‘Quando você conta a sua história de vida, ela não controla mais você’, diz autora de ‘O Mindset da Odisseia’

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Em “O Mindset da Odisseia”, a psicóloga Sam Akbar explora como a obra de Homero oferece lições valiosas para a saúde mental e o autodesenvolvimento. Ela discute a importância de narrar a própria história, o conceito de xenia, Penélope como modelo de resiliência e a personalidade multifacetada de Odisseu para uma evolução mental coerente.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Ninguém melhor do que a britânica Sam Akbar para falar do que podemos aprender, do ponto de vista do autodesenvolvimento e da saúde mental, com A Odisseia, um dos textos fundadores da literatura e da cultura ocidental.
Psicóloga clínica também formada em estudos clássicos, ela mergulha na história rediviva pelo cinema e em suas próprias experiências como terapeuta no livro O Mindset da Odisseia, recém-publicado pela editora BestSeller.

Em entrevista exclusiva, a autora revela alguns dos principais insights da obra milenar – como a importância de revisitar e contar sem julgamento a própria trajetória de vida – e defende que temos uma série de valores a resgatar com os gregos antigos, a começar pelo respeito ao “outro” e às diferenças.

Com a palavra, Sam Akbar.
Qual é o seu episódio favorito da Odisseia, considerando as lições psicológicas que ele evoca? É realmente difícil escolher apenas um, mas, se for preciso , volto sempre ao episódio dos feácios — especificamente ao momento em que Odisseu se torna seu próprio bardo e conta sua história com as próprias palavras pela primeira vez. Após nove cantos do poema em que o próprio Homero narra os acontecimentos de fora, o rei Alcino simplesmente pergunta a Odisseu quem ele é; o que se segue é uma das passagens psicologicamente mais sofisticadas de toda a literatura antiga, pois o personagem não apenas responde à pergunta, mas encena — por meio do próprio ato de narrar — a sua recuperação. Ele conta a história cronologicamente, desde o início, sem saltar para os piores momentos nem omitir fracassos constrangedores, e faz isso em um ambiente de segurança genuína, diante de pessoas que o aceitam antes mesmo de saberem qualquer coisa sobre o seu passado.

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Parece uma sessão de psicoterapia. Isso é a Terapia de Exposição Narrativa descrita três mil anos antes de o tratamento existir. O motivo de isso me tocar tanto é que a cena captura algo que vejo frequentemente no consultório: o fato de que o ato de se tornar o narrador da própria experiência — em vez de ser dominado por ela — constitui, por si só, o ponto de virada. Quando você conta a sua história de vida, você a controla; ela não controla mais você. O episódio dos feácios compreende isso em um nível profundo e também nos lembra que esse tipo de recuperação não pode ocorrer isoladamente, pois exige as testemunhas certas — pessoas que oferecem paciência e compaixão e não apressam o ritmo da revelação do outro, que é exatamente o que o rei Alcino e a rainha Arete proporcionam.

‘O MIndset da Odisseia’, de Sam Akbar, tradução de Miguel Conde, Editora BestSeller; 266 páginas (Capa: BestSeller/Reprodução)

Qual seria o valor ou conceito da obra que mais falta à nossa sociedade contemporânea? Sem muita hesitação, eu diria que é a xenia, o antigo conceito grego que engloba tanto a hospitalidade quanto a amizade e que preconiza tratar o estranho que chega à sua porta não como uma ameaça, mas como uma fonte potencial de conexão mútua e de fortalecimento. Os antigos gregos compreendiam algo que parecemos esquecer constantemente: que um xenos (um estranho) pode significar, simultaneamente, alguém desconhecido e um amigo, e que a fronteira entre ambos é muito menos rígida do que a nossa cultura, movida pelo medo, tende a supor. Em um mundo onde a xenofobia ocupa um espaço muito maior no debate público do que a xenofilia, em que estranhos são vistos instintivamente como ameaças e fronteiras são endurecidas contra pessoas em situação de real necessidade, a insistência homérica de que a hospitalidade não é apenas uma virtude privada, mas uma obrigação sagrada que mantém a sociedade civilizada unida, parece mais urgente e necessária do que nunca.

