CIÊNCIA

“Ligação cérebro-inteligência artificial será uma realidade em poucos anos”

As interfaces cérebro-computador — conhecidas pela sigla inglesa BCI (brain-computer interface) — são uma promessa antiga. Já existem aplicações concretas, como sistemas que devolvem a capacidade de comunicação a pessoas com paralisias severas que as impedem de falar. Mas estas soluções continuam a ser muito limitadas.Durante a Gitex Global, Matt Angle, CEO da Paradromics — uma das empresas mais avançadas na investigação nesta área —, revelou estar convicto de que estamos apenas a alguns anos de poder utilizar interfaces cérebro-computador verdadeiramente funcionais. Sistemas capazes de, literalmente, ler o pensamento.Segundo o responsável, o desempenho destes sistemas permitirá “falar para dentro”, isto é, comunicar com computadores (e com a inteligência artificial [IA]) apenas através do pensamento. “Tudo o que sentimos resulta da actividade neuronal”, explicou. “Isto significa que, depois de treinados, os sistemas BCI serão capazes de detectar todo o discurso de um utilizador, bem como os seus pensamentos conscientes.”E foi mais longe: “As BCI também poderão interpretar o que estamos a sentir. Por exemplo, se um de vocês estivesse a usar uma BCI, o sistema poderia registar o que estou a dizer, simplesmente porque estão a ouvir-me.”Em declarações ao PÚBLICO, Matt Angle explicou a diferença entre a tecnologia que já permite a comunicação de pessoas que não conseguem falar e a que está a ser desenvolvida pela Paradromics: “Esses sistemas transmitem dados a apenas dois a quatro bits por segundo, mas para transcrever o discurso ou o pensamento consciente de uma pessoa precisamos de 40 bits por segundo. A boa notícia é que o nosso sistema já permite 200 bits por segundo — vinte vezes mais rápido do que a nossa concorrente mais próxima, a Neuralink (empresa fundada por Elon Musk).”Com base nestes resultados, o CEO da Paradromics diz estar optimista quanto à criação de sistemas e aplicações comerciais reais dentro de poucos anos — até porque o regulador norte-americano (a FDA) criou recentemente um grupo de trabalho que inclui as cinco maiores empresas da área.


De apoio a superpoder Matt Angle considera natural que a tecnologia comece por ser aplicada em pessoas com limitações físicas — por exemplo, invisuais que queiram recuperar a visão. Mas acredita que rapidamente o público em geral vai querer aceder à tecnologia: “Quando as pessoas perceberem as capacidades extra que os utilizadores das BCI vão ganhar — verdadeiros superpoderes — acredito que todos vão querer experimentar.”As BCI são, contudo, apenas metade da equação para o desenvolvimento de sistemas cérebro-computador realmente completos. Para criar uma espécie de supervisão sensorial, será necessário associar-lhes câmaras e sensores que captem o ambiente e transmitam a informação à interface, que a traduzirá para o cérebro. Ainda assim, Matt Angle considera que essa parte será a mais fácil de resolver.“Logo que existam BCI com taxas de comunicação elevadas, vão surgir naturalmente ideias e aplicações”, afirma. E faz uma comparação: “Nós seremos como a Intel, que criou os processadores que permitiram o desenvolvimento dos computadores pessoais. Ou como a Nvidia, cujos chips viabilizaram o aparecimento de sistemas de IA como o ChatGPT. O ecossistema vai nascer à volta da tecnologia.”Inteligência artificial, a peça que faltavaA Paradromics acredita que os modelos de linguagem de grande escala — como o ChatGPT — vão acelerar decisivamente o desenvolvimento das interfaces cérebro-computador. Para Matt Angle, estas ferramentas são “a peça que faltava”, porque resolvem o problema da interpretação.“Os modelos de IA foram criados para imitar o cérebro humano”, explica. “Já não temos de nos preocupar com a capacidade de compreensão do computador, porque a IA pode interpretar as instruções que damos com o pensamento — e, no sentido inverso, converter informação digital em linguagem natural que o cérebro consiga processar.”Mundos virtuais directamente no cérebroMas se é possível transformar pensamentos em informação inteligível pela IA, também será possível fazer o caminho inverso. É aqui que a visão de Matt Angle entra no domínio do que hoje parece ficção científica.“Se quisermos visitar a Grécia antiga, por exemplo, não será difícil imaginar interfaces cérebro-computador capazes de transmitir um mundo virtual gerado por computador directamente para o cérebro”, descreve. “Tudo o que sentimos resulta da actividade neuronal”, recorda. “Por isso, poderemos mesmo sentir que estamos na Grécia Antiga — com todos os sentidos activos nessa realidade virtual que, para o cérebro, será indistinguível da realidade física.” Ou seja, sem óculos, auscultadores ou outro equipamento externo, poderemos mergulhar num mundo digital que o cérebro interpretará como real.Naturalmente, esta perspectiva levanta muitas questões de segurança e de eventuais efeitos sobre o cérebro humano. Mas, para Matt Angle, esses desafios “serão resolvidos à medida que forem surgindo”.O PÚBLICO viajou a convite da GITEX Global 2025

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