CIÊNCIA

“A gente quis focar na vida dela”, afirma diretora do documentário sobre Rita Lee

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Documentário mais visto no Brasil este ano, somando até agora 50 mil espectadores, desde o seu lançamento, em maio passado, Ritas — sobre a rainha do rock brasileiro — será exibido pela primeira vez no Tribeca Festival Lisboa 2025, em Portugal. A sessão única, em homenagem à cantora e compositora, que morreu em 2023, aos 75 anos, de câncer no pulmão, acontecerá na quinta-feira (30/10), no Teatro Ibérico, em Lisboa. Os roteiristas e diretores brasileiros Karen Harley, 60 anos, e Oswaldo Santana, 54, estarão presentes ao evento.Em entrevista ao PÚBLICO Brasil, eles contam os desafios que enfrentaram para produzir Ritas, inclusive com a própria família da ex-Mutante. O projeto surgiu após a produtora Biônica Filmes comprar os direitos do livro Rita Lee — Uma Autobiografia (GloboLivros), publicado em 2016, para fazer uma ficção, uma série para a TV, mais cronológica e jornalística, e um documentário, que, segundo a pernambucana Karen, “ia correr meio por fora, ser mais livre, solto”. Mas sempre com um desejo, que virou uma saga para a equipe: ter a própria Rita Lee, com seus 70 e poucos anos, à época, na montagem.“Desde o início, a gente queria tê-la no filme, tê-la naquele momento, tê-la velha, digamos assim. Não queríamos depoimento de ninguém falando sobre ela, queríamos um projeto em primeira pessoa”, frisa Karen, que deu início aos trabalhos em 2018, sem saber que enfrentaria problemas com a própria família da artista. “Por vários motivos, principalmente por questões familiares, acabou que a ficção caiu, a série caiu e o documentário ficou sob a atenção da família. E, por parte deles, havia uma necessidade de contar mais cronologicamente os fatos. Então, rolou um pouco de embate”, relata.


A cantora Rita Lee com João Gilberto, o pai da Bossa Nova
Divulgação

A obra mostra muitas fotos e vídeos de arquivo, pontuando sempre os altos e baixos da carreira e da vida de Rita Lee. De shows ao lado de nomes como João Gilberto, o pai da Bossa Nova, a momentos simples de férias em família, Ritas apresenta a intimidade da rotina da pioneira do rock no Brasil, o que também não foi uma tarefa fácil.De acordo com Oswaldo Santana, foram feitas várias reuniões na casa da cantora, em São Paulo, para conseguir que ela aprovasse aparecer na telona e na TV. O documentário também está disponível no Globoplay.“O fato de ter a Rita era muito importante para o documentário, mas ela relutava, porque achava que estava velha, que não estava falando muito bem, que tropeçava nas palavras. Ela só queria mostrar o lado dela potente e jovem no palco. Falei que teria tudo isso, mas que ela ainda estava potente. Eu disse: Você é uma mulher maravilhosa, que fala coisas incríveis, não queremos perder esse momento. Queremos esse documentário narrado por você. Fizemos várias reuniões para tentar convencê-la”, complementa Karen.Muita insistênciaEm um dos encontros, porém, a solução para o que era um problema para a intérprete, que tinha vários bichos em sua casa, surgiu, por acaso, diante dos olhos da equipe.


A cantora e compositora Rita Lee na sua casa, em São Paulo
Divulgação

“Uma vez, passou um mico pela gente, no jardim, e ela falou: ‘Karen, por que você não filma esse mico em vez de me filmar?’ Eu respondi: ‘Rita, você é que vai filmar o mico. A gente vai te dar um celular e você vai inventar o que quiser e nos entregar. Você vai narrar o seu filme em primeira pessoa”, relata a diretora.Karen acrescenta: “Rita ficou tão entusiasmada que começou a nos mandar pérolas incríveis. Foi a certeza de que o filme tinha de ser narrado por ela, que começou a curtir aquilo. A gente trocava e-mails, e ela contava: ‘Estou adorando essas loucurinhas’”, afirma Karen.Mas para Rita Lee dar uma entrevista para o documentário foi preciso muita insistência. “Foram mais uns cinco meses. Primeiro, ela só queria falar com o Guilherme Samora (jornalista e escritor de obras sobre Rita Lee), que era uma pessoa muito próxima a ela, o corpo dele é todo tatuado com letras de músicas dela. Então, nós o brifamos e a entrevista ficou ótima. Mas, do ponto de vista técnico, não gostaram. Avisei que não tinha problema, que faríamos novamente a entrevista, mas com duas câmaras, etc. E fizemos a última entrevista da vida dela, e foi incrível”, relata Karen.


