Cartas ao director
O terceiro partidoDas 308 câmaras municipais, PS e PSD ganharam 264, cerca de 85%. Afinal, o “bipartidarismo” não morreu? É diferente a dinâmica das autárquicas e mais complexa do que nas legislativas. Não há um candidato a líder de governo, há 308 candidatos a presidente de câmara (sem falar aqui nas freguesias), e a eventual confiança ou rejeição que o líder de Lisboa provoca pode ser bem diferente da que o candidato local gera.Duas curiosidades. Ricardo Leão em Loures foi quase um proscrito pela corte instalada no Largo do Rato e limpou as eleições em Loures. Eduardo Teixeira, várias vezes candidato pelo PSD à Câmara de Viana do Castelo e derrotado, não foi por aparecer em cartazes com André Ventura ao lado que convenceu mais os eleitores.O que me parece também ser de assinalar é que a terceira força foram os “outros”, os independentes, apesar de não haver surpresas espectaculares ao nível de Rui Moreira quando ganhou pela primeira vez o Porto. Parece-me que uma grande parte destes “outros” são gente com carreira nos partidos que resolveram fazerem-se ao largo por conta própria. Não há verdadeiramente muita gente nova vinda da “sociedade civil” que se apresenta directamente por conta e risco na política local. São os partidos a perderem a mão nas suas “tropas”, por boas ou más razões.Os partidos estabelecidos há mais tempo têm um acervo de autarcas com notoriedade e provas dadas (melhores ou piores) que lhes dá mais resiliência e resistência à mudança, mas as lideranças partidárias tinham interesse em entender as causas profundas destas deserções e corrigir o que houver a corrigir enquanto houver tempo.Carlos J.F. Sampaio, EsposendeChega perde. PSD ganha. PS não afogaExpectativas pré-autárquicas, até dos respectivos chefes: Chega a ganhar muitas câmaras, PS a perder mais de metade das que tinha, PSD a manter-se. Resultados e reacções dos chefes em conformidade: Chega perde, mas reage ao contrário, PS não se afoga desta vez e PSD ganha. Os chefes destes três partidos reagiram em conformidade, excepto o do Chega. O chefe do Chega, sem o alarido, os saltos, os gritos do costume, o chefe do PS estupefacto por ter sobrevivido e o chefe do PSD feliz e contente por ficar à frente.O PS tem quatro anos para aproveitar estes resultados, dado que tendencialmente os perderá. O PSD, onde não tiver maioria e necessitar, vai-se aliar, evidentemente, ao Chega, Chega este que vai rapidamente fazer o luto deste resultado e aparecer vitorioso e a fazer apostas vencedoras para os próximos actos eleitorais.O BE pode ir pensando nos próximos anos em fechar portas. O PCP ficará mais uns tempos a recordar o que foi. O CDS cai quando o PSD se aliar mais ao Chega. A IL vai-se diluir no Chega. O PAN já chegou ao fim.Augusto Küttner de Magalhães, PortoAlgumas conclusões das autárquicas1. As grandes cidades terão de ser governadas por coligações informais entre PSD e PS.2. Os portugueses não votam em desconhecidos: o Chega sai esvaziado da eleição porque Ventura não estava no boletim de voto.3. Para sobreviver, PCP devia ser liderado por João Ferreira.4. Votação em listas de independentes está em regressão.Artur Águas, PortoQue tipo de histórias queremos contar? O texto de João Antunes, da Médicos Sem Fronteiras (MSF), retrata bem o que se tem passado em Gaza nos últimos dois anos. A pergunta pertinente que faz leva-me a responder enquanto voluntário da Médicos do Mundo (MdM), organização internacional que nasceu da MSF. Infelizmente, esta é a história que os trabalhadores humanitários da MdM presentes em Gaza também têm para contar: para além das dezenas de milhares de mortos e feridos entre a população, das clínicas e escritórios repetidamente atacados, frequentemente sem qualquer aviso apesar de identificados, deslocamentos e encerramento de instalações forçados, o nosso pessoal testemunhou e sofreu múltiplas violações do direito internacional humanitário. Há, contudo, outras histórias por trás desta história de horror. São as histórias de coragem, altruísmo e solidariedade daqueles que ficaram naquele inferno para ajudar os outros.Agora que os “bárbaros” do Hamas e os “anjos justiceiros” do Exército israelita se estão a entender para depor as armas, esperamos que o sofrimento de palestinianos e israelitas diminua. Não vai acabar, pois as feridas são profundas e imensas.Honremos a memória dos mais de 500 trabalhadores humanitários mortos em Gaza (ONU, Agosto de 2025) e esperemos que o entendimento entre palestinianos e israelitas seja uma realidade.Fernando Vasco Marques, Várzea de Sintra










