CIÊNCIA

A morte também é vida

A minha mãe sempre teve um gosto especial por cuidar dos mortos. Talvez fosse um ensinamento que nos estava a dar, enquanto crescíamos, mas não havia férias na aldeia em que não cumpríssemos a limpeza do jazigo — e quando digo limpar é tirar colchas, sacudir-lhes o pó, às vezes, substituí-las porque ficavam comidas pelo sol, arredar os caixões para que nenhum canto ficasse sujo, por vezes, pegar-lhes e pô-los cá fora —; ou, quando atravessávamos a Serra da Estrela da Beira Baixa para a Beira Alta, lá íamos parar a outra aldeia, onde a campa de um dos avós da minha mãe está. Aí, limpávamos as ervas que tinham crescido durante o ano, lavávamos a pedra com um garrafão de água. Temos uma fotografia de pequenos, os quatro com um ar esbaforido por causa do calor, sentados na campa do bisavô. Se a minha mãe ainda tivesse destreza nas pernas, neste sábado em que calhou o Dia de Todos os Santos, teríamos subido até ao Alto de São João, em Lisboa, e lá íamos limpar as gavetas das suas avó e bisavó. Durante anos, soube o caminho. Gostava de ir à frente para mostrar que o sabia de cor. Com a idade, comecei a parar junto aos enormes jazigos, a elogiar-lhes a beleza e a tentar descobrir quem lá estava. Hoje, não tenho sequer a certeza do nome da minha trisavó, caso quisesse ir limpar a gaveta, mas sei que era a mãe do meu bisavô, aquele que está na Beira Alta, sozinho, enquanto a mãe e a mulher estão as duas em Lisboa. Finalizadas as limpezas, respirávamos e pensávamos um bocadinho sobre a vida, sobre a morte, ou sobre nada — também acontecia —, e, juntos, rezávamos: “Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso no esplendor da luz perpétua, descansem em paz. Ámen.” E fazíamo-nos à estrada.No caminho de regresso a Lisboa, a minha mãe gostava de contar histórias sobre os avós, o que era bonito e nos dava sentido de pertença, mas também nos explicava a morte, como esta é natural, como, um dia, vamos todos morrer, mas seremos eternos nas palavras dos nossos descendentes. E se, na infância, aquela conversa era querida; na adolescência tornou-se angustiante, “então estou eu aqui com tantas dificuldades em perceber quem sou, qual é o meu caminho, o que me diferencia dos outros e, no final, vou morrer? Para quê o esforço?… Socorro!”Esta semana e tendo como argumento o Dia de Todos os Santos, unimos esforços entre as secções Fugas e Ímpar. Na Fugas, a proposta é visitar lugares onde o corpo humano está desprovido de vida e estes não são apenas os cemitérios monumentais. A jornalista Carina Fonseca pega no livro De Morte a Sul, da investigadora Rafaela Ferraz, entrevista-a; e escolhe dois lugares em Lisboa e outros dois no Porto para visitarmos. Não é turismo negro — desconhecia o conceito, mas a investigadora explica —, é turismo porque é conhecermos a nossa própria história, a nossa cultura, sem falar da arquitectura dos lugares, é eternizarmos os nossos. Pelo caminho, há ainda tempo para conhecer hotéis ensombrados por lendas e fantasmas.Do lado da Ímpar, a Maria Linhares compilou os conselhos da Ordem dos Psicólogos Portugueses sobre como viver o luto. (Um parêntesis para dizer que há uma semana a psicóloga Vera Ramalho escreveu sobre a legitimidade do luto pelos animais.)O jornalista é um ser curioso, como são a maioria dos seres humanos, mas há aqui um privilégio (que outras profissões também têm, como os professores e os investigadores) que é o de perseguirmos a nossa curiosidade e de a transformarmos num texto. A curiosidade da Inês Duarte de Freitas era sobre quem maquilhava os mortos e pensámos, eu e ela, que seria mais um texto que publicaríamos sob o pretexto do 1 de Novembro.Não foi e não é. De repente, mergulhamos num texto onde se revela uma ciência, a tanatopraxia, e, afinal, não são “maquilhadores de mortos”, são profissionais, homens e (poucas) mulheres, que praticam a sua arte com uma humanidade desarmante, com respeito pelo morto, mas sobretudo pelos vivos, para os ajudar também a fazer o luto. Diz António Júnior, tanatopractor: “Sempre tentei interiorizar em mim e passar aos meus filhos que a morte faz parte da vida.”​ Diz Josefina Cid, tanatopractora: “Aprendi a definição de finitude. Comecei a não dar importância a coisas ridículas, mas também aprendi a ter medo… Tudo pode mudar a qualquer momento.”É assim a vida, mas enquanto por cá andamos podemos continuar à procura do seu sentido. Hrund Gunnsteinsdóttir descobriu-o no innsæi, a sabedoria islandesa baseada na intuição. Explica a autora: “Innsæi, o termo islandês para “intuição”, é composto por duas palavras: inn, que significa ‘dentro’ ou ‘para dentro’; e sæi, que significa ‘ver’, mas também vem da palavra ‘mar’, sær. É um conceito com significado triplo: ‘mar interior’, que simboliza o nosso inconsciente, sempre em fluxo e que nos ajuda a ligar pontos que, de outra forma, não ligaríamos; ‘ver para dentro’, que significa conhecermo-nos suficientemente bem para nos colocarmos no lugar dos outros e sermos capazes de distinguir a intuição de preconceitos, medos ou desejos ilusórios; e ‘ver de dentro para fora’, que quer dizer ter uma bússola interior forte.” Andamos todos a precisar de nos colocar no lugar do outro. E, para terminar, parece uma banalidade mas, segundo um estudo que compilou dados de 123 países sobre a relação entre a felicidade e a saúde e entre o bem-estar mental e físico, o segredo para sermos mais saudáveis está na felicidade. Por isso, seja feliz!Boa semana!PS: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.

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