Precisamos formar médicos para uma medicina que está sendo construída

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A medicina vive uma revolução impulsionada pela IA e novas tecnologias. Escolas médicas, no Brasil e no mundo, correm para atualizar seus currículos, visando formar profissionais que saibam usar essas ferramentas com pensamento crítico. O texto ressalta que o julgamento clínico e a relação humana com o paciente são insubstituíveis.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Quem começa hoje uma faculdade de Medicina provavelmente exercerá a profissão em um ambiente muito diferente daquele em que me formei, na década de 80, e até mesmo daquele que muitos de seus professores encontraram no início da carreira. Inteligência artificial, genética, análise de grandes volumes de dados e novas tecnologias diagnósticas já estão transformando a maneira como identificamos doenças, avaliamos riscos e definimos tratamentos.
Essa transformação impõe uma questão importante às escolas médicas e a todos que participam da formação desses profissionais: como preparar os novos médicos para uma medicina que ainda está sendo construída?

No Brasil, essa discussão começa a ganhar espaço na própria graduação. As novas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Medicina, instituídas em 2025 pelo Conselho Nacional de Educação, incorporaram competências relacionadas às transformações tecnológicas. Pela primeira vez, ferramentas como inteligência artificial, telemedicina, algoritmos de aprendizado de máquina, análise de dados em larga escala e redes neurais artificiais aparecem de forma explícita entre os conhecimentos que devem integrar a formação médica.

Algumas universidades brasileiras já começam a levar esse tema para os cursos de Medicina. A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) oferece a disciplina Inteligência Artificial na Prática Clínica, enquanto a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) inclui Inteligência Artificial Aplicada à Saúde, com conteúdos relacionados a diagnóstico, prognóstico e análise de dados.

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Esse movimento está mais avançado em outros países. Nos Estados Unidos e no Canadá, levantamento da Association of American Medical Colleges (AAMC) mostrou que 77% das escolas médicas pesquisadas haviam incorporado conteúdos de inteligência artificial aos currículos em 2024, ante 53% no ano anterior. A rapidez dessa mudança mostra que preparar o futuro médico para trabalhar com essas ferramentas deixou de ser uma discussão distante e passou a fazer parte da educação médica.
A atualização dos currículos é um passo importante, mas o desafio vai além de acompanhar as inovações que surgem a cada ano. As escolas médicas precisam preparar profissionais para uma realidade em permanente transformação, ensinando-os a compreender essas ferramentas, avaliar seus resultados e incorporá-las à prática sem delegar a elas decisões que dependem de julgamento clínico.

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Tenho acompanhado essa transformação com uma convicção cada vez mais clara: o pensamento crítico é fundamental na era da inteligência artificial. Uma resposta bem escrita e apresentada com segurança pode parecer correta mesmo quando contém erros. O médico precisa ter conhecimento para questioná-la, confrontá-la com as evidências e avaliar se faz sentido para o paciente que está à sua frente.
Ao contrário do que alguns afirmam, não acredito que a inteligência artificial diminuirá a necessidade de estudar ou de se preparar. Entendo que acontecerá justamente o oposto: as pessoas precisarão se preparar ainda mais. Na medicina, isso significa aprofundar o conhecimento científico, fortalecer o raciocínio clínico e aprender a avaliar os limites das ferramentas utilizadas. Ter acesso a uma resposta não equivale a compreendê-la, e muito menos a saber quando ela deve orientar uma decisão.

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Essa exigência precisa orientar o modo como ensinamos inteligência artificial. O estudante deve aprender a utilizar uma ferramenta e também a verificar suas fontes, reconhecer incertezas, identificar possíveis vieses e perceber quando uma recomendação não corresponde ao contexto clínico. A formação deve ensinar a formular boas perguntas e a sustentar uma decisão com argumentos e evidências. A tecnologia pode apoiar esse processo; a responsabilidade pelo cuidado continua sendo do médico.
O pensamento crítico se desenvolve com estudo, discussão de casos, contato com pacientes e professores que estimulem o aluno a explicar por que chegou a determinada conclusão. Se a ferramenta entrega uma resposta pronta e o estudante apenas a reproduz, perde-se uma oportunidade de aprendizagem. Cabe às escolas médicas incorporar a inteligência artificial de modo que ela amplie a capacidade de aprender, sem dispensar o esforço de compreender.

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Há ainda uma dimensão que nenhum avanço tecnológico deve nos fazer perder de vista: a relação com o paciente. Sistemas podem organizar dados, sugerir hipóteses diagnósticas e tornar uma consulta mais eficiente. A escuta de alguém que está com medo, a percepção de algo que não aparece no prontuário e a sensibilidade para explicar um diagnóstico difícil continuam exigindo presença, comunicação e vínculo humano.
Por isso, formar médicos para as próximas décadas exige combinar o domínio das novas tecnologias com uma base científica sólida e uma formação humana consistente. Não sabemos exatamente quais recursos estarão disponíveis nos consultórios, laboratórios e hospitais daqui a dez ou vinte anos. Sabemos, porém, que seu uso responsável dependerá de profissionais capazes de compreender, questionar e decidir. Quanto mais a inteligência artificial avançar, maior será a importância de formar pessoas bem-preparadas, com pensamento crítico e consciência da responsabilidade que assumem ao cuidar de outra vida.

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