Essa brilhante trama do cinema que envolve a corrupção do judiciário, seus jogos de interesse e a influência do dinheiro no sujo sistema do poder são os pontos centrais do cenário brasileiro. Talvez seja uma boa hora para falarmos sobre esse tema.
Hoje, estou aqui para homenagear os bons e promover o “impeachment” dos maus profissionais que tentam se aventurar na fantástica especialidade médica chamada endocrinologia, que essa semana teve seu dia. Como sabem, sou cirurgião e pesquisador em obesidade e diabetes, mas há mais de 25 anos estou envolvido diretamente com os endocrinologistas, que muito me ensinaram.
Quando buscamos o julgamento de um médico que se intitula parte desse “tribunal-especialidade”, imaginamos que teremos um processo de avaliação acima de qualquer suspeita e com a lisura que um bom juiz da medicina pode realizar.
Sabemos que existem brechas na lei e o médico formado pode exercer qualquer área da medicina, mas não pode se intitular com a especialidade de endocrinologista. As razões incluem viver em um país continental com comarcas em todas as cidades e não termos capacidade de formar o volume de especialistas necessários.
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Mas nos grandes centros, com seus grandes fóruns, ser julgado por aqueles que não passaram no concurso de magistrado/endocrinologista, data venia, não deveria constar nos autos. Outros profissionais de saúde avançam também nessa área, mas, nesse caso, de forma completamente ilegal.
Assim, como na película, o poder econômico acaba corrompendo “juízes-médicos” por acharem que podem julgar ou cuidar, mesmo que sabidamente o tema não corresponda às suas áreas. O advento das novas medicações para obesidade, bem como a busca incessante do público por processos de rejuvenescimento, tem levado a busca por qualquer tipo de “juiz-médico” para avaliação do processo.
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Nos corredores dos tribunais, nos jantares e congressos patrocinados pelas indústrias, os “juízes-médicos” acabam sendo seduzidos a conversar nos bastidores no sentido de alimentar o seu ego e seus bolsos. O sistema tem facilitado essa cena, pois o escolhido para ocupar a vaga do “Supremo Tribunal da Pseudomedicina” é aquele que aceita as regras do jogo e julga ou prescreve não de forma isenta, mas obedecendo seus padrinhos econômicos. E o “paciente-réu” passa a não ser o objeto mais importante do processo.
É fácil encontrar nas redes sociais, assim como em Brasília, a soberba de muitos médicos que se acham donos da verdade, esbravejam condutas como se fossem jurídicas e cientificamente comprovadas: tudo de forma teatral, para esconder o sórdido bastidor da corrupção dos acordos com indústrias, farmácias e enormes transgressões nos códigos de ética. Gestos e bocas, falas agressivas e convincentes na tribuna/congressos fazem parte desse teatro, mas, inevitavelmente, fatos e verdades vão, aos poucos, destruindo esse circo.
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O “senado dos endocrinologistas” deve ser respeitado. São anos de aprendizagem embasados nos mais rigorosos estudos científicos. Sabemos que são minoria, mas estão lutando incessantemente no sentido de protocolar o impeachment desses intitulados “juízes da endocrinologia”.