Morreu Kanchha Sherpa, o último dos conquistadores do Evereste
A conquista do “topo do mundo” é atribuída a Edmund Hillary, o primeiro homem a ter conseguido chegar ao cume do monte Evereste, em 1953, na companhia de Tensing Norgay. No entanto, os dois alpinistas não estavam sozinhos: a missão, liderada pelo coronel John Hunt e financiada pelo Comité Conjunto dos Himalaias, contava com o apoio de vários sherpas, entre os quais Kanchha Sherpa, natural de Namche Bazaar, Nepal, que foi uma das pessoas a carregar o equipamento de escalada e outros bens essenciais. Era, aos 92 anos, o último sobrevivente da expedição. Morreu nesta quinta-feira, em Kapan, distrito de Katmandu, informou a Associação de Alpinismo do Nepal (NMA, na sigla em inglês).“Ele morreu pacificamente na sua residência”, disse o presidente da NMA, Phur Gelje Sherpa, citado pelo The South Morning Post, considerando que “um capítulo da história do alpinismo desapareceu com ele”.Kanchha nasceu em 1933, mas desconhecia a data exacta — apenas sabia que era do ano do Galo no calendário do zodíaco tibetano, conforme atesta a sua biografia Tough & Cheerful (ed. Lulu.com, 2021), citada pelo site britânico UKClimbing, que se dedica à informação de actividades relacionadas com escalada e montanhismo. Dos primeiros anos de vida, sabe-se que se dedicou ao comércio, comprando açúcar na Índia, que trocava por sal no Tibete, e ao mercado de cães pastores do Himalaia.
“Acho que o Evereste precisa de descansar por algumas temporadas”, disse Kanchha Sherpa na entrevista que deu origem à sua biografia
Kanchha Sherpa Foundation
Até que, em 1952, decidiu tentar a sorte com Tenzing Norgay, que tinha fama de ser bem remunerado como guia de montanha. Norgay acabou por contratá-lo e integrá-lo na expedição britânica de 1953, ao longo da qual atingiu o Colo Sul, a 7906 metros de altitude, tendo escalado, tal como os restantes sherpas, sem oxigénio. Por isso, recordou na sua biografia, tinha problemas em respirar. Só que, confessou, depressa recuperou o fôlego ao avistar tudo o que se desenhava sob os seus pés: “Eu podia ver o Tibete e o glaciar de Rongbuk”, relatou numa entrevista para a sua biografia.Não seguiu até ao topo — nem era essa a sua vontade, como viria a assumir mais tarde. Mas havia de regressar ao Evereste, como guia, sem que, porém, alguma vez tenha pisado o seu cume. Até que, em 1970, uma avalanche no glaciar de Khumbu ceifou a vida de seis sherpas, que serviam de apoio a uma expedição japonesa, e Kanchha decidiu abandonar o alpinismo, ainda que não tenha virado costas à montanha. Começou a trabalhar numa empresa de trekking Mountain Travel Nepal, tendo sido um dos impulsionadores do turismo nepalês.Na sua biografia, porém, defendeu a necessidade de cessar as actividades na região: “Acho que o Evereste precisa de descansar por algumas temporadas. E talvez isso valorize ainda mais o Evereste!”










