TECNOLOGIA

Livro ensina história da moda aos mais pequenos para desenhar um futuro sustentável

Como quebrar o ciclo de consumo na moda? Através da educação da próxima geração de consumidores, defende a investigadora Mariana Pereira Silva, que acaba de apresentar o livro infantil Desfilar pela História, editado pela BookSmile. “A história da moda ensina-nos que a sustentabilidade sempre esteve presente e não é uma tendência. Aliás, o livro reflecte que se não tivéssemos tido comportamentos sustentáveis até aqui, não teríamos acesso aos recursos que temos”, declara ao PÚBLICO a autora, que assina, com a ilustradora Raquel Costa, o livro, apresentado nesta terça-feira no Museu Nacional do Traje, em Lisboa.Pensado para crianças a partir dos 7 anos, o livro recua até à primeira peça de roupa “há 170 mil anos”, descoberta “através dos piolhos”. “Sabemos quando os humanos começam a usar roupa porque os piolhos do corpo passam a ser diferentes dos do vestuário”, explica a doutoranda de Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Lisboa. É “difícil” saber de que seria feito esse primeiro vestuário, porque “os materiais naturais não têm essa resistência”, mas é presumível que se trate de “um material de origem animal, provavelmente uma pele”.Olhando para a história, é possível ver “uma evolução interessante de como a moda traduz a nossa cultura e a nossa sociedade”, analisa Mariana Pereira Silva, que destaca como, “em certos momentos, houve uma clara separação entre os tipos de tecidos que eram usados pelas elites e pelo povo”. A autora refere-se à lei sumptuária, que, por exemplo, proibia a utilização de determinadas cores pelos mais pobres. “O roxo era associado à nobreza, até porque era uma cor difícil de obter através dos tingimentos naturais.”O livro desfila desde a pré-história até ao século XXI, mas a autora também aponta com especial interesse para a era vitoriana, em que se começa a registar uma maior diferenciação entre o vestuário masculino e feminino. “Acontece a simplificação do vestuário masculino que, até então, era igualmente rico e detalhado quanto o das mulheres”, explica, lembrando que essa é a época em que nasce a alfaiataria.


Capa do Desfilar pela História de Mariana Silva e Raquel Costa
DR

Mas é só com a Revolução Industrial que se inaugurou o que oficialmente hoje se conhece como a indústria da moda. “Mudou a forma como produzimos o vestuário e criou a possibilidade de fazer a produção em massa”, contextualiza. “Foi isso que permitiu chegarmos aos dias de hoje, podermos entrar numa loja para ir buscar uma peça e o que significa do ponto de vista cultural e social”, diz, falando de comportamentos que as últimas gerações tomam por garantido.É, aliás, após essa época que apareceram as primeiras fibras sintéticas, que hoje dominam o guarda-roupa da sociedade. “Começaram com uma peça que ainda hoje utilizamos: os collants de náilon. Foram a primeira peça de vestuário sintética, criada por uma empresa de produtos químicos, a DuPont, em 1938”, conta. Daí surgiram outras evoluções sintéticas, como o acrílico, o elastano ou o muitíssimo falado poliéster, do qual são feitas “59% de todas as peças produzidas no mundo”.O que podemos aprender?A viagem pela história continua e refere-se a industrialização para falar do nascimento das grandes casas de moda, Chanel, Dior ou Saint Laurent, que criaram as silhuetas. Foram elas a impulsionar o advento do pronto-a-vestir, que fazia negócio a replicar o que tinha sido apresentado na passerelle em Paris. E não demorou até a moda rápida se instalar nos hábitos de consumo — a Zara nasceu há precisamente 50 anos —, e a quase fazer esquecer o passado de todas as linhas que teceram o vestuário.


Autor: Mariana Pereira Silva e Raquel Costa
Editor: Booksmile 64 págs. 14,98 euros
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“Perdemos os hábitos da recuperação e manutenção das peças”, lamenta Mariana Pereira Silva, que conta como encontrou registos de que, em certos períodos da história, as classes mais nobres “tinham costureiras entre os funcionários”. Ou então eram as próprias donas das casas a “terem conhecimento para recuperar as peças”. Tudo se perdeu e “hoje quase que é mais fácil adquirir uma peça nova do que manter as que temos”.Assim, o propósito de chegar às crianças e jovens enquanto ainda estão “a formar os primeiros hábitos de consumo”, até porque a educação representa um papel fulcral, reforça a investigadora, que também fundou há três anos a plataforma Ethica que informa e dá formação sobre moda sustentável. “É um direito de todos nós. Tal como queremos saber o que está na nossa comida, é igualmente importante saber o que temos no vestuário.”Em prol da transparência, falta mudar as “etiquetas obsoletas”, que não esclarecem como as “nossas peças de roupa não são produzidas apenas num só país”. E exemplifica: “Um algodão pode ter sido plantado na Índia, fiado na China, cortado no Vietname e a peça feita no Bangladeche.” E insiste: “Esta educação é essencial para qualquer pessoa que queira fazer compras mais ponderadas.” Porque “a moda tem o cunho de ser a representação dos nossos valores”, termina.

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