CIÊNCIA

Reflexões à esquerda? Cinco disponibilidades prévias

Os resultados das duas últimas eleições realizadas em Portugal foram bastante negativos e pesados para o campo progressista, particularmente para o espaço político-partidário posicionado à esquerda do PS. Já muitas análises foram feitas, algumas delas a quente, mais ou menos baseadas em meras impressões e tendenciosas. De qualquer modo, é importante que os resultados sejam devidamente mastigados e analisados através de estudos científicos que não só averigúem a verdadeira expressão das tendências eleitorais, como percebam até que ponto estas se relacionam com as distintas configurações socioeconómicas e socioculturais que constituem a sociedade portuguesa.Contudo, dado o estado das coisas, não restam grandes dúvidas de que a esquerda no seu todo — isto é, os partidos, os seus líderes e militantes, os sindicatos, os ativistas dos vários movimentos sociais (mais ou menos orgânicos) e outros atores — deverá empreender uma reflexão coletiva profunda na qual se vá a fundo de uma série de temas e de questões estruturais. Torna-se imperioso encetar um debate alicerçado na troca de ideias e de argumentos bem fundamentados, baseados numa crítica aberta, processual e sem tabus prévios. Ou seja, um debate que vise atingir o entendimento mútuo, como uma plataforma de ação coletiva e comunicacional. Para tal, considero ser necessário reunirem-se cinco disponibilidades prévias que passo brevemente a enunciar.1) A disponibilidade para ouvir, alargar e dar espaço a vozes e experiências diversificadas que rompam com as bolhas e os circuitos habituais que dominam a esfera pública e os fóruns (mais ou menos seletivos) da discussão política. Alargar significa integrar na discussão e no debate público pessoas de diferentes gerações, origens geográficas, classes sociais, pertenças identitárias, entre outras. Mas significa também incorporar, designadamente nos programas dos partidos de esquerda, preocupações com assuntos novos que afetam as pessoas — como as regras para o jogo online ou a regulação das plataformas online.2) A disponibilidade para compreender o modo como as alterações eleitorais se relacionam com as transformações sociais mais profundas produzidas nos diversos contextos territoriais. Por exemplo, estamos a assistir a processos acentuados de precarização laboral e social que se interrelacionam com vincadas recomposições de classe. As ciências sociais não se têm cansado nas últimas décadas de produzir conhecimento sobre as origens e os mecanismos que estruturam esses vários processos. Basta ir à procura.3) A disponibilidade para as diferentes forças políticas conseguirem convergir naquilo que as aproxima (minimizando as pequenas divisões e fragmentações artificiais), respeitando, simultaneamente, as autonomias políticas e ideológicas próprias. A esquerda precisa de convergir em ideias e programas comuns, mas também é fundamental respeitar as divergências e os diferentes posicionamentos políticos e partidários. Ambos os movimentos não só podem e devem coexistir na esquerda, como são a sua força.4) A disponibilidade para considerar e debater, de forma aberta e sem obstáculos pré-estabelecidos, possibilidades de futuro coletivo que passem pela construção de utopias realistas capazes de almejar sociedades prósperas. Trata-se, antes de mais, de um empreendimento de esperança que perspetive a redução estrutural das desigualdades, da pobreza e das múltiplas formas de exclusão social. Todavia, é importante que estas hipóteses de futuro se edifiquem a partir de baixo, do chão da vida comum, e não a partir de esquemas meramente concetuais e abstratos elaborados por um grupo restrito de “​iluminados”​.5) Finalmente, a disponibilidade para nos desprendermos das idiossincrasias pessoais e profissionais, mundividências e situações de classe, de maneira a ir ao encontro da troca virtuosa de ideias, de argumentos e de pontos de vista diferenciados. A capacidade de estarmos abertos ao encontro entre pessoas e perspetivas distintas representa a disponibilidade primordial para que a reflexão à esquerda seja, de facto, uma possibilidade real.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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