Calor fez-nos perder 639 mil milhões de horas de trabalho no mundo em 2024
O mundo está a pagar um custo altíssimo pela inacção climática: só em 2024, morreram mais de 500 mil pessoas devido ao calor extremo. A exposição ao calor extremo causou ainda a perda de quase 640 mil milhões de horas potenciais de trabalho no ano passado, com prejuízos estimados em 1090 mil milhões de dólares (940 mil milhões de euros) − quase 1% do PIB global −, estima a 10.ª edição do relatório Lancet Countdown 2025, que avalia o impacto do clima na saúde.“É muito sombrio. Para ser sincera, estamos realmente preocupados do ponto de vista científico. Isto porque temos os dados e não há como negar quão grave é a situação, e as acções políticas não estão alinhadas com o que as provas científicas mostram”, afirma Marina Romanello, directora do Lancet Countdown, em conferência de imprensa.O relatório mostra que 12 dos 20 indicadores de ameaça à saúde atingiram níveis sem precedentes. O número de mortes relacionadas com o calor apresenta uma média anual de 546 mil mortes entre 2012 e 2021 — um aumento de 63,2% em relação à década de 1990.“Uma das coisas que pensamos em termos de magnitude é que, dado o número absoluto que temos no relatório deste ano (546.000 óbitos), isto significa aproximadamente uma morte relacionada com o calor a cada minuto ao longo do ano”, refere na mesma conferência Ollie Jay, professor da Faculdade de Medicina na Universidade de Sidney, especializado em calor e saúde.Em 2024, cada pessoa no planeta foi exposta, em média, a 16 dias adicionais de calor extremo devido às alterações climáticas. Os grupos mais vulneráveis — crianças com menos de um ano e idosos com mais de 65 — enfrentaram 20 dias extras de altas temperaturas, o que representa um aumento de 389% e 304%, respectivamente, face à média entre 1986 e 2005.O impacto económico é igualmente devastador. A exposição ao calor extremo levou à perda de 639 mil milhões de horas potenciais de trabalho em 2024, sendo que as mortes por calor entre maiores de 65 anos representaram um custo adicional de 261 mil milhões de dólares.
Os subsídios aos combustíveis fósseis superaram os orçamentos nacionais de saúde em países como a Argélia, Venezuela e Arábia Saudita
“Mundo em turbulência”A décima edição do relatório Lancet Countdown sobre Saúde e Alterações Climáticas, divulgada nesta quarta-feira, revela “um mundo em turbulência”, detalhando como o aquecimento global, a poluição do ar e os sistemas alimentares insustentáveis estão a afectar globalmente a saúde humana.A poluição atmosférica continua a ser um dos principais factores de risco. Em 2022, 2,52 milhões de mortes foram atribuídas à poluição do ar causada pela queima de combustíveis fósseis. Só em 2024, o fumo dos incêndios florestais foi responsável por 154 mil mortes, um aumento de 36% face à média da década anterior.A mensagem principal do documento é clara: milhões de vidas estão a ser perdidas todos os anos, enquanto os governos continuam a subsidiar e a investir em combustíveis fósseis, em vez de em medidas de adaptação climática, fundamentais para reduzir o impacto de fenómenos extremos.“Porque falamos disto quando o assunto é saúde? Bem, porque os combustíveis fósseis são um determinante fundamental da saúde. Se continuarmos a financiar os combustíveis fósseis, se continuamos a permitir a expansão [do petróleo, do gás e do carvão], nós sabemos que um futuro saudável não é possível”, afirmou Marina Romanello aos jornalistas.Apesar destes dados, os governos continuam a investir fortemente em combustíveis fósseis. Em 2023, foram gastos 956 mil milhões de dólares (820 mil milhões de euros) em subsídios líquidos aos combustíveis fósseis – mais do triplo dos 300 mil milhões de dólares (257 mil milhões de euros) prometidos para apoiar os países mais vulneráveis às alterações climáticas.Em 15 países do globo, incluindo Argélia, Irão, Venezuela e Arábia Saudita, os subsídios aos combustíveis fósseis superaram os orçamentos nacionais de saúde.“As empresas e os países estão a recuar nos compromissos climáticos, com 12 dos 20 indicadores do relatório movendo-se na direcção contrária à desejada. Cerca de 30% dos indicadores mostram mesmo reversão do progresso registado anteriormente”, lamenta Marina Romanello.A expansão da produção de petróleo e gás continua a acelerar. As 100 maiores empresas fósseis aumentaram os seus planos de produção, prevendo emissões de gases com efeito de estufa três vezes superiores ao limite compatível com 1,5 graus Celsius até 2040. A portuguesa Galp, por exemplo, recuou recentemente e voltou a procurar mais poços de petróleo.Os 40 principais bancos mundiais investiram 611 mil milhões de dólares (524 mil milhões de euros) no sector fóssil em 2024 – mais 29% do que em 2023 –, superando em 15% os investimentos em energias oriundas de fontes renováveis.
