DESPORTO

O silêncio dos copos: solidão e vinho na era em que já ninguém sai de casa

Entre o sofá e o brinde perdido, o mundo do vinho tenta compreender como o isolamento social se tornou a nova normalidade.Há poucos anos, um jantar entre amigos era sinónimo de barulho, gargalhadas e copos que se enchiam e esvaziavam em alegre desordem. Hoje, o som mais ouvido em muitas casas é o “plim” das plataformas de streaming a começar mais um episódio. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial caiu em 2024 para cerca de 214 milhões de hectolitros, o valor mais baixo desde 1961. Mas talvez o que esteja a diminuir não seja apenas o vinho, é o convívio.A culpa, como sempre, é partilhada. Há a inflação que fez subir o preço das garrafas, os fenómenos climáticos que baralham vindimas e as carteiras mais magras depois de crises sucessivas. Mas há também algo mais profundo: uma transformação silenciosa nos nossos hábitos sociais.A Geração Z, dizem os estudos, “é a mais sóbria de sempre”. Um relatório do British Medical Journal confirma uma queda acentuada no consumo de álcool entre jovens adultos, tendência replicada na Austrália e nos Estados Unidos. É uma geração mais informada, mais preocupada com a saúde, e, curiosamente, mais sozinha.Segundo o Eurostat (2024), 13% dos europeus dizem sentir-se frequentemente sós, e entre os jovens dos 16 aos 29 anos essa percentagem duplicou desde 2010.Em Portugal, um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que um em cada cinco portugueses se sente só com frequência.O fenómeno é tão relevante que a Organização Mundial da Saúde passou a classificar a solidão como uma ameaça à saúde pública, comparando o seu impacto físico ao de fumar 15 cigarros por dia. E, enquanto isso, o tempo passado em ecrãs ultrapassa as sete horas diárias entre os jovens adultos, quase metade do tempo acordado vivido em isolamento digital.No nosso tempo, e falo dos que cresceram nas décadas de 1970 e 1980 — sim, ainda sou novo 🙂 —, o verbo “sair” era quase uma necessidade fisiológica. O convívio não se planeava, acontecia; “beber um copo” era sinónimo de conversa, de gargalhada, de reencontro. E, sejamos honestos, um copo raramente era só um copo.Hoje, o brinde foi substituído pelo emoji do copo de vinho. O bar é virtual, o grupo de amigos é um chat, e o brinde chega por notificação. A mesa ficou vazia, e o vinho, esse companheiro ancestral de celebrações, transformou-se em adereço de sofá.O que antes unia as pessoas, agora, muitas vezes, serve apenas para acompanhar o silêncio.Há números que explicam parte dessa mudança. No Reino Unido, mais de 15 mil pubs fecharam nas últimas duas décadas, que saudades do meu Dean Swift em Butlers Wharf, e o sector noturno perdeu 26% dos seus espaços desde 2020.Em Portugal, a realidade é menos dramática, mas o padrão repete-se: há menos bares, menos discotecas, menos locais onde a sociabilidade se pratica ao vivo, e o vinho sofre particularmente com isso.O chamado consumo on-trade, aquele que acontece em restaurantes, bares e eventos, é o que mais alimenta a cultura do vinho.Sem mesas cheias, o vinho perde o seu palco natural, e, sem palco, até o melhor néctar corre o risco de ficar esquecido na garrafeira.É claro que a moderação é essencial, não se trata de defender o regresso das noites infindáveis, mas de reconhecer que o vinho, quando bebido com sensatez, é muito mais do que álcool: é cultura, é paisagem, é conversa.Emprega mais de 100 mil pessoas em Portugal, representa cerca de 2% das exportações nacionais, e continua a ser uma das formas mais elegantes de celebrar a vida, com os outros.O desafio é simples e, ao mesmo tempo, monumental: como voltar a brindar juntos?Como reconquistar o prazer do convívio, da partilha e da presença?O vinho, afinal, nasceu para isso, para juntar pessoas, não para as acompanhar na solidão.Talvez o caminho esteja em redescobrir o valor do encontro, ainda que breve, ainda que com água no copo.Porque brindar sozinho é uma contradição de termos, e, se há coisa que o vinho nos ensinou ao longo dos séculos, é que a vida ganha sabor quando é partilhada.O vinho sempre foi o pretexto; o essencial era, e continuará a ser, quem está à mesa.Consultor internacional de vinhos e CEO da Martins Wine Advisor. O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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