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Zero à direita

Não é fácil ser-se homem nas mãos desta mulher que nos escreve, que nos desfaz, faz de nós gato-sapato, junta-nos numa panela de tísicos emocionais até virar um caldo de tanso, ou injeta-nos virilidade postiça e transforma o coração em mioleira de vaca temperada, cozida, servida, não é fácil ser-se homem nesta página onde nos guilhotinam a voz mas mantêm a goela para o nó da gravata, onde se supõe que sejamos quebradiços e robustos como árvores, e que arranquemos qualquer raiz com a justiça masculina, e a última vez que fiz queixa dela sabem o que fez? tirou-me as calças e mandou-me para o meio da praça de Londres cantar a Marselhesa, escreve que somos malcriados, malparidos, mas quem nos pariu e educou se não ela? quem se diverte a entortar-nos como se faz aos dentes mas ao contrário? e quando lhe puxei os cabelos esta noite, numa retribuição ínfima de transtorno, não adivinhava o seu sonambulismo, nem que afinal sonhava comigo perfeitinho, com qualidades, igual ao meu padrinho que ela um dia tão bem escreveu e desenhou, “há quanto tempo não gostas de nós?, por que não nos defendes nos textos?, que mal te fizemos?”, revolveu-se na cama com interrogatório interdito aos sonâmbulos, fez do lençol microfone, “ah, os homens, mais ou menos”, não satisfeito com uma resposta enfezada para três perguntas pertinentes, voltei a insistir, “deixa-nos em paz!, pára de parir mais homens como nós”, e foi então que a vi levantar-se da cama, num rasto de pegadas húmidas, pegar no bloco e na caneta, tomar notas, voltar a mergulhar no conforto do sonho, “para se escrever sobre um homem ruim tem de se conhecer pelo menos um zero à direita”, não fui feito para entender expressão tão enigmática, por isso deitei-me ao lado dela, cantei-lhe:Oh Laurinda, linda, lindaOh Laurinda, linda, lindaÉs mais linda do que o solDeixa-me dormir uma noiteNas dobras do teu lençolPercebem a perversidade de tudo isto?, é ela quem conhece a música, não eu, mas aproveita a minha voz, que é a dela, para a embalar, e eu fiquei ali, e pensei que talvez todos nós, homens, sejamos apenas sombras no calor daquilo que uma mulher pariu ou escreveu.

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