‘O cenário ainda é desalentador’, diz médico que escreveu a história da hipertensão no Brasil

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Em seu novo livro, o cardiologista Fernando Nobre mergulha na história da hipertensão, a “assassina silenciosa”, abordando seu impacto global e a notável contribuição brasileira para o desenvolvimento de medicamentos, como a pesquisa inspirada no veneno de jararaca. A obra destaca os desafios atuais e as perspectivas futuras no controle da doença.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

“No vasto tribunal do corpo humano, onde cada órgão cumpre diligentemente uma função, surge uma ameaça invisível, uma assassina silenciosa, astuta e impiedosa: a hipertensão arterial.” É assim que o cardiologista Fernando Nobre nos apresenta a ré do processo e protagonista de seu mais novo livro, Porque Tudo Muda – A História da Hipertensão. 
Assassina silenciosa. Foi esse o epíteto dado à pressão alta nos anos 1980 quando se bateu o martelo de que o problema, quase sempre assintomático, estava por trás de duas das maiores causas de morte na humanidade: o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC). Falamos de uma condição que, com ou sem conhecimento do portador, afeta ao menos 30% dos brasileiros.

E é a jornada pela compreensão dessa doença crônica e pela busca de um tratamento, com destaque para os principais atores de jaleco na pesquisa e na assistência que participaram dessa história, que Nobre oferece em sua mais recente incursão pelos anais da medicina.

É assim que tomamos conhecimento, por exemplo, de que um dos principais remédios utilizados para a hipertensão só existe graças a uma jararaca e dois médicos-cientistas que atuaram na USP de Ribeirão Preto. Foram eles que identificaram, por meio de uma substância presente no veneno da serpente, um dos processos-chave no controle da pressão arterial – o primeiro passo para que um dia se criasse um comprimido com essa finalidade.

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– (Foto: Editora/Reprodução)

Dos laboratórios aos consultórios, Nobre transita entre a ciência e a clínica, entre as descobertas dos primeiros experimentos com animais e a articulação de uma rede de centros e sociedades médicas dedicadas a cercar a hipertensão (e salvar os hipertensos) no Brasil.

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Um assunto que, evidentemente, não é página virada. Pelo contrário: permanece um dos maiores desafios de saúde pública dos nossos tempos.
Com a palavra, Fernando Nobre.

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Na história da hipertensão que o senhor apresenta, considera que houve uma descoberta que foi o grande ponto de virada para a compreensão e o tratamento da doença? Sim, na década de 1950, houve o início de um estudo sobre o impacto de fatores de risco para doenças cardiovasculares na comunidade de Framingham nos Estados Unidos. A partir do seguimento dessa população ao longo de anos ficou inequivocamente demonstrado que a hipertensão arterial está relacionada a AVC e Infarto. E, posteriormente, que seu tratamento e controle reduzem o risco imposto por ela.
Qual foi a maior contribuição da ciência brasileira para o controle da pressão alta? A descoberta, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, a partir de estudos dos farmacologistas Sérgio Henrique Ferreira e Maurício Rocha e Silva, de que é possível inibir a produção da angiotensina II, uma substância diretamente relacionada à elevação da pressão arterial, o que propiciou a criação de uma importante classe de medicamentos.

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Por falar nesses pesquisadores, com os quais o senhor conviveu, acredita que eles foram devidamente reconhecidos? Quando Sérgio Ferreira e Rocha e Silva publicaram os resultados de suas pesquisas na revista médica The Lancet, havia a clara percepção de que seriam naturais vencedores do Prêmio Nobel. Injustamente não tiveram o reconhecimento devido e merecido. E hoje os medicamentos inibidores da conversão da angiotensina são empregados em várias doenças além da própria hipertensão.
O Brasil tem hoje um papel relevante nas pesquisas sobre hipertensão? Temos serviços de pesquisas em hipertensão arterial em diversos locais do país. O Brasil participa de estudos com novas drogas em parceria com as mais destacadas universidades do mundo.

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Qual é o maior desafio no enfrentamento da doença na realidade brasileira atual? Embora já se saiba diagnosticar e tratar hipertensão arterial há anos, ainda temos um cenário desalentador. De cada 100 pessoas com hipertensão, somente 50 estão diagnosticadas. Destas, apenas a metade, ou seja, 25 estão em tratamento. E só metade desse percentual está com a pressão realmente controlada. Esse é o maior desafio para os órgãos governamentais, as sociedades médicas e a população.
Pensando no futuro, vislumbra alguma terapia em pesquisa ou desenvolvimento que possa revolucionar o controle da pressão? Já há estudos em andamento, inclusive com o Brasil participando, de medicamentos que poderão ser utilizados, por exemplo, a cada seis meses ou mais, o que poderá aumentar significativamente a adesão ao tratamento, o maior desafio diante da hipertensão arterial.

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