Eu era aquela que cuidava das outras. Ginecologista e obstetra, recebia vidas todos os dias com a serenidade de quem nunca precisou ser recebida. Tinha um filho, uma casa cheia de passos e de barulho bom, além de uma agenda que não comportava pausas. Via a medicina como um ato de entrega: dava de mim até o último fio e chamava isso de vocação. E assim a vida era uma lista de tarefas a cumprir com a devida perfeição, algo que, como aprendi depois, também era um jeito de eu me esconder de mim mesma. Dançava desde menina, e, mesmo fazendo do corpo minha primeira língua, eu já não o escutava. A gente pode conhecer o corpo inteiro pela anatomia e ainda assim morar longe dele. Eu morava longe do meu.
Os sinais de que havia algo errado vieram devagar. Um cansaço que o sono não resolvia. Mãos que dormiam. Pele que ia endurecendo, como se o tempo estivesse se apertando por dentro. Havia ainda a tireoidite de Hashimoto, doença autoimune que leva à destruição das células da tireoide. Era um diagnóstico antigo que eu, médica ocupada, engavetei entre os prontuários dos outros. Eu sabia ler exames. Ainda não sabia ler a mim mesma.
A consulta fatal chegou aos 33 anos, em plena gravidez do meu segundo filho. Nada doeu tanto como aquele diagnóstico: esclerodermia, de forma difusa, com poucas chances de cura. Uma doença autoimune que ataca a pele e outros tecidos. Eu podia ter só seis meses de vida. Foi uma sentença que dividiu minha vida em antes e depois. E foi ali, naquele consultório onde tantas vezes eu havia sentado do outro lado da cadeira, que entendi o que nenhum livro me ensinou: não existe caminho mais difícil do que o não caminhar, e nenhum passo mais firme do que aquele dado com a certeza de que vai dar certo. Ficar parada no medo era a única derrota certa. Então escolhi caminhar. Caminhar com a gestação. Caminhar frente à doença. Não por coragem, mas por certeza. Alguém dentro de mim sabia que ainda não era a hora de ir embora.
Depois descobri que o tratamento não seria uma guerra. Seria uma ponte. A ponte entre a medicina que me segurava pela mão e aquilo que nenhum medicamento faz: o corpo finalmente escutado, o sono que eu negava, o silêncio que aprendi a habitar, a fé que se ajoelhou comigo sem me pedir explicação. Foi assim que nasceu uma nova forma de me cuidar e que hoje divido com as pacientes. Quatro pilares que me devolveram ao meu corpo, não como batalha, mas como reencontro. É o que chamo de SEEI, as iniciais de sono, estresse, exercício e intestino. É preciso dormir bem, gerenciar a tensão, se movimentar e olhar para a dieta e a digestão.
Continua após a publicidade
Em uma manhã, numa caminhada com meu pai, milhares de borboletas apareceram em nosso caminho, nos acompanharam como uma bênção que a gente não pede porque não sabe que precisa. Não sei explicar. Só sei que ali deixei de pedir a cura e passei a agradecer o acolhimento. Era como se a vida dissesse: “Fica, ainda há tanto a fazer com teus filhos”. Chamei de milagre, não aquele que muitos pacientes esperam, mas o de acreditar e continuar, mesmo sem garantias.
Hoje, oito anos depois, estou em remissão da doença, sem precisar usar remédios imunossupressores. Não é milagre nem sorte: é método, escuta e fé, costurados um dia de cada vez. Ainda danço, ainda atendo, mas agora escuto ainda mais meu corpo e cada paciente que se senta diante de mim. Decidi escrever um livro, Na Própria Pele (Editora Labrador), para quem um dia se sentiu estrangeiro no seu corpo. Como eu. Porque a doença tentou me tirar quase tudo, mas, ao mesmo tempo, me devolveu o que mais importa: a vida vista de perto, com a convicção de que caminhar, mesmo sem certezas, já é um milagre.
Continua após a publicidade
Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2026, edição nº 3020