A dama do teatro!

56TEXTO DE REGINA NAETEÉ uma figura incontornável quando se fala do teatro moçambicano. Durante os seus primeiros passos no mundo artístico, doou-se de corpo e alma para defender a identidade cultural do seu país. Hoje, aos 81 anos, Manuela Soeiro continua apologista de um teatro enraizado na história e nas vivências do povo.Co-fundadora do grupo teatral Mutumbela Gogo, construiu um percurso marcado pela resistência à reprodução de modelos estrangeiros, pela valorização das histórias moçambicanas e pela formação de actores locais. Semana passada, foi alvo de uma homenagem pela Universidade Eduardo Mondlane, através da Escola de Comunicação e Artes.Em entrevista ao domingo, recorda as origens da sua paixão pelo palco, os obstáculos enfrentados na afirmação de um teatro nacional e a importância de preservar a memória cultural do país.Como é que surgiu a paixão pelo teatro? Bem, o meu pai era de Cabo Delgado. Nasceu na Ilha do Ibo. E aprendeu rápido a ver que estava a ser explorado. Ele era carpinteiro e não falava com o administrador ou com o conselho municipal em português. Falava em Quimuane, Swahili, Macua e Maconde. Então, tinha de ter sempre um intérprete, embora soubesse falar, pois era o melhor aluno em português, fazia poemas e escrevia histórias. E ele fazia muito teatro. Não tinha medo. Com isso, quero dizer que essa atitude de revolta já vinha do meu pai.Para mim, ele era uma referência. Então, vem daí toda essa minha inspiração.E depois, com que idade a Manuela decide entrar para o teatro?O meu pai morre, quando eu tinha cinco anos. O que levou com que fosse ao colégio de orfãos em Namaacha. E lá, começámos a fazer teatro. Fazíamos entre meninas, porque havia dois colégios. Era de cunho religioso. Nós, as meninas, fazíamos teatro em que só entravam meninas. Então, eu tinha exigências muito variadas. E sempre queria fazer alguma coisa. E na altura dos portugueses, eu via o teatro e não me identificava de forma nenhuma, porque as histórias contadas não tinham a ver com a minha infância, com a minha vida. Eu era contra. Nisso, eu e o João Manja pertencíamos a um grupo que se tinha formado com um brasileiro, mas depois decidimos abandonar o grupo. Abandonámos, porque eu não aceitava, porque os temas não tinham nada a ver com a minha vivência.Eu tinha outras vivências moçambicanas. Eu não queria deixar de ter isso. Até hoje tenho.Que desafios enfrentou nos primeiros anos da sua carreira, numa altura em que o teatro procurava afirmar-se como uma forma de expressão artística e cultural no país? O primeiro grupo que apareceu nesse tempo era um grupo que o director era oriundo de Portugal, o Machado da Graça. E as peças dele tinham uma coisa… Então, eu saí imediatamente, porque aquelas histórias não me diziam nada. Eu achava que nós tínhamos as nossas histórias. Conheci o José Craveirinha, na altura. Quando saí do colégio e depois o Rui Nogar que um dia viu um trabalho que eu fiz e disse-me: Ai, Manuela, eu tenho um poema que vale a pena tu fazeres, porque tem a ver connosco.A Noémia de Sousa também, porque ela fazia poesia e escrevia contos. E eu fiquei deslumbrada. Eu disse, é isto. Quer dizer, eu descobri que, afinal, nós temos escritores. O Luís Bernardo Honwana, por exemplo…Defender essa visão trouxe dificuldades?Muitas, mas eu percebi isso muito cedo. Tanto que me chamavam de racista, porque eu rejeitei os filhos daqueles que ficaram cá. Eu tive problemas mesmo, porque eu era racista. Era assim que me diziam. E eu dizia, não posso. Não posso fazer uma crítica social, porque eu dizia não entro nisso. Eu e o João Manja saímos mesmo. Leia mais…

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