Canetas, hormônios e o desafio de separar ciência de oportunismo

Há momentos em que uma especialidade médica deixa de ocupar apenas o seu território e passa a ajudar a explicar o tempo em que vivemos. A Endocrinologia e Metabologia atravessa um desses momentos.
Obesidade, diabetes, doenças da tireoide, crescimento, saúde óssea, músculo, envelhecimento, menopausa, reprodução, risco cardiovascular e renal, fígado metabólico e tantas outras condições que acompanhamos diariamente deixaram de ser capítulos isolados da medicina. Tornaram-se parte de uma mesma conversa sobre saúde, longevidade, qualidade de vida e sobre como queremos envelhecer.

A ciência também nos colocou diante de possibilidades extraordinárias. Novos medicamentos modificaram a história natural de doenças que antes tratávamos com resultados muito mais modestos. Hoje, conseguimos falar não apenas em glicose ou peso, mas em proteção cardiovascular, renal e metabólica. Nunca tivemos tantas ferramentas eficientes. E talvez nunca tenhamos precisado tanto discutir como utilizá-las. Porque toda grande inovação produz também a sua sombra e oportunismo.
Manifestações contínuas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabologia (ABESO), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Conselho Federal de Medicina (CFM), Ministério da Saúde e da própria imprensa, em especial a Revista VEJA, revelam o surgimento de um verdadeiro mercado paralelo construído ao redor daquilo que a Endocrinologia e Metabologia tornou desejável.

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Isso já aconteceu com os hormônios. A reposição de uma deficiência documentada foi sendo confundida com a ideia sedutora de “otimização”. Hormônios passaram a ser oferecidos para estética, performance, juventude ou disposição. Surgiram implantes, combinações e protocolos embalados por uma linguagem aparentemente científica, embora muitas vezes distantes da ciência que dizem representar. Agora observamos fenômeno semelhante com os medicamentos antiobesidade.
Mas seria igualmente equivocado construir uma Endocrinologia e Metabologia cuja principal mensagem fosse proibir. Nosso compromisso

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é muito mais sofisticado: proteger e permitir. Proteger a população da má prática, da pseudociência, do comércio travestido de medicina e de produtos cuja procedência não oferece as garantias necessárias. E, simultaneamente, trabalhar para permitir que a inovação verdadeira chegue a quem precisa dela, em especial para quem não pode pagar por isso.
Porque existe uma injustiça silenciosa no outro extremo dessa discussão. De pouco adianta celebrarmos medicamentos capazes de transformar o tratamento da obesidade, do diabetes e de suas complicações se grande parte da população brasileira puder apenas assistir a essa revolução pelatelevisão e redes sociais. Segurança sem acesso é insuficiente. Acesso sem segurança é irresponsável.

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Entre esses dois extremos existe um território que deve ser ocupado pela ciência. E é precisamente aí que uma sociedade científica como a SBEM está. Não apenas organizamos congressos e produzimos educação médica, funções essenciais que construíram sua história, mas participando do debate público, dialogando com Anvisa, Ministério da Saúde, entidades médicas, universidades, legisladores, associações de pacientes e imprensa. Antecipando problemas, produzindo posicionamentos, combatendo desinformação e contribuindo para políticas públicas que aproximem a boa medicina das pessoas.
Isso exige também compreender que a comunicação científica deixou de ser acessória. Hoje, uma informação falsa pode atravessar o país antes que um artigo científico termine de ser lido. Se a ciência não ocupa esse espaço, alguém o ocupará em seu lugar. Avançamos para um modelo permanente de vigilância da desinformação em Endocrinologia e Metabologia: acompanhamos tendências, identificamos precocemente práticas de risco, respondemos com agilidade e oferecemos à sociedade uma referência reconhecível e confiável.

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Estamos onde a ciência é produzida, onde a medicina é praticada, onde as políticas públicas são decididas e onde a informação circula. Esse protagonismo não nasce da pretensão de sermos donos da verdade. Nasce exatamente do contrário: do compromisso de submeter nossas próprias convicções ao método científico e de modificá-las quando melhores evidências surgirem.
A Endocrinologia e Metabologia vive talvez uma de suas épocas mais fascinantes. Quanto maior, porém, o poder de nossas ferramentas, maior será a responsabilidade sobre como elas chegarão às pessoas. Nosso papel não é apenas de escolher entre inovação e prudência, entre ciência e acesso, entre desenvolvimento tecnológico e humanismo. É de aproximá-los, porque o verdadeiro protagonismo de uma especialidade não se mede apenas pelas descobertas que ela celebra.

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Mede-se também pela capacidade de transformar essas descobertas em saúde, protegendo as pessoas dos falsos atalhos e trabalhando para que oscaminhos verdadeiros não sejam privilégio de poucos. Esse é o lugar que a Endocrinologia e Metabologia brasileira foi chamada a ocupar. Não apenas no centro da ciência, mas entre a ciência e a sociedade.
*Clayton Macedo é Presidente Eleito da SBEM para o biênio 2029-2030, doutor em Endocrinologia e especialista em Medicina do Exercício e do Esporte. Também coordena o Serviço de Endocrinologia do Exercício da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo.

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