À primeira vista, Maria Flor, 42 anos, parece serena nas suas respostas. Mas não se engane de imaginar que ela passa rente a suas certezas. Pelo contrário, é firme e não titubeia em adentrar no farto terreno das suas convicções expostas no programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku). Uma das atrizes reveladas pelo cinema e pela televisão brasileira nos anos 2000, ganhou projeção como Tina, no remake de Cabocla (2004). Mas foi como Aline na série homônima (2009–2011), que causou discussões ao viver um triângulo amoroso numa deliciosa comédia romântica. Agora, ela reveza com Maria Ribeiro a peça O Filho, no Teatro do Copacabana Palace, no Rio, sobre um adolescente de 16 anos que se sente perdido em um difícil processo de depressão. Filho de pais separados, ele deixa a casa da mãe para morar com o pai enquanto tenta reencontrar o sentido em sua vida. Assista ao bate-papo.
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DEPRESSÃO NOS PALCOS. “A gente vê muitos adolescentes em sofrimento, muito por causa das redes, essa relação com aquilo que você vê na rede social, que acha que precisa ser. A relação da sua autoimagem com aquilo que está vendo ali te impactando o tempo todo, de achar que precisa estar dentro desse padrão, talvez. Isso causa muito sofrimento na adolescência. Crescer, amadurecer, ter que enfrentar a vida. É muito difícil, eu acho, esse processo da adolescência toda. É uma peça que fala sobre uma família que tenta olhar e ajudar esse filho. Me toca muito, porque penso sobre as minhas questões. É uma peça que me emociona profundamente e que é um exercício de atriz bonito, muito sensível, delicado”.
CONTROLE DE ADOLESCENTES. “Eu acho que precisam ser monitorados. As crianças e adolescentes não têm as ferramentas para identificar aquilo que é razoável, aquilo que não é razoável, o que pode ver, o que não pode ver. Os pais têm que estar dentro disso, têm que saber o que eles estão vendo. E é uma coisa que me preocupa muito. Por exemplo, eu tenho um enteado de 12, vai fazer 13. Meu marido, Emanuel, e a mãe dele, Fernanda, prometeram que com 13 anos ele ganharia o celular. Você tem noção? Ele é o único da turma que não tem celular. Imagina o que é para ele não ter esse celular. Porque os amigos combinam tudo pelo WhatsApp, que é uma rede social. Ele fica quase isolado sem isso. É uma situação complicada. Você tem que dar, mas, ao mesmo tempo, tem que regular também”.
REGULAMENTAÇÃO DAS REDES. “Sou muito a favor da regulamentação das redes. A gente está descontrolado com o celular. Eu me sinto descontrolada. Gostaria que alguém me dissesse: ‘você não pode mais usar o celular’ ou ‘você não pode mais entrar no Instagram nessa hora da noite’. E eu sou uma mulher de 42 anos. Imagina um moleque de 16, que não tem condição de avaliar. Mas regulamentação, é claro, envolve as big techs, envolve muito dinheiro, envolve uma série de coisas. Muitos países estão caminhando para isso, uma hora vai chegar no Brasil. É uma discussão importante que a gente começa a ter”.
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PSICANALISTAS NO SOFÁ DE CASA. “Nunca tive depressão, é algo que precisa de ajuda médica. Para a peça, eu li muito a respeito, mas não estudei sobre isso. Tenho um marido psicanalista e uma sogra psicanalista. As conversas na minha casa passam por muitas coisas nesse sentido”.
SÉRIE ‘ALINE’. “Era muito legal. Ela era pouco preocupada com tudo isso que a gente está falando hoje, com a produção, com a entrega… Aline trabalhava numa loja de discos, era transgressora, não estava preocupada se ia namorar menino ou menina. Ela estava preocupada com o desejo dela, livre sexualmente. Ela tinha fantasias. E fazer para a TV aberta e mostrar aquilo para o mundo… os jovens, na época, gostavam muito. Porque, de algum jeito, já se identificavam com isso. Com uma certa liberdade que ela trazia. De você poder ser sincero com o seu desejo, com as suas escolhas”.
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MASCULINIDADE EM CRISE. “Eu acho que a humanidade está em crise, uma crise muito grande. É uma falta de entendimento dos nossos papéis e de como pode também rever esses papéis, tanto o masculino quanto o feminino. Tem gente propondo que se volte atrás e diga: ‘não, o lugar da mulher é em casa, cuidando dos filhos, o lugar do homem é sendo provedor e trabalhando’. Como é que a gente olha para isso e fala: ‘não, espera aí, isso é muito sério, é arriscado, a gente não pode voltar para esse lugar’. Mas é assustador que algumas pessoas estejam propondo isso como ideia de vida. É aprisionar tanto o homem quanto a mulher em lugares muito pouco curiosos em relação à vida. (…) É pequeno, é triste, emburrece como sociedade, como ser humano, como país”.
PAPÉIS EM CONFLITO. “O interessante é que a gente seja um monte de coisa, que seja múltiplo, que mulheres possam fazer a escolha, se elas quiserem, de ficar em casa cuidando dos filhos, se isso faz bem a elas; e homens possam ser os provedores, mas mulheres também possam ter filhos sozinhas, ou possam não ter filhos, ou possam gostar de outras mulheres, ou possam não querer casar nunca, e não querer fazer sexo, e homens possam gostar de homens, e gostar de mulheres trans, e gostar de jogar futebol ou não, e gostar de ser pai com outro homem, ou de ser pai solo, ou de não ser pai, ou de ser um cara que não transa, que gosta de ficar isolado num sítio”.
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SOBRE SER MULHER. “Deixo todos os dias de fazer alguma coisa, porque sou mulher. Seja andar na rua em alguma hora que não deveria, seja botar uma roupa porque vou pegar um Uber e tenho que me preocupar, sabe? Você está numa situação muito mais vulnerável mesmo. E eu sou uma mulher branca, privilegiada, que mora na Zona Sul do Rio, mas estou sempre atenta”.
CASTAS ESCRITAS COM O MARIDO. “Escrevi e lancei com o Emanuel O Amor Ainda Possível, foi difícil, mas foi bom, porque é um livro de cartas. A gente trocava cartas, botava na cabeceira do outro, aí o outro lia a carta, e tinha duas semanas para responder. A princípio, era só o Emanuel quem leria, a gente não pensou em transformar aquilo num livro. Foi acontecendo aos poucos esse processo. Ele é bem íntimo, é bem sincero. A gente estava numa crise muito grande, não estava conseguindo conversar, e resolveu trocar cartas. Foi ideia do Emanuel, para a gente tentar se ouvir, porque está tão difícil se ouvir, está tão difícil conversar nessa vida louca, que a gente não conseguia também, mesmo morando na mesma casa. A gente resolveu trocar as cartas, aí a crise piorou, e depois que a crise melhorou, a gente olhou e falou: ‘cara, talvez isso sirva para outras pessoas. Vamos transformar isso num livro’”.
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Captação de imagens e edição: Libário Nogueira / Agradecimento: Hotel Nacional e Elev Comunicação / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221).