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Dubai quer ser o centro do mundo na inteligência artificial

O Dubai faz parte dos Emirados Árabes Unidos (EAU), uma monarquia absoluta onde, sob o olhar europeu, a liberdade individual tem fronteiras bem definidas. A constatação é imediata para quem chega: não é possível usar o WhatsApp para fazer uma videochamada para casa. Numa das economias mais tecnológicas do planeta, as mensagens de voz e de vídeo estão bloqueadas no WhatsApp e noutros serviços populares noutras geografias. Só é permitido recorrer a aplicações de videochamadas aprovadas pelo governo. Também a navegação na Internet obedece a regras apertadas: a legislação determina o bloqueio de todos os sites considerados contrários ou ofensivos para “o interesse público, a moralidade pública, a ordem pública, a segurança nacional ou o Islão”. Curiosamente, redes sociais como o Facebook ou o X são de acesso livre — embora os utilizadores possam ser responsabilizados por publicações que infrinjam essas mesmas normas.Essas restrições, no entanto, não parecem travar o ímpeto tecnológico do país. O Dubai tornou-se sinónimo de inovação e é hoje um dos lugares do mundo onde é mais fácil testar novas tecnologias. Foi pioneiro, por exemplo, na abertura de parte do espaço aéreo aos chamados carros voadores — drones capazes de transportar passageiros, os eVTOL (veículos eléctricos de descolagem e aterragem vertical). Tudo indica que, já no próximo ano, será possível “apanhar” um táxi aéreo no Dubai, talvez a tempo da edição de 2026 da Gitex Global, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, que está a decorrer no Dubai até 17 de Outubro. Essa edição ficará marcada pela mudança para a Expo City — o espaço que acolheu a Expo 2020 — e pela fusão com a Expand North Star, o evento dedicado às start-ups que decorre em paralelo com a Gitex.“O deserto é uma tela em branco”Foi precisamente na abertura da Expand North Star 2025 que Omar Sultan Al Olama, ministro de Estado para a Inteligência Artificial, Economia Digital e Trabalho Remoto, traçou o retrato de um país pronto a acolher empreendedores e investidores. Nomeado em 2016, Al Olama foi o primeiro governante do mundo com o pelouro da IA. “Fomos pioneiros na inteligência artificial não para seguir uma tendência — até porque começámos antes do fenómeno do ChatGPT —, mas para melhorar a vida das pessoas”, afirmou.


Omar Sultan Al Olama, ministro de estado para inteligência artificial, economia digital e trabalho remoto dos Emirados Árabes Unidos
DR

Hoje, garante, a IA está presente em praticamente todas as áreas do governo. No aeroporto do Dubai, por exemplo, os residentes podem passar pelos controlos de segurança sem mostrar o passaporte nem parar: basta caminhar por um corredor onde câmaras e algoritmos identificam automaticamente cada passageiro. Noutros casos, a IA é usada para analisar pedidos de registo de marcas e responder, em segundos, qual a semelhança com outras já existentes, evitando futuros litígios. Também recomenda localizações ideais para construir hotéis ou hospitais, “de modo a garantir uma recuperação de investimento mais rápida”.O ministro revelou ainda que todos os departamentos do governo dos Emirados Árabes Unidos têm um director de IA, “para garantir responsabilização e um ponto de contacto para quem queira propor novas ideias ou regulamentação”. E sublinha que estes responsáveis são especialistas de formação: “Foram para Oxford e outras universidades, onde estudaram durante um ano para compreender a IA”.Com orgulho, Al Olama comparou a agilidade do seu país com outras geografias: “Somos rápidos a responder às necessidades dos empreendedores. Não temos as burocracias e barreiras dos países que competem connosco. Não dizemos que sabemos tudo, mas somos os melhores alunos e ouvintes. Quem vier até nós com boas ideias, verá essas ideias implementadas rapidamente.”Os números parecem dar-lhe razão. Mais de 1500 start-ups dedicadas exclusivamente à IA já desenvolvem tecnologia e soluções a partir dos EAU. O objectivo, diz o ministro, é chegar às 10 mil empresas nos próximos cinco anos. “Vamos criar as condições para atrair as pessoas mais talentosas e brilhantes.”Robôs, “the next big thing”Khalifa Al Qama, director dos Dubai Future Labs — um centro de investigação em robótica, automação e IA —, destacou durante o mesmo evento a importância das sandboxes, zonas de teste abertas à experimentação tecnológica. Relembrou o exemplo dos drones: “Convidámos dez dos maiores fabricantes do mundo. Agora já utilizamos drones e conseguimos desenvolver legislação para esta nova realidade antes dos outros países. Dentro de poucos anos, a maior parte do nosso espaço aéreo estará aberta aos drones.”Questionado pelo PÚBLICO sobre qual será a próxima grande tecnologia a transformar o quotidiano, Al Qama não hesitou: “Os robôs. Creio que, dentro de um a dois anos, vamos interagir com eles de forma natural — embora com supervisão humana. Não vamos deixar os robôs tomar decisões.”IA vai valer tanto quanto o petróleoDurante décadas, a riqueza dos EAU assentou no petróleo e no gás. Hoje, esse sector representa apenas cerca de 15% do PIB. Segundo Abdullah Bin Touq Al Marri, ministro da economia, será essa também, em 2030, a fatia do PIB atribuída à inteligência artificial — o equivalente a cerca de 90 mil milhões de euros.Ministro desde 2006, Al Marri considera que este é o ano em que começou “a grande corrida para a IA”. Mas faz uma ressalva: “Não é uma corrida entre países, é uma corrida contra nós próprios.” O maior desafio, defende, será a transformação profunda que a IA exigirá a cada um de nós — desde a forma como trabalhamos até ao modo como interagimos com a tecnologia. E sublinha que a inteligência artificial é já “uma questão de soberania, tal como a defesa ou a cibersegurança”. E resume a ambição do país numa frase: “Os Emirados são uma plataforma aberta para o mundo. Não criamos paredes, criamos pontes.”


Abdullah Bin Touq Al Marri, ministro da economiados Emirados Árabes Unidos
DR

E é então impossível não lembrar que, por lei, é proibido o uso de VPN — as redes privadas virtuais — para contornar o bloqueio das videochamadas no WhatsApp. No Dubai do futuro, até a inovação obedece a regras muito claras.O PÚBLICO viajou a convite dos organizadores da GITEX Global 2025

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