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Chega no Entrocamento? "Era bastante previsível"

São nove e meia da manhã e na freguesia de Nossa Senhora de Fátima, no Entroncamento, reina a tranquilidade. Nos cafés, os clientes tomam o pequeno-almoço e jogam à raspadinha — e são poucos os que comentam o facto de o Chega, com Nelson Cunha, ter conquistado a autarquia ao PS, nas eleições autárquicas de domingo.
José Manuel Mendes, reforçado, antigo militar e que diz votar maioritariamente em branco por que não ligar muito à política, considera que a vitória do Chega nesta cidade do distrito de Santarém não é surpresa para ninguém. “Não me surpreende, a cidade está a degradar-se muito e era mal governada. As ruas estão sujas, há cada vez mais assaltos. As pessoas sentem a necessidade de mudar”, defende ao Observador o pensionista de 65 anos, enquanto bebe o seu café, levantando ainda questões sobre as condições do próprio partido de André Ventura para exercer poder local. “Parece-me um partido de uma pessoa só, onde é que têm quadros para alimentar mais autarquias”, questionou.José Manuel Mendes fez ainda questão de ler estes resultados tendo em conta o contexto internacional e admitiu a sua apreensão. “Compreendo a adesão das pessoas, mas tenho alguma preocupação. Ter um partido de extrema-direita na câmara assusta. Estes partidos estão a crescer em todo o lado, não é só aqui”, confessou.Já no centro da cidade do Entroncamento, Joaquina Pacheco também defende que era preciso mudar a liderança camarária. “Uma coisa tenho a certeza, a solução não podia passar pelo PS”, disse ao Observador, admitindo estar expectante quanto aos próximos anos de governação. “Durante muitos anos tivemos o PS à frente da câmara e esqueceram-se das pessoas. A cidade está suja e abandonada. As pessoas revoltaram-se e temos de aceitar os resultados. Não sei bem se o Chega é a solução, mas alguma coisa tem de mudar. É esperar que eles consigam negociar uns com os outros ao nível de vereadores”, acrescentou.
Agora reformada, Joaquina Pacheco (63 anos) foi proprietária de um café na cidade onde vive há 50 anos. Um dos seus clientes foi precisamente Nelson Cunha. “Era um rapaz de 16 ou 17 anos. Juntava-se com os amigos lá no café e agora tornou-se num senhor. Mas tantos anos se passaram, já não o conheço muito bem””, confessou.Na rua da Calçada, um saco de pano vermelho chama à atenção. “O nazismo é uma história bruta”, pode ler-se inscrito no tecido. Ema Pires admite que escolheu o acessório no dia a seguir às eleições autárquicas com o objetivo de passar uma mensagem de forma subtil. “É para deixar as pessoas a pensar no futuro”, diz ao Observador.É professora de antropologia de uma universidade pública do país e está de passagem pelo Entroncamento para visitar os pais. Cresceu na cidade, mas leciona em Évora. É a primeira pessoa que se mostra incomodada com a nova gestão da autarquia. “Sinto-me envergonhada”, desabafou ao Observador. A professora de 50 anos entende que é preciso respeitar a democracia, mas não deixa de estar triste com o desfecho da noite eleitoral.
“Preocupa-me o futuro da câmara. Temos de respeitar, foram eleitos democraticamente, têm de governar. O Entroncamento sempre foi uma terra de migrantes e sinto que as pessoas estão ressentidas com quem é diferente e quem é de longe”, explicou, prometendo lutar como cidadã contra aquilo que considera ser um “racismo estrutural que está enraizado no país”.Menos preocupados, estão os clientes da taberna Vila Franca. O dono, Arlindo Marques, mostra-se cauteloso quanto aos próximos quatro anos de governação do Chega na Câmara Municipal do Entroncamento. “Era previsível, não sei se as pessoas votaram pelas razões certas, eu acho que não vai ser uma boa solução, mas era previsível”, resume ao Observador, respondendo com um encolher de ombros quando questinado sobre o que pensa sobre o novo autarca. “Só o conheci através de folhetos, nem sei o que faz”.Arlindo Marques revela que o tema da imigração marca as queixas que ouve dos clientes. “Dizem que há muita gente de fora, pessoalmente não tenho razão de queixa, mas claramente temos falta de estruturas”, diz, recorrendo ao exemplo das escolas. “O Entrocamento não tem capacidade para tanta gente. No caso das escolas, já têm de ir para Vila Nova da Barquinha, Riachos e Torres Novas”. Defende que é preciso dar condições a quem chega, saber acolher, mas entende que a cidade já não tem condições para o fazer — e esse é um dos problemas que quer ver resolvido, explica ao Observador.Ao lado, um cliente aproveita o momento para dar a sua opinião: “Há gente a mais e precisam de ir embora”. Questionado se é simpatizante do Chega, afasta-se do balcão e atira: “Eu não sou o André Ventura, nem do Benfica sou”.
O Chega obteve 37.34% dos votos nas eleições deste domingo. Nelson Cunha conquistou a presidência da Câmara Municipal do Entrocamento e vai ter a companhia de três vereadores. O PSD/CDS PP, segunda força mais votada, elegeu dois vereadores e o PS, que perdeu a gestão da autarquia, ficou em terceiro também com dois vereadores eleitos.Além do Entrocamento, o Chega também venceu a Câmara de Albufeira e a de São Vicente, na região autónoma da Madeira. Um resultado que André Ventura já admitiu que “ficou aquém” do esperado.
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