Toda unanimidade continua burra
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Assisti recentemente à peça O Julgamento, dirigida por Christiane Jatahy e protagonizada por Wagner Moura, inspirada em Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen. Saí do teatro com a sensação de estar diante de uma obra escrita para o nosso tempo — mesmo tendo sido publicada em 1882.Ibsen falava da sociedade norueguesa, mas o espelho que nos oferece é global: o da verdade que incomoda, da coragem de quem se opõe à maioria e do linchamento moral que sempre ameaça quem se atreve a pensar diferente.O personagem central, o doutor Stockmann, descobre que as águas do balneário — orgulho e sustento da cidade — estão contaminadas. Ao tentar revelar a verdade, torna-se alvo de insultos, calúnias e ameaças. “A maioria nunca tem razão”, diz ele, num dos momentos mais fortes da peça.É impossível não lembrar da frase de Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”. São pensamentos irmãos, nascidos de contextos diferentes, mas movidos pelo mesmo instinto de lucidez — a desconfiança diante do conforto das certezas coletivas.Lembrei-me, ao assistir à montagem, de quando participei de uma versão de O Inimigo do Povo, ao lado de Paulo Betti, dirigida por Domingos Oliveira. Aquela experiência foi marcante. Domingos, com sua inteligência vibrante, via em Ibsen não apenas um autor clássico, mas um contemporâneo eterno, um dramaturgo que desafia o público a escolher entre a conveniência e a consciência. Era um teatro que exigia pensamento — e coragem.Na versão de Christiane Jatahy, essa coragem ganha uma nova forma: política, atual e visceral. A diretora faz de O Julgamento um espelho direto do Brasil contemporâneo, onde a manipulação das massas e os tribunais virtuais substituem as praças públicas.O público é convocado a participar do veredito, e o espetáculo se transforma em uma experiência coletiva de reflexão e incômodo. Wagner Moura dá ao doutor Stockmann uma presença magnética, mas o brilho do espetáculo vem também do elenco extraordinário, que sustenta com intensidade e precisão a força coral da montagem.Juntos, eles nos colocam diante da pergunta que Ibsen lançou há mais de um século: quem é, afinal, o verdadeiro inimigo do povo — aquele que mente para proteger o lucro ou aquele que diz a verdade que ninguém quer ouvir?Num tempo em que as redes sociais produzem unanimidades instantâneas e cancelamentos ferozes, a lição de Ibsen — e a provocação de Nelson Rodrigues — continuam a soar como um alerta. Pensar diferente é um ato de resistência.O teatro, quando vivo e inquieto, nos devolve essa possibilidade: a de refletir sem medo, mesmo diante da multidão. Em tempos tão barulhentos, talvez a lucidez resida exatamente nisso: ousar ser minoria.
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