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Lideranças tóxicas e o silêncio institucional no sector público

Falar de ambientes de trabalho saudáveis tornou-se quase uma rotina discursiva. Ouvimos o termo em planos estratégicos, conferências e relatórios públicos, mas, por trás dessa linguagem bonita, escondem-se locais de trabalho silenciosamente doentes. O problema está menos nas estruturas e mais nas pessoas que as lideram. Nenhuma organização é mais saudável do que a forma como é liderada.Uma liderança tóxica não se define apenas pela agressividade. Manifesta-se também na indiferença, na ausência de escuta e na desvalorização do sofrimento humano. É o gestor que ignora sinais de mal-estar, o chefe que confunde autoridade com poder, o dirigente que exige obediência, mas não oferece apoio. Liderar é cuidar e orientar; quando essa missão falha, instala-se o medo e adoece o ambiente.No sector público, esta realidade é particularmente evidente. A rigidez hierárquica, o excesso de burocracia e a falta de formação em gestão humana tornam muitas chefias incapazes de identificar riscos psicossociais ou de agir perante eles. Em vez de prevenir, toleram; em vez de resolver, adiam. E quando as avaliações de riscos são feitas, acabam esquecidas numa gaveta. Cumpre-se o requisito legal, mas ignora-se o propósito. Segundo a European Agency for Safety and Health at Work (EU-OSHA, 2022), o sector público é o mais vulnerável à má gestão dos riscos psicossociais. Entre os factores apontados estão a escassa formação das lideranças intermédias e a ausência de acompanhamento posterior às avaliações. Em muitas instituições, os diagnósticos são produzidos, mas as medidas correctivas nunca chegam a ser implementadas. O resultado é previsível: o mal-estar perpetua-se e a confiança esvai-se.Mas o problema é mais profundo: reside na debilidade das lideranças intermédias. São elas que deveriam ligar trabalhadores e decisores, traduzindo o que se vive no terreno. No entanto, em muitos organismos públicos, estas chefias são mal preparadas, escolhidas sem critério técnico e sem formação em gestão de pessoas. Isso cria um efeito perverso: os decisores acreditam receber retratos realistas das condições laborais, mas recebem relatórios filtrados e irreais. O sofrimento psicológico não sobe na hierarquia, fica preso no meio da cadeia, abafado por conveniências e medo.As consequências são graves. O sector público, que deveria ser modelo de protecção, falha repetidamente na sua responsabilidade social. O exemplo mais doloroso vem das forças de segurança. Homens e mulheres que enfrentam diariamente risco, violência e trauma continuam esquecidos nas políticas de saúde mental. Trabalham sob uma cultura que valoriza a resistência e despreza a vulnerabilidade. O silêncio tornou-se parte da farda.Os suicídios nas forças de segurança não são inevitáveis. São o reflexo de uma estrutura que normaliza o sofrimento e adia o cuidado. Em Portugal, registaram-se mais de 100 suicídios entre elementos da PSP e da GNR entre 2010 e 2024. Fala-se de disciplina, mas ignora-se o impacto emocional. Fala-se de coragem, mas cala-se o desespero. Uma liderança que exige força sem oferecer apoio é uma liderança que falha.As lideranças tóxicas agravam tudo. Onde há medo de falar, não há mudança possível. Uma chefia que reprime em vez de escutar, que isola em vez de integrar, transforma o trabalho num espaço de resistência, não de realização. E quando essa cultura é institucional, o sistema inteiro adoece.É urgente reformar a forma de liderar no sector público. É urgente capacitar as lideranças intermédias com formação em saúde ocupacional, comunicação, gestão emocional e ética organizacional. É urgente que os decisores políticos deixem de confiar em relatórios filtrados e se aproximem da realidade das equipas. Avaliar riscos psicossociais e nada fazer é como diagnosticar uma doença e recusar tratamento. As forças de segurança e outros sectores de risco precisam de políticas específicas, acompanhamento psicológico regular e espaços seguros para expressar fragilidade sem medo. Proteger quem protege é um dever de Estado.Criar ambientes de trabalho saudáveis não é um luxo, é um acto de justiça. O trabalho foi feito para dar sentido à vida, não para a tirar. Enquanto o sofrimento continuar escondido em relatórios ou abafado por hierarquias, o discurso da saúde organizacional será apenas retórica.

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