CIÊNCIA

Crise na habitação fez aumentar número de sem-abrigo na Amadora e em Loures

A falta de casas e os preços do mercado habitacional têm sido uma das grandes dificuldades na integração de sem-abrigo nos concelhos da Amadora e Loures, indicaram as coordenadoras do Núcleo de Planeamento e Intervenção com Sem-Abrigo (NPISA) de cada um dos municípios, numa sessão desta sexta-feira do evento “É Um Congresso, Housing First & Harm Reduction”, que se realizou na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. “Há pessoas que trabalham, já não conseguem pagar a renda e ficam desprovidas do acesso a uma casa”, assinalou uma das responsáveis.Ana Moreno, coordenadora do NPISA da Amadora, que tem como entidade coordenadora a câmara municipal, assinalou que um dos grandes desafios da estrutura é a “ausência de respostas habitacionais e os custos habitacionais” associados. “Se há uns anos era fácil arranjar um quarto ou uma casa em que a pessoa podia ter apoio e se conseguia organizar, neste momento não é”, notou. “As casas na Amadora estão ao preço das casas em Lisboa e nem há disponíveis no mercado.” Ana Moreno referiu que, até mesmo nas zonas menos procuradas do concelho, se podem encontrar T2 a 1000 euros na Amadora. E salientou que há pessoas a trabalhar, que não conseguem pagar uma renda e ficam sem acesso a uma habitação.Ao PÚBLICO, a responsável salientou que não há respostas municipais de habitação para pessoas em situação de sem abrigo, pois a habitação social do concelho tem sido muito focada no realojamento de pessoas que vivem em “zonas mais degradadas”. “Temos uma grave crise habitacional no município”, notou.O número de pessoas em situação de sem abrigo é outro dos desafios e a coordenadora indicou que, este ano, já foram contabilizadas 143 (109 sem tecto e 34 em casa), o que é um aumento relativamente aos 113 do ano anterior – mesmo assim, a responsável assinala que terá existido um problema no recenseamento de 2024 e o valor pode ter sido superior. Após a pandemia de covid-19 houve um aumento de sem-abrigo na Amadora, tendo sido contabilizados 92 em 2021, 144 em 2022 e 153 em 2023.Numa breve caracterização às pessoas em situação de sem abrigo no concelho, Ana Moreno indicou que a maioria é homem, de nacionalidade portuguesa, está na rua há menos de cinco anos, pernoita sobretudo na freguesia de Águas Livres e consome drogas. “Na Amadora, 95% das pessoas [em situação de sem abrigo] têm comportamentos aditivos”, realçou na sessão do evento, que foi organizado pela associação Crescer, e que teve a moderação da activista Paula Cosme Pinto. As causas para a situação são a ausência de apoio familiar, o desemprego ou a precariedade laboral.Outros dos desafios mencionados por Ana Moreno foram o aumento de consumo de droga a “céu aberto”, a falta de “políticas públicas coordenadas e centradas nas pessoas” ou a aplicação de uma estratégia de intervenção para pessoas em situação de sem abrigo em toda a Área Metropolitana de Lisboa.Despejos e desalojamentosTambém Carla Toscano, coordenadora do NPISA de Loures, assinalou como “grande desafio e dificuldade” a crise habitacional. “Até podíamos resolver muitas situações se nos disponibilizassem mais casas”, notou. “Apesar de surgirem oportunidades para as entidades se candidatarem e haver financiamento da segurança social, esse financiamento não é suficiente para as casas.” A responsável indicou que as autarquias não têm tido capacidade para alocar habitações para as pessoas nesta situação, pois têm de responder a solicitações de vários tipos ao nível da habitação social. Neste momento, indicou ao PÚBLICO, o município de Loures tem 27 camas destinadas a sem-abrigo e estão todas ocupadas.Numa caracterização das pessoas em situação de sem abrigo no concelho, indicou que o número mais actual é de 205 (148 sem tecto e 57 sem casa), havendo assim um aumento em relação ao ano passado, em que se tinham contabilizado 166. A maioria tem nacionalidade portuguesa, está em idade activa e apresenta elevados consumos de álcool. Muitos deles ficaram nesta situação devido a despejos e desalojamentos. “Ultimamente, temos identificado, quase na totalidade, pessoas que viviam em quartos e, como ficaram desempregadas, estão sem um quarto.”Paulo Santos, responsável pelo NPISA de Lisboa, corroborou que “a habitação é essencial” e chamou a atenção para a importância da robustez das políticas públicas de prevenção na área: “Quando essas políticas falham as pessoas mergulham neste contexto de [uma vida de] situação de sem abrigo.” Em Lisboa, foram contabilizados, em 2024, 3122 pessoas em situação de sem abrigo (2683 sem casa e 439 sem tecto), o que representa uma diminuição face a 2023, quando o valor atingia 3378 pessoas (2830 sem casa e 548 sem tecto). Não foram referidos números para este ano.

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