Rita Lee gravou parte da sua rotina para o documentário “Ritas”
Paulo Pimenta

Visão da morteA diretora destaca alguns momentos marcantes do bate-papo. Depois de uma pausa feita pela produção, a dona de canções inesquecíveis como Ovelha Negra e Doce Vampiro, em parceria com o marido, o músico Roberto de Carvalho, 72, recebeu a notícia que o ator argentino Patrício Bisso (1957-2019) tinha falecido. Quando voltou à entrevista, a paulistana da Vila Mariana, que ainda não tinha descoberto que estava com câncer (ela foi diagnosticada com a doença em 2021), revelou o que pensava da morte.“Bisso era um grande amigo dela. Depois que soube que ele havia partido, ela voltou com uma outra força para a entrevista e falou aquilo sobre a morte, que está no documentário. Ela fala assim: ‘Eu tenho inveja da morte, porque na morte o nosso espírito expande’. Ela aborda a morte de uma outra forma, de uma maneira mais poética e espiritual. E a Rita não estava doente ainda, estava ótima”, diz.Enquanto isso, o imbróglio com a família só aumentava. Santana, que também é de São Paulo, ressalta que, no começo, os herdeiros estavam mais abertos ao projeto. Mesmo assim, tudo tinha de passar primeiro por João, 46 anos, filho do meio de Rita Lee e Roberto de Carvalho. O casal também teve Beto, 48, e Antônio, 44.


Houve divergências entre os produtores do documentário e a família de Rita Lee
Dulce Fernandes

“Antes de encontrar a Rita, eu tive uma reunião com o João, que tinha que me aprovar como diretora, que tinha que aprovar o co-diretor. Tudo passava por ele, depois ia para a Rita. Mas o João imaginava um filme um pouco diferente do que a gente queria fazer. Ele perguntava: ‘Vocês não vão entrevistar o Gilberto Gil, os parceiros musicais, os filhos, o Roberto’. A gente sempre dizia que não, que esse poderia ser um outro filme, mas não era o nosso”, enfatiza Karen.Foco na vidaCom ideias opostas, a dupla teve de devolver todo o material que a família havia disponibilizado para o documentário.“Ao longo do processo, eles viram realmente que a gente não faria um filme de depoimentos. Então, pediram tudo de volta. E esse material teve que sair do filme. Tivemos que rebolar para conseguir montar uma nova estrutura. Ainda teve uma hora que tudo parou por causa da pandemia e da doença da Rita. Depois, retomamos a conversa, um cedeu um pouco aqui, outro cedeu um pouco ali. Mas foi uma negociação que levou tempo”, garante a diretora.O filme, que tem uma hora e 20 minutos de duração, não aborda a descoberta do câncer e a morte de Rita Lee. Karen frisa que não queria focar na doença. “O documentário já estava praticamente encaminhado antes de ela saber que estava com câncer. E ela já tinha dado um depoimento muito forte sobre a morte no filme”, reflete.Durante o processo, porém, eles ainda levaram um susto ao descobrir que, paralelamente, a família de Rita Lee estava produzindo outro longa, chamado Rita Lee, Mania de Você, de Guido Goldberg, lançado este ano também, disponível na plataforma Max. “Fizeram o filme que eles queriam, com depoimentos. Tem o Gilberto Gil, tem os parceiros, tem os filhos. É uma história que aborda mais a morte. A gente quis focar na vida dela”, argumenta Karen.
Após a exibição de Ritas, que chega a Portugal por meio da portuguesa 7800 Produções, co-produtora do projeto, em parceria com a Biônica Filmes e a Paris Filmes, os diretores vão conversar com a plateia sobre o documentário. Inspirada no Tribeca Festival de Nova York, a edição lisboeta será realizada de 30 de outubro a 1º de novembro.
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