Uma nova revisão de estudos publicada recentemente na revista científica Nutrition Journal analisa o papel da vitamina B12 na saúde do coração.
Tabagismo, obesidade, diabetes e hipertensão são alguns dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares. Mas estudos recentes indicam que o coração também pode ser ameaçado pela deficiência de minerais e vitaminas, como o folato, a vitamina B6 e a vitamina B12.
O motivo, segundo os pesquisadores, é que a B12 é essencial para a regulação dos níveis de um aminoácido chamado homocisteína. A deficiência da vitamina leva ao acúmulo dessa substância no organismo, causando danos nos vasos sanguíneos.
Afirmar que a suplementação com vitamina B12 ajuda a prevenir doenças cardíacas, porém, ainda não é unanimidade no meio científico, e o tema é considerado “altamente controverso“, aponta a revisão.
Entenda
De acordo com os autores, estudos observacionais encontraram uma associação entre baixos níveis da vitamina B12 e o aumento do risco de aterosclerose (acúmulo de placas de gordura), acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e arritmias.
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Esse tipo de estudo, da categoria observacional, estabelece apenas uma associação entre os fatores, mas não prova uma relação de causa e efeito.
Já os ensaios clínicos randomizados, que são considerados o padrão-ouro na pesquisa científica, indicam que a vitamina B12 reduz de forma consistente as concentrações de homocisteína, mas, em geral, não demonstram reduções robustas na ocorrência de eventos cardiovasculares.
Os pesquisadores afirmam que essa discrepância continua sendo uma importante questão de debate científico, o que levou o grupo a analisar diferentes tipos de evidências sobre o tema, incluindo estudos experimentais, coortes observacionais e ensaios clínicos randomizados.
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A vitamina B12 (cobalamina) é um nutriente essencial encontrado principalmente em alimentos de origem animal (Reprodução/Getty Images)
O que diz a revisão
Segundo a revisão, diversos estudos sugerem que níveis adequados de vitamina B12 podem exercer um efeito protetor sobre o coração.
Um grande estudo prospectivo envolvendo mais de 43 mil homens, por exemplo, identificou que maiores ingestões de folato e vitamina B12 estavam associadas, respectivamente, a riscos 29% e 27% menores de AVC isquêmico.
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Curiosamente, porém, em um ensaio que envolveu 3.749 pacientes que haviam sofrido recentemente um infarto do miocárdio, a redução dos níveis de homocisteína por meio da administração de ácido fólico, vitamina B12 e/ou vitamina B6 não diminuiu o risco de eventos cardiovasculares recorrentes.
“Embora a combinação de ácido fólico e vitamina B12 tenha reduzido a homocisteína em 27%, não houve impacto significativo nos desfechos clínicos”, diz a revisão. Além disso, o uso combinado das três vitaminas do complexo B chegou a sugerir um possível efeito prejudicial.
Ou seja, explicam os pesquisadores, um aumento no nível de homocisteína no sangue não necessariamente resulta em uma redução das taxas de infarto.
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Portanto, afirmam, as evidências atuais mostram uma associação significativa entre os níveis de vitamina B12 e a saúde cardiovascular, mas não apoiam a suplementação universal como estratégia para reduzir o risco de doenças no coração.
Vitamina B12 pode reduzir risco de segundo AVC
Por outro lado, a revisão aponta que a redução dos níveis de homocisteína parece ter “um efeito mais pronunciado” sobre o risco de AVC em comparação ao infarto do miocárdio.
Essa diferença, segundo os pesquisadores, pode ser explicada pelo fato de que os vasos cerebrais seriam mais sensíveis aos níveis elevados dessa substância do que o coração.
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A suplementação pode ter maiores benefícios para alguns grupos específicos. O documento aponta que, entre pessoas que já sofreram um AVC, a terapia combinada com vitamina B12 reduziu em aproximadamente 13% o risco de recorrência do evento e em 11% a ocorrência de eventos vasculares em geral, sem alterar as taxas de infarto.
Revisão de estudos sugere que suplementação de vitamina B12 pode ser estratégia eficaz para reduzir risco de segundo AVC ()
“Esses achados não devem ser interpretados como uma recomendação para a suplementação rotineira da população em geral”, alertam os autores.
Eles explicam que os benefícios observados com a terapia combinada de vitaminas do complexo B em doses moderadas parecem estar concentrados principalmente em pessoas com deficiência comprovada de vitamina B12, concentrações elevadas de homocisteína, histórico de doenças cerebrovasculares ou que vivem em regiões sem fortificação obrigatória de alimentos com ácido fólico.
Quem deve suplementar?
Embora os estudos tenham apresentado resultados divergentes, os pesquisadores afirmam que prevenir e corrigir a deficiência de vitamina B12 continua sendo clinicamente importante para a saúde vascular.
Não existe uma diretriz universal que estabeleça a obrigatoriedade do rastreamento de vitamina B12 em toda a população com o objetivo de prevenir doenças cardiovasculares.
A investigação, na verdade, é focada em grupos que apresentam fatores de risco ou sintomas de deficiência. Algumas populações particularmente vulneráveis à deficiência dessa vitamina são:
Idosos;
Vegetarianos e veganos;
Indivíduos com doença renal crônica;
Mulheres grávidas;
Pessoas que fizeram bariátrica.
A revisão reforça que as evidências atuais não sustentam a suplementação rotineira em altas doses exclusivamente com o objetivo de reduzir o risco cardiovascular.
“Em populações bem nutridas e residentes em regiões onde os alimentos são fortificados com folato, o benefício cardiovascular adicional é insignificante”, afirma.
Nos grupos em que a suplementação é recomendada, o manejo eficaz da deficiência de vitamina B12 “vai além da simples reposição da vitamina“, acrescentam os pesquisadores.
“Ele exige diagnóstico preciso, estratégias individualizadas de suplementação e compreensão das situações em que a terapia combinada com vitaminas do complexo B ou intervenções mais amplas no estilo de vida são apropriadas”, concluem.