Fome, seca e doençasA crise climática está a agravar a insegurança alimentar: 123 milhões de pessoas enfrentaram fome moderada ou severa em 2023, devido a secas e ondas de calor.A escassez de água tornou-se mais crítica. Em 2024, 60,7% da superfície terrestre global enfrentou secas extremas, e 64% registaram aumentos em eventos de precipitação extrema entre os períodos de 1961-1990 e 2015-2024. Estes fenómenos colocam em risco a segurança hídrica, alimentar e sanitária de milhões de pessoas.A destruição de florestas atingiu níveis alarmantes: 128 milhões de hectares foram perdidos em 2023, um aumento de 24% face a 2022, comprometendo a capacidade natural do planeta para mitigar os efeitos das alterações climáticas.As alterações climáticas estão também a criar condições mais favoráveis à propagação de doenças infecciosas. Os riscos associados à vibriose e às doenças transmitidas por carraças atingiram níveis recorde, com implicações graves para a saúde pública em várias regiões do mundo.“O potencial médio (associado ao clima) de transmissão da dengue pelo Aedes aegypti e Aedes albopictus aumentou 48,5% e 11,6%, respectivamente, de 1951-1960 e 2015-2024, contribuindo pelo menos parcialmente para um número recorde de casos de dengue em 2024”, observa Marina Romanello.Cerca de 7,6 milhões de casos de dengue foram reportados à Organização Mundial da Saúde (OMS) entre Janeiro e Abril de 2024, um aumento de três vezes em relação aos valores de 2023. Em Portugal, já existe uma rede de vigilância activa para detectar a presença dos mosquitos do género Aedes.Avanço na transição energéticaNem tudo é mau, contudo. A transição energética está a salvar vidas: entre 2010 e 2022, a redução do uso de carvão evitou 160 mil mortes prematuras por ano. Em 2022, a produção de electricidade a partir de fontes renováveis modernas atingiu um máximo histórico de 12%, e em 2023, mais de 16 milhões de pessoas trabalhavam no sector das energias renováveis — um aumento de 18,3% face ao ano anterior.O relatório destaca uma mobilização crescente nas cidades. Em 2024, 834 centros urbanos realizaram (ou planeiam realizar) avaliações de risco climático. A área da saúde, por sua vez, está a tentar dar o exemplo: as emissões de gases com efeito de estufa no sector caíram 16% entre 2021 e 2022, e dois terços dos estudantes de medicina receberam formação sobre clima e saúde.O relatório resulta do trabalho integrado de 128 especialistas de 71 instituições académicas e agências das Nações Unidas, incluindo a OMS. O conteúdo do Lancet Countdown costuma ser divulgado pouco antes da Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP30), que neste ano decorre na cidade brasileira de Belém, no coração da Amazónia, de 10 a 21 de Novembro. O objectivo é oferecer aos decisores políticos e técnicos um documento actualizado sobre as relações entre clima e saúde.“Este relatório deixa claro que a inacção climática está a matar pessoas em todos os países. No entanto, a acção climática também representa a maior oportunidade de saúde do nosso tempo. Ar mais limpo, dietas mais saudáveis e sistemas de saúde resilientes podem salvar milhões de vidas agora e proteger as gerações actuais e futuras”, afirma Jeremy Farrar, director da OMS para a promoção da saúde, num comunicado.










