch, Mac Allister e Szoboszlai) desfeito para que o alemão jogasse a 10 alinhou a titular no jogo de Liga dos Campeões ganho ao Real Madrid (2-1), e Wirtz deslizou para um flanco, como hoje acontece a todos os criativos que não querem ou não conseguem cumprir a metade dolorosa do trabalho.Até um pragmático empedernido terá dificuldades em encontrar um médio actual mais sedutor que Wirtz, mas nem ele escapou ao choque com o mundo real. Talvez, em circunstâncias alternativas, o Liverpool pudesse sustentar as cavalgadas insanas da Liga inglesa abdicando de um médio pleno para ter Wirtz como 10. Nas actuais, é factual que não foi capaz. Talvez o FC Porto, noutro dia, pudesse disputar a posse de bola ao Sp. Braga (mesmo com a desvantagem de não viver todos os minutos de todos os dias obcecado com ela) e permitir-se, em simultâneo, usufruir de Rodrigo Mora no meio-campo. No mundo real, precisou de Pablo Rosário, e a única alternativa verdadeira seria fazer de conta que não. Acontece muitas vezes. Contra o Genk, Vicens fez de conta que, no Dragão, 683 passes para três remates enquadrados (e uma derrota) haviam sido bons auspícios. Infelizmente para o Sp. Braga, os belgas tinham visto outro jogo.

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