Exposição de Cézanne em Paris mostra como o pintor influenciou gerações

Ler Resumo

Cézanne, um gênio incompreendido em vida, revolucionou a arte ao lançar as bases do modernismo, influenciando grandes nomes como Picasso. Uma nova exposição em Paris, “Cézanne e Nós”, celebra seu legado, reunindo 174 obras que demonstram sua influência duradoura em diversas correntes artísticas, consolidando-o como o pai de todos na arte moderna.

Este resumo foi útil?

👍👎

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Muitos gênios que deixaram marca indelével na história da arte não foram compreendidos em vida por se descolarem do solo conhecido, espantando olhares despreparados para as extraordinárias inovações que ofereciam. O francês Paul Cézanne (1839-1906) faz parte do pelotão sem reconhecimento de público e crítica por quase toda uma trajetória em que pavimentaria o terreno para a arte moderna. Filho de banqueiro, não encarou a dureza de tantos de seu meio à época, mas bateu de frente com o patriarca ao abandonar o curso de direito em Aix-­en-Provence, a cidade ao sul à qual imprimiu inconfundível colorido, para tentar a sorte como artista. Aos 22 anos, estudava desenho escondido, até partir com mala e pincéis para Paris, onde acabou recusado pela prestigiada Escola de Belas Artes. O plano B era a Academia Suíça, escala que lhe proporcionou um fundamental encontro com os impressionistas Claude Monet e Pierre-Auguste Renoir, cujo estilo o influenciou de modo decisivo nos primeiros tempos e do qual depois se despregou para dar uma virada de página que chacoalhou pilares já bem estabelecidos.
Nada foi linear na jornada do artista que, do período romântico tomado por uma dramática paleta, saltou para as pinceladas soltas ao modo de Monet. Até que veio uma inquietação. “O que eu queria era fazer do impressionismo algo sólido e duradouro, como a arte de um museu”, chegou a dizer ao amigo e pintor Maurice Denis, que o visitava em Aix. E pôs o plano adiante. “Ele sentia que as formas estavam sendo diluídas demais pelo movimento e aí criou uma linguagem própria”, diz Ana Cavalcanti, professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao se afastar dos antecessores, concentrados no efêmero e nos jogos de luz, passou a investigar a estrutura e o volume por trás dos objetos. Aderiu então a traços inacabados e justapostos, brincando com os múltiplos pontos de vista de itens triviais do cotidiano, como suas famosas maçãs. Plantou assim a semente do cubismo de Georges Braque e Pablo Picasso, que sobre Cézanne disse: “É o pai de todos nós”.

JUSTIÇA - O francês em seu ateliê: o reconhecimento depois da morte (Heritage Images/Getty Images)

A extraordinária herança do precursor das vanguardas europeias é o tema da recém-inaugurada mostra Cézanne e Nós, abrigada sob a renovada cúpula do Grand Palais. A visita promove um passeio por 174 obras do próprio mestre e de outros pintores que beberam em diferentes doses de sua fonte — resultado de uma garimpagem pelos mais renomados museus franceses e coleções particulares em todo o mundo. “Vários bons artistas foram influenciados por ele, embora pertencessem a correntes distintas, às vezes até opostas, o que faz de Cézanne um fenômeno raro no universo das artes”, afirmou a VEJA Michel Gauthier, curador da exibição. O percurso acompanha a transformação do jovem que batalhava por espaço, em uma paisagem pouco afeita ao que propunha, em uma referência para pesos-pesados da cena moderna e contemporânea, de Paul Gauguin a Andy Warhol. No final dos anos 1970, o ícone da pop art fez alusão às maçãs do francês, que de sua prancheta saíram mais achatadas e vibrantes.

Continua após a publicidade

A ideia da exposição é encontrar uma pitada de Cézanne em cada obra das dezesseis seções, distribuídas por dois andares, que mesclam retratos, paisagens, nus e naturezas-mortas de movimentos diversos, do fauvismo de Henri Matisse, que pintou O Banhista (1909), um tema caro ao antecessor, aos cubistas. Em Paisagem com Duas Figuras (1908), Picasso dialoga com Rochedos e Galhos em Bibémus (1895-1904), de Cézanne, fazendo uso de uma estrutura baseada em planos de cor e recortada em blocos geométricos. Nem sempre a comparação entre telas, porém, é tão óbvia, exigindo do espectador pousar uma lupa sobre os detalhes. Ao fim, com as telas lado a lado, dá para ter a dimensão de quão relevante o protagonista da mostra foi para os que lhe sucederam, tanto nos assuntos que abordava como em sua visão de cor e espaço.“Embora as instituições tenham custado a valorizá-lo, esses artistas já sabiam que Cézanne era genial”, diz Gauthier.

RELEITURA - O Banhista, de Matisse, de 1909: diálogo com o antecessor (MARC DIMOV/Patrick McMullan/Getty Images)

Continua após a publicidade

A exibição enfatiza o quanto um mestre de sua grandeza pode impulsionar a arte e fazê-la evoluir por novas e imprevisíveis rotas. Muito antes dele, Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos maiores nomes do Renascimento, junto de Michelangelo e Rafael, deu sua contribuição ao deixar estudos da anatomia e da luz que se disseminaram por outros ateliês, sacudindo a percepção sobre a figura humana. Na vez dos impressionistas, eles se miraram no romântico Eugène Delacroix (1798-1863), que se desprendeu dos contornos rígidos, desafiando o establishment com muito movimento e cor. Apesar da estatura já vastamente reconhecida, a virada de chave para Cézanne veio mesmo só um ano após sua morte, em 1907, ao ser brindado com uma exposição no Salão de Outono de Paris. Com mais de cinquenta obras, a exibição recebeu artistas, colecionadores e críticos, como o influente americano Leo Stein, que ali declarou: “Até então, Cézanne só tinha sido importante para alguns; ele estava prestes a se tornar importante para todos”. O tempo provou o quão estava certo.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo