ECA digital acerta no diagnóstico, mas tropeça em ponto crucial
A entrada em vigor do chamado ECA Digital é, sem dúvida, um passo necessário — talvez tardio — diante de um ambiente digital que há anos deixou de ser neutro e passou a operar como arquitetura de captura de atenção, inclusive de crianças e adolescentes.
Ao reconhecer que o problema não é apenas o conteúdo, mas o design e os incentivos das plataformas, a lei acerta no diagnóstico.
Mas ainda tropeça em um ponto crucial: quando fala em proteção “compartilhada” com empresas e famílias, deixa pouco claro como isso se traduz na prática.
Na experiência clínica e cotidiana, sabemos que boa parte das ferramentas de controle parental é facilmente contornável por adolescentes e que responsabilizar pais por regular um ambiente tecnicamente assimétrico, desenhado por engenheiros e algoritmos e manejado com maior destreza pelos próprios filhos, não resolve, só desloca o problema.
E é importante deixar claro: a forma como essa responsabilização das empresas de tecnologia será implementada não é um detalhe operacional, mas o elemento central da eficácia da lei.
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Vamos lembrar dados biológicos que tornam essa discussão mais urgente. A partir dos 10 a 12 anos, o cérebro se torna particularmente sensível a recompensas — sobretudo sociais, como aprovação e pertencimento — ao mesmo tempo em que os sistemas de regulação emocional ainda estão em maturação. Isso cria uma assimetria: um cérebro altamente sensível a recompensas sociais — quando ser aceito vira quase sinônimo de existir —, mas ainda pouco equipado para lidar com o silêncio, a rejeição ou, talvez mais difícil, a indiferença.
Em plataformas onde a interação é quantificada em likes, views e comentários — permanentes, públicos e potencialmente massivos —, essa vulnerabilidade passa a ser explorável em escala (não é individual). Não surpreende que o uso precoce de redes esteja associado a maior risco de ansiedade, sintomas depressivos, sono reduzido, insatisfação corporal e exposição a assédio.
A analogia com o “mundo real” — a ideia de fazer valer no ambiente digital regras que já existem fora dele — ajuda a organizar o debate, mas pede alguma cautela. Mesmo onde há restrições formais, como no caso da publicidade de álcool e outros conteúdos potencialmente nocivos, sabemos que a exposição de jovens no mundo físico está longe de ser efetivamente controlada. O ambiente digital não apenas replica esse cenário, como o torna mais direcionado, contínuo e, muitas vezes, fora do campo de visão dos adultos. Ou seja, partimos de um modelo que já funciona de forma limitada e o transportamos para um contexto em que a capacidade de alcance e personalização é incomparavelmente maior.
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Isso não invalida a regulação — ao contrário, reforça sua necessidade. Mas exige que ela vá além da analogia e encare com vigor o funcionamento do próprio sistema que pretende regular. Porque, no fim, trata-se de intervir em um ecossistema cujo motor é justamente manter atenção, prolongar exposição e aumentar engajamento, inclusive entre os mais jovens.
Outro ponto ainda pouco enfrentado envolve os influenciadores mirins, que vivem numa zona meio ambígua entre proteção e exposição. Ao mesmo tempo em que precisam ser protegidos, também passam a funcionar como canais de publicidade — muitas vezes falando para públicos adultos e sendo expostos a eles.
Soma-se a isso um fator difícil de ignorar: a tentação do ganho financeiro, para eles e para suas famílias, que pode empurrar limites sem que isso fique muito claro. O resultado é um cenário que abre espaço tanto para exploração comercial quanto para riscos mais graves, incluindo abordagens inadequadas e de natureza sexual.
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Experiências internacionais mostram como esse equilíbrio é difícil de acertar. Na Austrália, por exemplo, propostas mais duras de restrição de acesso e verificação de idade avançaram, mas levantam questões práticas e preocupações com privacidade.
O mérito do ECA Digital está em trazer esse problema para o centro da conversa. Durante muito tempo, a sensação foi de que não havia muito a fazer diante desse cenário. Talvez o ponto mais interessante agora seja justamente este: começar a vislumbrar caminhos possíveis — desde que a responsabilidade não se dilua e acabe recaindo, mais uma vez, sobre quem tem menos poder de controle.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp e autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram










