Dan Brown, o chefe das televendas: <em>O Segredo dos Segredos</em>
Quando abrimos um livro de Dan Brown (n. 1964), já todos sabemos ao que vamos. A nossa intuição quase nunca falha. A receita está estabelecida: umas quantas ideias mirabolantes sobre assuntos escondidos (num qualquer multiverso), cidades culturais antigas, aulas de História que se podem ler na Wikipédia, agências secretas, tontas teorias da conspiração elevadas a um aparente real verosímil para nos deixar na dúvida, pretensos segredos ocultos, ainda mais segredos místicos, segredos que só podem ser desvendados por quem tem a chave única daquele tipo de simbologia, e ainda mais documentos, livros antigos, pseudociência, obras de arte conhecidas e várias organizações duvidosas que trabalham para algo intangível e desconhecido.Tudo isto nos chega empacotado em forma de livro, sendo apresentado como naqueles programas que nos ocupavam as madrugadas televisivas de há duas décadas ou mais: as televendas. A técnica é exactamente a mesma: boa aparência, alguns músculos que se adivinham, depois um pretenso sorriso simpático que quer passar muita energia. Dan Brown é o chefe oculto das televendas.O Segredo dos Segredos, neste aspecto, não desilude: está lá tudo. E como seria de esperar, o seu herói Robert Langdon, o prestigiado professor de Simbologia em Harvard, regressa mais uma vez. Agora, como convém para parecer que algo muda e que a vida é uma coisa dinâmica, tem uma namorada nova, Katherine Solomon (apelido que logo remete para a simbologia do rei Salomão). Estão ambos em Praga (depois de os anteriores livros terem como cenário Roma, Florença, cidades espanholas… faltava uma na Europa Central). A doutora Katherine vai proferir uma conferência sobre “estudos da noética” e mais tarde publicará (pensava ela, coitada) um livro revolucionário que fará revelações explosivas sobre a natureza da consciência humana. Entretanto, já o professor Langdon se atirou ao rio Moldova, gelado, porque esperava que o edifício do hotel onde estava estourasse. Não estourou e nós não percebemos porquê, porque seria suposto rebentar. Comparadas com O Segredo dos Segredos, as correrias pelas ruas e telhados das missões impossíveis de Tom Cruise parecem cenas de aprendizes.Dan Brown usa sempre (quase sempre) alguma ideia de pseudociência, experiências ocultas cujos resultados poderiam abalar o equilíbrio das certezas científicas. Neste seu novo livro é a ideia de que a consciência não tem lugar no cérebro, ou não é lá que se gera, mas anda por toda a parte — o cérebro é apenas uma antena, um receptor. Logo na página de abertura podemos ler algo que nos prepara para o que aí vem: “A única coisa que a Drª Brigita Gessner sabia com toda a certeza, nesse momento, era que estava suspensa acima de Praga, a sua cidade natal. O seu corpo não estava presente. Ela não tinha massa nem forma. E, no entanto, o resto dela, o seu eu de verdade — a sua essência, a sua consciência —, parecia-lhe bastante intacto e atento, a deslizar lentamente em direção ao rio Moldava.”
Autoria: Dan Brown
Tradução: de Tânia Ganho
Editora: Planeta
Págs, 704. 23,50€ Preço
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Voltando à história deste thriller: inevitavelmente, tinha de entrar uma agência de inteligência, neste caso a CIA. Ora, não era apenas a doutora Katherine que andava a fazer experiências com a consciência que por aí anda, os senhores da CIA também. Talvez por isso, depois de um miserável assassinato e do caos que se gera, a doutora leva sumiço, mas também o seu livro que iria ser revolucionário (como não chegou a ser publicado, ficaremos sempre na dúvida se a consciência nasce no cérebro ou não). O professor Langdon fica desesperado com o desaparecimento da namorada e começa a correr contra o tempo (não se percebe se é apenas ansiedade e angústia ou se há algo mais). E assim vamos nós de Praga para Nova Iorque, passando por Londres.










