Muito além dos remédios: o que diz a mais recente diretriz para controle do diabetes tipo 2

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O diabetes tipo 2, que afeta mais de 15 milhões de brasileiros, exige uma nova abordagem no tratamento. A Sociedade Brasileira de Diabetes defende uma estratégia multifacetada, combinando medicamentos e mudanças de hábitos, para combater a doença e prevenir complicações. Entenda as novas diretrizes.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Não basta ter uma estrela. Se o time não contar com bons jogadores em outras posições, atuando de forma entrosada, dificilmente sairá vitorioso. O futebol serve de metáfora a inúmeras pautas do cotidiano, e uma delas, das mais vitais, é a nova concepção no tratamento dos problemas crônicos de saúde. É o caso, um tanto emblemático, do diabetes tipo 2, uma doença que afeta mais de 15 milhões de brasileiros, muitos deles com os níveis de glicose no sangue fora da meta.

ANTIGO E BARATO - Metformina: comprimido segue na base do tratamento medicamentoso (Karisssa/Getty Images)

Não há bala de prata nem bola de ouro para derrotar a condição, associada tanto ao ganho de peso como ao envelhecimento. A ciência, na posição de técnica de médicos e pacientes, endossa uma estratégia mais ampla e sinérgica: combinar medicamentos para agir em diversas áreas do campo, sem se esquecer das mudanças de hábito que asseguram o ritmo que a partida exige. Essa é a linha defendida pela mais recente diretriz de manejo da doença publicada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), documento que promove as táticas mais modernas para domar a glicemia e evitar outros percalços pelo organismo.
O desafio para conter o diabetes tipo 2 é, de fato, descomunal. O Brasil já ocupa a sexta posição no ranking de nações com maior número de casos da enfermidade, cujo diagnóstico é apontado por exames de sangue como a dosagem da glicemia em jejum. A projeção é de que esse índice cresça a ponto de termos, em 2050, mais de 24 milhões de cidadãos nesse barco. A dificuldade começa, na verdade, com a detecção do quadro: estima-se que um terço dos brasileiros nem sequer sabem que convivem com essa condição. O avanço nos números acompanha a escalada da obesidade e seu combo de mazelas mundo afora. Um jogo duro que mobiliza entidades médicas, profissionais de saúde e indústrias farmacêuticas a buscar o diagnóstico mais cedo e reagir antes de complicações e sequelas aparecerem, derrubando a qualidade de vida — e aqui falamos de um triste elenco que vai de infarto e derrame a cegueira e amputação.

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É com esse panorama em mãos, somado aos inegáveis e bem-vindos avanços no tratamento, que a SBD elenca um plano de ação frente ao diabetes tipo 2. Ou melhor, planos de ação, no plural. A ideia é deixar de lado o conceito de que a doença tem um alvo único e agregar medicações e outras medidas, inclusive levando em conta condições que costumam andar de mãos dadas com a glicose descontrolada, como problemas no coração, nos rins ou no fígado. Nos bastidores do consenso médico nacional há uma mudança de visão que passa a encarar o paciente inclusive de uma forma mais global. “Até um tempo atrás, o tratamento era focado no controle da glicemia, mas hoje temos um novo entendimento da doença e de sua relação com o peso e o risco cardíaco e renal”, diz o endocrinologista Marcello Bertoluci, coordenador do Comitê Permanente de Diretrizes da SBD.
O curioso é que a nova bússola para o tratamento do diabetes tipo 2 não se contenta com a estrela farmacológica destes tempos, as canetas de GLP-1. Sim, elas têm um relevante papel a cumprir, mas outros remédios, alguns deles mais antigos e baratos, também podem jogar bonito. Tanto é que, assim que é feito o diagnóstico, a primeira orientação costuma ser começar a se exercitar e mudar a alimentação, além da prescrição de um velho comprimido, com quase setenta anos de estrada nos consultórios, a metformina. “Ela é o melhor regulador de glicose, causa poucos sintomas, é acessível e fácil de tomar”, diz Bertoluci. Não é exagero partir de cara para uma medicação. “Precisamos baixar a glicose no primeiro ano de diagnóstico, porque isso será fundamental para o que vai acontecer uma década depois”, justifica o endocrinologista.

