Pernambucana lança no Porto livro em que revisita o passado colonialista europeu
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A historiadora e escritora pernambucana Micheliny Verunschk lança neste sábado (25/10), na Livraria da Cassandra, na cidade do Porto, o livro O Som do Rugido da Onça. A sessão de autógrafos começa às 17h. Vencedor do Prêmio Jabuti 2022, na categoria Romance Literário, o livro trata de uma história real e comovente: o sequestro de duas crianças indígenas da Amazônia brasileira, levadas para a Alemanha em 1820, durante uma expedição científica conduzida pelos naturalistas bávaros Johann Spix e Carl Martius. Após o evento em Portugal, a autora segue para a França, onde lança a obra em Paris, na segunda-feira (27/10).“O livro fala da existência dessas crianças a partir desse arrancamento, desse sequestro em nome da ciência”, explica Micheliny. Segundo ela, pouco se sabe sobre as duas crianças — um menino do povo Juri e uma menina do povo Miranha — porque quase toda a documentação disponível vem dos próprios cientistas europeus. “A despeito do rigor com que trataram as outras coisas, como as espécies vegetais e animais, sobre essas crianças toda a informação é lacunar”, afirma a autora.As crianças, continua Micheliny, foram submetidas a um processo de violência extrema, que envolveu sequestro. Chegaram a Munique em dezembro de 1820, sendo que o menino sobreviveu dois meses e a menina de quatro a seis meses. “Elas não falavam português, nem o tupi, nem o alemão. Foram arrancadas de sua terra e de seus povos e passaram por um silenciamento absoluto, porque não havia meio de comunicação entre elas ou com quem as levou”, observa Micheliny.A historiadora destaca que o discurso dos cientistas da época refletia a lógica do projeto colonial europeu. “Martius dizia que trazer as crianças para a Europa era uma forma de ‘salvação’ delas. Essa ideia salvacionista, de que se civiliza o outro tirando-o da barbárie, não dá conta das individualidades. É a grande tragédia dessa história”, comenta.Inspiração inesperadaA inspiração para o romance surgiu de forma inesperada, durante uma visita da autora a uma exposição do Itaú Cultural, em São Paulo, há alguns anos. “Eu me deparei com litografias do século XIX que retratavam as crianças. Eu as conhecia como historiadora, mas não sabia o que tinha acontecido com elas. Fiquei muito curiosa, e quanto menos documentação encontrava, mais eu queria saber. Foi aí que percebi que precisava ‘fabular’ essa história”, relembra.Escrito entre 2016 e 2018, o livro seria lançado em 2020, mas teve sua publicação adiada para 2021 por causa do começo da pandemia, ela frisa. Agora, ganha nova vida em edição internacional. “É muito importante lançar o livro aqui porque essa história diz respeito ao trânsito entre Brasil e Portugal. As crianças citadas no livro passaram por Lisboa antes que chegassem à Alemanha”, destaca.Para a autora, O Som do Rugido da Onça é um romance histórico decolonial. “Não é um romance histórico clássico, nos moldes europeus. Mistura o dado documental com a fabulação e as cosmologias indígenas para dar conta de escrever essa história”, explica. Ela busca ampliar o debate sobre o legado colonial e a necessidade de repatriar, para o Brasil, memórias e artefatos culturais. Micheliny Verunschk é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autora de 13 livros publicados.
“Essa história — como o retorno do manto Tupinambá ao Brasil ou o relato das crianças roubadas no livro da Gabriela Wiener, no Peru — mostra que estamos num momento propício para refletir sobre o que foi levado do continente americano para a Europa: vidas, objetos e histórias”, conclui.
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