Precisa suplementar iodo na gravidez? Quando fazer exame de TSH? O que diz nova recomendação brasileira

A tireoide, glândula em formato de borboleta localizada na parte anterior do pescoço, produz os hormônios T3 e T4, fundamentais para o desenvolvimento do cérebro do bebê. A deficiência desses hormônios durante a gestação está associada a um pior desempenho neurocognitivo da criança, além de aumentar o risco de complicações para a mãe, como abortamento espontâneo, pré-eclâmpsia e hipertensão gestacional.
Nos Estados Unidos, a dosagem do TSH, hormônio que estimula a tireoide a fabricar o T3 e o T4, não é recomendado de forma universal para todas as mulheres grávidas. A orientação é priorizar o exame para aquelas com maior risco de alterações na tireoide. Já no Brasil, a indicação é que todas as gestantes façam a testagem. O rastreamento seletivo pode deixar casos de fora, motivo pelo qual uma nova recomendação brasileira sobre hipotireoidismo na gestação decidiu manter a orientação do rastreamento precoce.

O posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), divulgado na última sexta-feira, 28, recomenda a todas as mulheres grávidas a realização do exame, sempre que houver condições financeiras e técnicas para isso.
“Essa é uma discussão antiga. Mas, aqui no Brasil, vamos manter a recomendação de que, havendo condições para isso, todas as gestantes façam a avaliação”, afirmou Maria Izabel Chiamolera, membro da SBEM, responsável pelo ambulatório de tireoide e gestação da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e integrante do grupo responsável pela atualização, em comunicado à imprensa.

As novas orientações foram elaboradas a partir das evidências reunidas pela Associação Americana da Tireoide (American Thyroid Association – ATA), na diretriz publicada em junho de 2026, mas algumas delas precisaram ser adaptadas à realidade brasileira, como é o caso da indicação do exame de dosagem de TSH.

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Um estudo realizado com gestantes no Rio de Janeiro citado na atualização brasileira mostrou que 41,2% das mulheres com hipotireoidismo subclínico não apresentavam os fatores que levariam à realização do exame em uma estratégia que considerasse apenas fatores de risco. O hipotireoidismo subclínico acontece quando o TSH está alto, mas o T4 livre permanece dentro da faixa normal.
Quando não houver condições para testar todas as gestantes, porém, a indicação é direcionar o rastreamento àquelas com maior risco, que são:

Mulheres com histórico de hipo ou hipertireoidismo;
Cirurgia ou tratamento prévio da tireoide;
Doenças autoimunes, como diabetes tipo 1;
Histórico familiar de doença tireoidiana;
Infertilidade;
Dois ou mais abortamentos;
Uso de medicamentos capazes de interferir no funcionamento da tireoide.

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Idade materna, obesidade e número de gestações, que faziam parte dos critérios anteriores, deixam de ser considerados fatores de risco para indicar o exame na atualização.
Quando repetir o exame de TSH?
Nos EUA, se uma mulher grávida tiver alterações discretas no TSH no começo da gravidez, a orientação é refazer o exame depois de uma a três semanas antes da decisão de tratar. O colegiado americano se baseia em estudos que mostram que parte dessas alterações pode desaparecer espontaneamente em uma segunda coleta.
No Brasil, porém, a nova atualização afirma que não é necessário repetir o teste para começar o tratamento. O motivo, segundo os autores do texto, é que muitas pacientes brasileiras começam o pré-natal já no final do primeiro trimestre ou até no segundo.

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Repetir o exame antes de decidir o tratamento, portanto, é visto como um desperdício da janela de tempo em que as evidências sugerem maior benefício com o início da terapia.
Indicação de tratamento hormonal
Outra mudança no posicionamento é a retirada da indicação do tratamento hormonal para gestantes que apresentam anticorpos contra a tireoide positivos, mas cuja glândula continua funcionando normalmente.

Como era (2022): se o nível do hormônio TSH estivesse entre 2,5 e 4,0 mUI/L e o anti-TPO, exame que identifica os anticorpos, fosse positivo, o tratamento poderia ser indicado mesmo que a paciente mantivesse níveis normais de T4;
Como ficou (com a nova recomendação): agora, nessa mesma situação, a orientação é não iniciar o tratamento com levotiroxina, versão sintética do hormônio tireoidiano.

A alteração, segundo a nova diretriz, se deu em função de estudos realizados nos últimos anos que mostraram que o tratamento preventivo não reduziu o risco de abortamento, parto prematuro ou outras complicações da gravidez.

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O anti-TPO positivo, no entanto, continua sendo considerado um marcador de maior risco para o desenvolvimento de hipotireoidismo ao longo da gestação, o que requer maior vigilância na função da tireoide, mas não uso preventivo do hormônio.
No caso das mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação continua sendo aumentar em cerca de 30% a dose habitual do hormônio assim que ela engravida.
“O novo guideline também reforça que não devemos tratar demais. O alvo do TSH deve ser entre 0,5 e 2,5 mUI/I, com cuidado maior principalmente nas mulheres que utilizam doses acima de 100 microgramas por dia ou já apresentam TSH mais baixo”, explica a endocrinologista Suemi Marui, membro da SBEM e uma das especialistas envolvidas na elaboração do novo posicionamento, em comunicado à imprensa.

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Hipotireoidismo subclínico
No caso do hipotireoidismo subclínico, situação em que o TSH fica elevado, mas o hormônio tireoidiano permanece normal, ficaram definidas as seguintes orientações:

Como era (2022): uma vez detectado o problema durante a gestação, o tratamento com a levotiroxina poderia ser considerado independentemente do tempo da gestação,
Como ficou (com a nova recomendação): Agora, essa possibilidade se concentra no primeiro trimestre.

Se o TSH estiver acima de 4,0 e até 10 mUI/L, e o T4 livre normal, o tratamento poderá ser considerado se a alteração for identificada até a 12ª semana de gestação.
Já no caso de o mesmo quadro aparecer apenas no segundo ou terceiro trimestre, a orientação passa a ser acompanhar a função tireoidiana, sem iniciar o tratamento com o hormônio.
Os especialistas alertam que, se o tratamento foi iniciado, deve ser mantido ao longo de toda a gestação. A mudança da nova recomendação diz respeito apenas à decisão de quando será iniciada a terapia.
Ingestão de iodo
O micronutriente essencial que a glândula tireoide usa para produzir os hormônios T3 e T4 é o iodo. A necessidade nutricional desse mineral aumenta durante a gravidez e também na amamentação. A nova atualização da Associação Americana da Tireoide incentiva, inclusive, garantir ingestão adequada por meio da suplementação já antes da concepção do bebê.
Mas, no Brasil, a atualização do posicionamento não recomenda essa prática. “O Brasil é considerado suficiente em iodo e adota há décadas a iodação obrigatória do sal. Por isso, para a maioria das gestantes, a orientação é garantir a ingestão adequada pela alimentação, e não acrescentar automaticamente um suplemento”, explica Marui.
A endocrinologista explica que a suplementação pode fazer sentido para mulheres que restringem fontes importantes de iodo na alimentação, como aquelas que seguem dietas veganas ou excluem leite e derivados. Vale lembrar que peixes, frutos do mar e ovos também estão entre asfontes do micronutriente. Além disso, o excesso de iodo também pode mal à tireoide do  bebê.
As novas evidências sobre diagnóstico, tratamento e cuidados com a função tireoidiana durante a gravidez foram apresentadas no 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia (CBEM 2026), que aconteceu de 26 a 29 de agosto, no Rio de Janeiro.

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