CIÊNCIA

Construção civil já sente impacto de travas à contratação de imigrantes em Portugal

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O excesso de burocracia estatal e o aperto nas regras de imigração já começam a ser sentidos na economia real de Portugal. Empresas da construção civil, sobretudo as de pequeno e médio portes, correm o risco de terem de parar obras por falta de mão de obra. Segundo o empresário Roberto Fonseca, dono da construtora Fonsat, com sede no município de Canelas, no Porto, não há hoje no mercado profissionais em número suficiente para atender a demanda das empresas.Ele afirma que a escassez é tamanha, que está sendo obrigado a buscar trabalhadores em outros países para manter em dia as mais de 100 obras que a Fonsat vem tocando neste momento. No entender de Fonseca, a situação se agravou nas últimas semanas, devido às dificuldades criadas pelos consulados portugueses para a emissão de vistos de trabalho. “Estamos, neste momento, com 15 trabalhadores no Peru à espera da autorização para entrar em Portugal e 30 na Colômbia. E não há previsão de quando poderão viajar”, assinala.Com faturamento anual superior a 10 milhões de euros (R$ 60 milhões), a Fonsat venceu, recentemente, uma concorrência para construir um alto-forno para a metalúrgica Acelor Mittal na região das Astúrias, na Espanha. As obras, com financiamento da União Europeia, estão previstas para começar em janeiro de 2026. “Mas temo por não termos trabalhadores para tocar o empreendimento. Trata-se de um forno elétrico com campo magnético, de mais de mil metros quadrados, com vistas a reduzir a dependência da empresa pelo gás russo”, explica.


O empresário Roberto Fonseca (de colete laranja) teme que obras sejam suspensas, devido à falta de trabalhadores em Portugal
Arquivo pessoal

O dono da construtora diz que já acionou o setor de vistos consulares do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), mas não obteve as respostas necessárias. “Percebemos um grande gargalo nos consulados. E não somente no Peru e na Colômbia. Também vemos problemas nas representações portuguesas no Marrocos”, frisa. Fonseca ressalta que, hoje, há 350 trabalhadores estrangeiros registrados na sua folha de pagamento. “Temos brasileiros, angolanos, moçambicanos, peruanos, equatorianos, colombianos, vários deles na empresa há muitos anos”, assinala.Além da estrutura em Portugal, a Fonsat detém centros administrativos em Oviedo, capital das Astúrias, e em Lérida, na Catalunha. “Esses centros nos permitem distribuir nossos profissionais e os mais de 80 veículos da nossa frota por todas as obras que estamos tocando. Por isso, é real a nossa necessidade de profissionais. Não podemos aceitar que a burocracia nos consulados emperre os nossos negócios”, enfatiza. Procurado pelo PÚBLICO Brasil, o Ministério dos Negócios Estrangeiros não se manifestou até o fechamento desta edição.Prejuízos à vistaPara a venezuelana Siled Suárez, diretora administrativa da construtora Beltran Quevedo, com sede em Vila Pouca de Aguiar, em Vila Real, não há explicação para a demora na concessão de vistos de trabalho pelos consulados portugueses. “Estamos, desde fevereiro deste ano, com 15 trabalhadores na fila de espera do visto de trabalho no consulado português na Colômbia. Já pedimos informações, mas não dizem nada. Inclusive, um trabalhador que já tinha obtido o visto para Portugal e embarcaria nesta sexta-feira (24/10), teve o documento cancelado nesta semana, sem nenhuma justificativa”, diz.


Na avaliação de Siled, que mora em Portugal desde 2023 — o marido, Wilson Quevedo, fundador da construtora, chegou antes, em 2019 —, mantida a morosidade por parte dos consulados, as empresas verão seus negócios minguarem, principalmente, as menores. “Estamos totalmente desprotegidos, investimos no nosso negócio, há muito trabalho a ser feito em Portugal, porém, tudo pode parar, porque não há mão de obra disponível e a burocracia está travando as contratações no exterior”, frisa.Tanto Siled quanto Roberto Fonseca lembram que o Governo português criou um sistema, batizado de Via Verde, para facilitar a entrada de trabalhadores estrangeiros em Portugal. A promessa é de que os vistos sejam emitidos em, no máximo, 20 dias. O problema, na visão deles, é que as empresas menores ficaram de fora desse benefício.Pelo que definiu o Governo, para aderirem ao Via Verde, as empresas devem cumprir, cumulativamente, quatro requisitos: empregarem diretamente 150 ou mais trabalhadores, terem volume de negócios igual ou superior a 25 milhões de euros por ano, não deverem à Segurança Social e à Autoridade Tributária e deterem um código de certidão permanente válido.Garantias aos trabalhadoresPara o dono da Fonsat, ainda que as empresas menores não se encaixem em todas essas condições, elas cumprem as leis trabalhistas e oferecem todas as garantias para que os profissionais estrangeiros sejam integrados ao mercado, inclusive, com alojamento e seguro contra acidentes de trabalho. “A minha empresa acabou de arrendar um hotel inteiro na Espanha e um prédio de apartamentos para funcionar como alojamento para nossos funcionários”, afirma.Segundo levantamento do Banco de Portugal, quase 100% das construtoras no país são de pequeno e médio portes, empregando 87% dos trabalhadores. Dados da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) indicam que há hoje, em Portugal, falta de 80 mil a 100 mil trabalhadores na construção civil, o que pode comprometer o programa do governo de construir moradias no país para tentar reverter a gravíssima crise habitacional.
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