CIÊNCIA

Curso abre oportunidade para brasileiros em Portugal concluírem o ensino médio

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A oportunidade de concluir o ensino médio, mesmo estando fora do Brasil, abrindo caminho para a universidade. Esta é a proposta do exame ENCCEJA (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos) internacional, realizado uma vez por ano. E o curso de preparação para as provas, totalmente gratuito, começou em 21 de Outubro, na Universidade Lusófona, em Lisboa.Segundo Rejane Lima, coordenadora do ENCCEJA em Portugal, o curso se tornou essencial para muitos brasileiros que sonham em fazer faculdade. “O ENCCEJA Lisboa já deu oportunidade para milhares de pessoas que não terminaram o ensino médio, ou seja o 12º ano de escolaridade. Nós estamos há 15 anos em Portugal”, afirma.Até agora, mais de 8 mil alunos já receberam o diploma em terras lusas. “No exame realizado neste ano, fomos o ENCCEJA no exterior com o maior número de inscritos: 376 alunos. Normalmente, o país com mais gente fazendo o exame é o Japão, que caiu para o segundo lugar, com 200 estudantes”, comemora.Uma das preocupações é ter um ensino de qualidade. “Nós temos professores formados, capacitados, com mestrado e com doutorado. São voluntários com dedicação enorme ao projeto. Temos aulas de todas as disciplinas”, explica Rejane.


Com as aulas começando em Outubro, só dentro de um ano é que os alunos farão o exame. “Todos os alunos que não terminaram o ensino médio podem fazer o exame. Se estiverem em Portugal, têm a oportunidade de se inscreverem online para prestar o exame”, assegura.A força da educaçãoSegundo o cônsul-geral adjunto do Brasil em Lisboa, Paulo Roberto Alvarenga, a representação está envolvida com o ENCCEJA desde que o exame começou a ser aplicado em Portugal. “É uma parceria que tem sido muito frutífera, já há muito anos. Num primeiro momento, nós cedíamos as nossas instalações para o curso preparatório e, atualmente, nós aplicamos as provas que são realizadas uma vez por ano pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), sob coordenação do MEC (Ministério da Educação), com a participação de vários funcionários nossos”, frisa.Ele acredita que o consulado está cumprindo seu papel de ajudar os brasileiros a terem uma perspectiva de ascensão social por meio da educação. “Para nós, é edificante, sobretudo pela possibilidade de dar uma contribuição para a formação educacional da comunidade brasileira que reside em Portugal”, afirma. Pelos dados mais recentes da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), há quase 500 mil brasileiros documentados em território luso.Um dos voluntários é Felipe Garcia de Oliveira, 36 anos, professor de história, que está no curso desde 2021. “Eu vim para Portugal em Setembro de 2020 para iniciar o meu doutorado em História na Universidade Nova de Lisboa. Na época, houve uma chamada de voluntários para dar aula. Eu já lecionava no Brasil e acabei me inscrevendo. Comecei a ensinar em Fevereiro de 2021, ainda estávamos na pandemia e parte da aulas foi online”, lembra.No primeiro dia, de apresentação do curso, o número de estudantes era pequeno, menos de 10. Entre os alunos estava Patrícia Balbino, 42. “Estou aqui para terminar meu ensino médio do Brasil, e eu preciso e quero seguir novas carreiras em Portugal, ir para a área social”, relata.


Dona de uma pizzaria em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Patrícia optou por se mudar para Portugal. “Quero ser assistente social, trabalhar em uma área em que eu possa acolher crianças especiais, suprir a necessidade que Portugal tem nesse setor”, diz.Exemplo de ascensão socialA abertura do curso teve um discurso do embaixador do Brasil em Portugal, Raimundo Carreiro. Ele tinha um texto pronto, mas o deixou de lado para contar sua experiência pessoal de como conseguiu ter sucesso por meio do estudo. “Eu me alfabetizei entre os 6 e os 8 anos. Sabia ler, mas só aprendi a escrever aos 14 anos. Isso porque meu pai morreu quando eu tinha 8 anos e não havia dinheiro nem para comprar um lápis”, descreve ele, que nasceu no interior do Maranhão, um dos estados mais pobres do Brasil.Ele começou a trabalhar ainda muito menino, mas colocava uma condição. “Tinha que ter tempo para estudar. Se o trabalho terminasse às 11h da noite, eu não aceitava. Só aceitava se tivesse tempo para ir à escola”, lembra.Quando Carreiro entrou para o Senado Federal, em Brasília, tinha pouca qualificação. “Eu empacotava livros para distribuir. Mas estudei, não desisti. Fiz sete vezes o vestibular até conseguir entrar para a faculdade. Na época, havia só três cursos de direito em Brasília. E não foi fácil, mas me formei”, recorda.Uma vez com o diploma, a situação mudou. “Como eu tinha terminado o curso, fui promovido. E, depois, teve a substituição do secretário da mesa do Senado e havia vários candidatos. Diziam que eu não poderia me candidatar ao cargo porque tinha a letra muito feia, porque o secretário tem que enviar notas para o presidente do Senado durante a sessão e, com letra feia, ficava difícil de ler. Fui escolhido e acabei por ficar como secretário por 12 anos, o mais longevo da história do Senado. Quando saí do Senado fui para o Tribunal de Contas da União (TCU) e, depois, ser embaixador do Brasil em Portugal”, detalha.Carreiro dá a receita para enfrentar as dificuldades de voltar a estudar. “É preciso ter fé e disciplina. Vai ter dia em que dá vontade de ir a um bar com os amigos em vez de ir à aula. Aí falta um dia, depois outro e perde-se o rumo. É preciso ter força de vontade”, aconselha.
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