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A metformina pisa em campo para mitigar um dos fenômenos que está na raiz do diabetes tipo 2: a resistência à insulina, o hormônio que permite ao açúcar das refeições entrar nas células e virar energia para o corpo. Mas ela age em uma das vias dessa história — bastante complexa, diga-se. Existem outras, que são alvo de diferentes classes de drogas, com suas indicações e contraindicações precisas. É para botar ordem nesse time, aliás, que a diretriz brasileira aponta as melhores combinações terapêuticas, que também devem levar em consideração outras condições ou fatores de risco que o indivíduo carrega. Um dos melhores exemplos é o excesso de peso, bastante prevalente nessa população. Se ele não for abordado em conjunto, pode sabotar a própria glicemia e outras questões de saúde.
Hoje, felizmente, os médicos dispõem de tratamentos que baixam o açúcar no sangue e também o número na balança. É o caso, claro, das famosas canetas de semaglutida (Ozempic e afins) e tirzepatida (Mounjaro), que podem fazer tabela na prescrição, mirando não só o diabetes como também o sobrepeso ou a obesidade. Seguindo lógica semelhante, quando o paciente tem gordura e inflamação no fígado e a glicemia lá no alto, também é candidato a doses de semaglutida.

SUOR - Exercício físico: sempre imprescindível, junto a cuidados diários com a alimentação (luoman/Getty Images)

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Mas o manejo do diabetes tipo 2 não pode perder de vista sobretudo as desordens cardíacas e renais. E, para tanto, existem alianças medicamentosas com segurança e eficácia comprovadas. Se o sujeito já tem algum comprometimento nos rins e maior risco cardiovascular, por exemplo, a metformina pode ser conjugada a drogas que aumentam a eliminação de açúcar pela urina — e até uma caneta ou comprimido de GLP-1 pode engrossar o contra-ataque. “O documento organiza o tratamento em combinações duplas, triplas e até quádruplas, a depender da necessidade do paciente”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da USP de Ribeirão Preto. A sacada de mestre, portanto, é somar para atuar em diversas vias descompensadas e prevenir eventuais fragilidades — um percurso que, a depender do estado do pâncreas, nossa fábrica de insulina, pode exigir aplicações do hormônio sintético em algum momento. Em resumo, o lema é personalizar e atualizar o tratamento. “Afinal, não tratamos populações, mas indivíduos”, enfatiza Bertoluci.
Apesar do enfoque nos remédios, comprimidos e injeções não prosperam se outras mudanças não forem convocadas. E aí é preciso ressaltar o papel decisivo da atividade física e da alimentação. Do lado do treino, a orientação é intercalar modalidades aeróbicas, que queimam calorias e conferem condicionamento cardiorrespiratório, com exercícios de resistência e força muscular. “Eles melhoram a sensibilidade das células à insulina, um benefício que pode se estender até 48 horas depois do treino”, diz o educador físico Diego Leite de Barros, especialista em fisiologia do exercício pela Unifesp.

LUGAR DE DESTAQUE - Canetas: elas ajudam a controlar a glicemia e o peso (Tatsiana Volkava/Getty Images)

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À mesa, é preciso se libertar de mitos persistentes. O principal é o de que carboidratos são proibidos. “Isso não é verdade, mas é importante olhar para a quantidade e a qualidade desses nutrientes, priorizando sempre as fontes de fibras, que ajudam a reduzir o impacto glicêmico”, afirma a nutricionista Maristela Strufaldi, da SBD. A especialista destaca que não existe uma dieta específica para quem tem diabetes. “O que recomendamos é um padrão alimentar mais natural, com menos itens processados, e boa oferta de verduras, leguminosas e cereais integrais.” Realmente, é uma ilusão buscar uma estrela no prato ou na farmácia. Porque o sucesso depende da atuação e do entrosamento de todo o conjunto.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013

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