Das abelhas aos escaravelhos, há 222 espécies polinizadoras em Portugal
Quando pensamos em polinizadores, dificilmente conseguimos enumerar muitas espécies animais relacionadas a este processo natural. Só em território nacional, contudo, são 222 as espécies que distribuem pólen, refere o livro Guia de Polinizadores de Portugal. A obra é lançada este sábado, às 11h00, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. O evento é aberto ao público e terá lugar na estufa tropical do Jardim Botânico da entidade.A obra Guia de Polinizadores de Portugal, para a qual colaboraram mais de 25 especialistas em botânica e em entomologia (especialidade da biologia que estuda os insectos), contém informação científica detalhada sobre as 222 espécies polinizadoras no país.O livro foi elaborado pelo PolinizAÇÃO, um projecto coordenado pelo Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet (CFE) da Universidade de Coimbra e que conta com o financiamento do Fundo Ambiental do Ministério do Ambiente e Energia. A iniciativa tem como meta a criação de um Plano de Acção para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores.Conhecer para preservar“A nível das questões de sensibilização do grande público, nós achamos que as pessoas só valorizam a conservação daquilo que reconhecem a nível de importância”, defende João Loureiro, investigador do CFE e co-coordenador do PolinizAÇÃO e da edição do livro, em conversa com o Azul.
Universidade de Coimbra/DR
“Cerca de 75% dos alimentos que nós consumimos dependem deste processo e sem estes agentes para o transporte, nós perdemos grande parte da nossa produção agrícola”, afirma o investigador. “Só para dar um exemplo, teremos défice de polinização em macieiras, cerejeiras, entre outros alimentos que são fundamentais para o nosso bem-estar.”O cientista recorda ainda que as populações de polinizadores e de flores na Europa estão em declínio. A União Internacional para a Conservação da Natureza anunciou recentemente que 10% de abelhas selvagens e 15% de borboleta estão em risco de extinção no continente. E a borboleta-branca-da-Madeira (Pieris wollastoni), endémica da ilha da Madeira, foi declarada extinta.Aves e até lagartixasE quanto à variedade de espécies polinizadoras em Portugal? Se por um lado podemos considerar exemplos óbvios, como as já mencionadas abelhas e borboletas, existem também casos menos evidentes. “Os escaravelhos são polinizadores em plantas que têm estruturas que praticamente chamamos ‘de aterragem’, como em malmequeres”, exemplifica João Loureiro.“Não são os polinizadores mais eficazes – como as abelhas, as moscas ou as borboletas – mas têm um papel bastante importante. Algumas espécies de formigas também são polinizadoras”, observa João Loureiro.
75% dos alimentos que nós consumimos dependem da polinização e sem estas espécies, nós perdemos grande parte da nossa produção agrícola
João Loureiro
O investigador destaca um caso distinto, merecedor de um capítulo inteiro no livro: a lagartixa-da-Madeira. “Este tipo de relações existe quase exclusivamente em ilhas, porque quando esta lagartixa chegou à ilha da Madeira, havia muito poucos recursos alimentares – é um polinizador bastante importante nos ecossistemas insulares”, refere João Loureiro.Os exemplos não se restringem aos insectos. Em Portugal, existem pelo menos cinco casos de aves identificadas como espécies polinizadoras: a felosinha-comum, o chapim-azul, o chapim-rabilongo, a toutinegra-de-barrete e a toutinegra-de-cabeça-preta.O valor da ciência-cidadãPara além do trabalho investigativo que o PolinizAÇÃO tem efectuado, o projecto ressalva também a importância que a ciência-cidadã tem na conservação de polinizadores. “É uma forma de sensibilizar as pessoas para a importância da biodiversidade, neste caso dos polinizadores em concreto”, explica o investigador ao Azul. “O próprio guia tem uma parte onde nós apresentamos algumas actividades de envolvimento do público.”João Loureiro destaca duas iniciativas de ciência-cidadã por parte do projecto, nomeadamente uma página na plataforma BioDiversity4All, onde o utilizador pode partilhar fotografias de insectos no processo de polinização, e a aplicação para telemóvel FITCount, para registar o número de interacções de insectos polinizadores em determinados grupos de flores.
O co-autor do guia refere ainda duas iniciativas de monitorização com maior longevidade no país: os Censos de Borboletas de Portugal e a Rede de Estações de Borboletas Nocturnas.“Às vezes as nossas práticas nas cidades não são as mais adequadas, mas se estiverem muitos cidadãos a fazer advocacia por este grande grupo de insectos, acho que teremos a causa muito mais próxima de estar ganha do que de qualquer outra forma”, conclui o especialista.