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Os gregos, portanto, já batiam numa tecla que o mundo vem esquecendo hoje. O que mais me chama a atenção é o fato de os antigos gregos terem integrado a concepção de xenia à sua cosmologia por meio de Zeus Xenios, o deus dos hóspedes. Isso nos mostra que eles entendiam que a capacidade de uma sociedade acolher o “outro” desconhecido não é um elemento acessório ou opcional, mas um pilar fundamental daquilo que torna a vida coletiva possível e humana. Em meu trabalho clínico com refugiados, vejo toda semana o custo que isso tem para uma pessoa: chegar a um lugar precisando desesperadamente de acolhimento e vê-lo negado. Por isso, acredito que resgatar uma cultura genuína de xenia — nos lares, nas comunidades ou nas instituições políticas — é uma das tarefas mais urgentes que temos pela frente.
Além de Odisseu, qual personagem serve como um bom modelo para o autodesenvolvimento? Penélope, sem dúvida alguma; e acredito que ela seja significativamente subestimada como modelo de autodesenvolvimento justamente porque sua jornada ocorre inteiramente na esfera doméstica, e não em uma dramática viagem marítima — o que facilita ignorar o extraordinário trabalho psicológico que ela realiza ao longo do poema. Ela atua sob condições de restrição real que Odisseu jamais enfrenta, visto que, como mulher na Grécia arcaica, suas escolhas são radicalmente limitadas; ainda assim, dentro dessas limitações, ela exerce sua inteligência, paciência e locus de controle interno com uma constância e sofisticação que, pode-se argumentar, superam qualquer coisa que seu marido consiga demonstrar.
Como assim? Sua estratégia de tecer e desfazer a mortalha lhe garante três anos de tempo; a genialidade dessa estratégia reside justamente no fato de ela operar dentro do espaço restrito que lhe é acessível, em vez de se revoltar contra limites que não pode alterar — uma resposta à impotência muito mais matizada e psicologicamente madura do que a simples resistência. Contudo, o aspecto que considero mais fascinante em Penélope como modelo de autodesenvolvimento é o fato de ela manter seu rumo sem ter certezas, esperando não por passividade, mas por possuir uma noção profundamente enraizada de quem é e do que valoriza. Ela permanece cética e lúcida até o fim, exigindo provas de identidade antes de aceitar Odisseu de volta, o que nos revela que sua lealdade nunca foi uma submissão cega, mas algo muito mais digno: uma escolha renovada a cada dia, na ausência de qualquer garantia de que seria recompensada.

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Em seu livro, você destaca os múltiplos papéis de Odisseu. O que eles nos revelam sobre a formação e a transformação da personalidade? Isso nos revela algo que a psicologia moderna só começou a articular adequadamente há relativamente pouco tempo: a personalidade não é algo fixo e singular que possuímos, mas sim um sistema dinâmico de múltiplas partes — cada uma adaptativa, apropriada ao contexto e capaz tanto de nos servir quanto de nos prejudicar, dependendo de qual parte assumiu o leme em um dado momento. Homero sinaliza isso logo na primeira palavra do poema, chamando Odisseu de polytropos e atribuindo-lhe mais epítetos do que a quase qualquer outro personagem da literatura antiga. Ele é um homem deliberadamente construído como uma figura de extraordinária multiplicidade interna, em vez da simplicidade heroica.
Essa noção também está ancorada na psicologia moderna? O modelo de Sistemas da Família Interna, do psicoterapeuta Richard Schwartz, corresponde diretamente ao que Homero nos mostrava: a mente é composta por múltiplas partes, cada uma com sua própria perspectiva e tom emocional, todas unidas por um núcleo calmo e compassivo que ele chama de Self (o Eu). A tensão psicológica na Odisseia surge precisamente quando uma das partes de Odisseu — o guerreiro, o astuto, o marido enlutado — assume o controle no momento errado e obscurece o acesso a esse núcleo coerente e mais profundo.
Como isso pode moldar nossa própria evolução mental? A percepção fundamental para a evolução mental reside na distinção que o livro faz entre consistência — algo nem possível nem desejável, dada a quantidade de partes que abrigamos — e coerência: a capacidade de ser genuinamente muitas coisas em contextos diferentes, mantendo-se reconhecidamente você mesmo, guiado por um conjunto de valores que permanece constante mesmo quando seu comportamento muda. O executivo sobrecarregado que se sente uma fraude em casa, o pai ou a mãe que se sente invisível no trabalho, o amigo que se doa incansavelmente aos outros enquanto desmorona por dentro: todas essas são versões do que acontece quando uma parte do sistema interno domina sem integração. Assim, o caminho para uma saúde psicológica genuína não é simplificar a nós mesmos em um único papel consistente, mas desenvolver autoconsciência suficiente, para reconhecer qual parte está conduzindo o barco, e autoridade interior, para devolver gentilmente o leme àquele núcleo calmo e compassivo quando a situação o exigir.

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