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Lapsos freudianos

Há umas semanas, queria enviar um trabalho a um professor americano convidado com quem tive uma cadeira na faculdade, e no início do e-mail, escrevi “Dead Professor David”. Seguido do habitual: “I hope this email finds you well”.Só reparei depois que não tinha escrito “Dear”. O professor está vivo, e respondeu com fleuma, mas o episódio entrou para o meu pequeno museu de desastres privados.Fascinam-me as gafes e os enganos linguísticos deste tipo. Uma amiga minha, que não domina o inglês, queria pedir guardanapos e disse: “I want to kidnapp, please”, sugerindo que queria raptar alguém.Uma conhecida disse que iria enviar um minete em vez de uma minuta. E por cada pai convertido em pau pelo corrector automático, Freud sorri.Muitos dos lapsos são hoje, aliás, patrocinados pelo corrector automático, esse vigilante benevolente com vocação satírica. É o nosso superego tecnológico: aparece para nos corrigir e acaba a denunciar-nos ou a inventar-nos. Freud escrevia sobre actos falhados (os famosos lapsos freudianos) de pessoas deitadas num divã, hoje o paciente é o telemóvel, e o inconsciente é o algoritmo.O lapso analógico (o que sai da boca) expõe o que pensamos antes de filtrar, o lapso digital (o que o telefone “decide”) mostra o que o algoritmo supõe que pensamos. Num caso, tropeça o falante, no outro, tropeça o modelo que fala por nós.É por isto que não espanta que haja cada vez mais pessoas a dizer: “Que Deus te elimine”. Ou alunos a enviarem mensagens aos seus “opressores”.Já vi: “Boa reunião!” transformada em “Boa ruína!”, “Os meus pêsames” em “os meus penáltis”; “Fui buscar os miúdos” em “Fui buscar os medos”, “O jantar está no forno” em “O jantar está no inferno” e “Abraço à família” em “abraço à faminta”. Ou, um outro clássico: “Já li, está ótimo” que passa a “já li, está otário”.Se, por vezes, o corrector tem tendências para ser ordinário, como a mania de tirar o “n” de “tensão”, noutras também sabe pôr água na fervura e, por isso, várias mulheres estão a ser apelidadas de “puras” na Internet. Já para não falar que não podemos dizer a abreviação de um palavrão sem ser automaticamente substituído por “fim-de-semana”.No lapso freudiano a língua trai a cabeça e confessa qualquer coisa que o eu consciente omite. Já me aconteceu, por exemplo, dizer: “Vou só buscar as minhas mães a casa da minha filha.” E relembro o famoso “para um país mais pobre!” entusiástico de José Sócrates. Ou o do Presidente Jimmy Carter que, num discurso em polaco (mal traduzido), disse sem querer o equivalente a “desejo ter relações carnais com o povo polaco”.O lapso confessa; a gafe expõe, o engano atrapalha. O erro é a parte viva da linguagem. E lembra‑nos que o que dizemos não nos obedece. Que há plateia, há sistema, há subterrâneos e, agora, há algum ritmo. Ai! Fim-de-semana! Algoritmo.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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