Junts formaliza ruptura com Governo de Sánchez: “A legislatura fica bloqueada”
O partido independentista catalão Juntos pela Catalunha (Junts) anunciou, esta quinta-feira, que irá vetar todas as leis apresentadas pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e pelo Sumar, o seu parceiro de coligação no Governo.A decisão foi anunciada numa conferência de imprensa extraordinária no Congresso, onde a porta-voz do partido, Míriam Nogueras, acompanhada pelos restantes seis deputados da formação independentista, anunciou que a “legislatura fica bloqueada”.É um passo em frente na decisão de romper com o Governo de Sánchez, queimar pontes. Na prática, sem os sete votos decisivos do Junts no Congresso, as mais de 50 leis mencionadas por Nogueras ficam no limbo, sem a maioria necessária para serem aprovadas. A porta-voz do Junts referiu especificamente as emendas apresentadas pelo partido a 25 leis que já estão em discussão no Congresso — incluindo a um projecto de lei que quer reconhecer a diversidade dos modelos familiares ou a modificação à lei para regular os estágios curriculares universitários —, o voto negativo às 21 que estão na fase final da tramitação e o veto às nove que estavam na mesa do Conselho de Ministros.“Sánchez aferra-se ao poder e sem o apoio do Junts não pode aprovar nada, a menos que arranje um acordo com o PP e Vox”, afirma a deputada, concretizando que a proposta de Orçamento – que ainda não foi apresentada – também está em risco.De fora da razia ficam apenas cinco leis, sobre o apoio ao consumidor, o apoio às pessoas com esclerose lateral amiotrófica, mobilidade sustentável, economia social e lei do cinema. “Sem margem” para mais, diz a porta-voz do Junts.A porta está “fechada”Míriam Nogueras não tentou suavizar o golpe, pelo contrário. Numa conferência de imprensa que os meios espanhóis descrevem como dura, foi peremptória: “Numa democracia parlamentar, Sánchez devia explicar como vai conseguir continuar a governar, e ainda não o fez”, aponta.O Junts não faz parte da coligação actualmente no poder, mas os acordos que fez com o PSOE foram fundamentais para a investidura de Sánchez e os seus votos foram decisivos para aprovar leis importantes ao longo dos últimos dois anos. Em troca, os socialistas cederam a algumas exigências, da lei da amnistia ao reconhecimento da língua catalã na Europa, passando pela transferência de competências em matéria de imigração para a Catalunha.Agora, sentem-se defraudados e dizem que o PSOE desperdiçou “oportunidade histórica” depois de 19 reuniões no estrangeiro. “A porta foi fechada pelo PSOE e pelo Sumar, que não cumpriram os acordos. Se não os cumpriram em dois anos, não acredito que comecem agora”, defende Nogueras.Os socialistas fazem de conta que “está tudo bem” para se “manterem no poder”, mas “não cumprir com a Catalunha tem consequências”. Nogueras aponta ainda o dedo aos deputados catalães socialistas e do Sumar, assim como ao executivo catalão liderado por Salvador Illa, que “não fazem nada quanto ao incumprimento do Governo com os cidadãos da Catalunha”.E, se publicamente, a mensagem ainda deixava uma réstia de esperança – Nogueras deixa a bola com Sánchez, que deve “decidir se quer continuar no poder sem Governar”, mas sem acenar com uma moção de censura ao Governo – dentro do partido a mensagem é de que “acabou tudo”.Algumas fontes do Junts disseram ao El Periódico que a “ruptura é absoluta, sem diálogo nem negociação, nem orçamentos”.Já fontes do Governo disseram ao El País que se mantém de “mão estendida” e recusam a versão de que houve incumprimento dos acordos: “As iniciativas que dependem apenas do Executivo ou se cumpriram ou estão em vias de serem cumpridas”. “Enquanto não estiver em cima da mesa uma moção de censura, há margem para diálogo, votação a votação”, acreditam.“Como era o Governo mais estável da Europa?”, ironizou o líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, nas redes sociais, depois do passo dado pelo Junts.A decisão de romper com o Governo foi anunciada na semana passada por Carles Puigdemont e validada no passado dia 30 pelas bases do partido: 87% mostraram apoiar a decisão da direcção do Junts. Alguns dias antes, Míriam Nogueras dizia que Sánchez devia pensar “na hora da mudança” e, em entrevista ao El País, afirmava que o próximo passo do partido não seria um “ultimato”, mas sim “uma ruptura” que significa que “a legislatura não vai chegar a 2027 porque Sánchez não tem a maioria”.










