O Governo devia preocupar-se em valorizar inovações de base científica já conseguidas
Debate-se a melhor maneira de gerir a ciência e a inovação. Já me pronunciei sobre o assunto. Mas há uma outra dimensão a considerar. O Governo, que pretende concentrar os recursos na inovação aplicada, devia preocupar-se mais com a valorização de muitas das inovações de base científica já conseguidas, para tirar o máximo partido do investimento já efetuado. Dispõe de várias ferramentas que podem ajudar muitas das inovações a alcançarem plenamente os seus objetivos sociais e económicos.A administração pública pode ser um mercado importante para muitas inovações, funcionando ainda como mercado de arranque e de referência. Mesmo quando não é cliente direto, pode ter um papel importante como certificador de produtos, ou regulador do acesso aos mercados e (ou) aos fundos comunitários. Mas neste ponto o que está em causa já não é o funcionamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Agência Nacional de Inovação (ANI), mas de muitos outros organismos dos ministérios setoriais, que ganhariam em se preocuparem mais com a inovação.Os mercados públicos podem ser uma ferramenta-chave para que novos produtos possam alcançar a escala de produção que lhes permita chegar a preços competitivos. Teremos muitos exemplos potenciais, desde novos materiais de construção às tecnologias solares flutuantes, ou as inovações para a saúde, desenvolvidas durante a covid-19, mas que têm aplicações noutras doenças. Há também sistemas de proteção, desenvolvidos nesse período, que podiam estar a ser úteis para melhorar as condições de trabalho em outras profissões.
A articulação de investimentos complementares pode ser também uma forma de tornar mais competitivos resultados da inovação. Um exemplo com grande potencial no nosso país: a produção de energia captando a força das ondas e ajudando, simultaneamente, a defender a costa da erosão.É fundamental cuidar da resiliência da rede elétrica, mais vulnerável com o crescimento da produção pelas renováveis, o que é possível com tecnologia portuguesa, a ser testada nas ilhas, antes de passar a outra escala.
O Estado devia dar particular atenção a tecnologias que favoreçam o desenvolvimento do interior do país. Tecnologias que criam mercado para materiais de cultura local, em substituição de sintéticos poluentes, importados. Tecnologias que deem acesso a serviços à distância, que dificilmente seriam acessíveis, de outro modo; ou que facilitem o acesso a mercados alargados e de maior valor.O ambiente, em espaços de menor densidade, podia estar a beneficiar de novas soluções para situações em que as clássicas ETAR não se ajustam ao tratamento dos efluentes. Também no combate aos fogos florestais há novas soluções que poderão aumentar a eficiência no combate, com menores riscos para os bombeiros.A regulamentação adequada podia estar a criar condições para a adoção de soluções inovadoras para aumentar a segurança, na condução automóvel, ou nos espaços públicos urbanos.Não percebo como há tanta preocupação com os recursos usados na investigação fundamental e não há um maior empenho em tirar partido dos investimentos já realizados, com novas soluções desenvolvidas. Mesmo quando estamos a planear grandes investimentos nas infraestruturas de mobilidade, devíamos estar a considerar as novas soluções, em desenvolvimento, mas que já dão bons sinais de poderem vir a ser alternativas às soluções antigas e mais caras.É apostando no novo que abrimos caminhos para o futuro.O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico










