Usei a ‘caneta emagrecedora’, perdi peso e quase todo o cabelo
A tirzepatida (Mounjaro), ativo das canetas contra obesidade mais usadas atualmente, tem relação direta com a queda anormal dos cabelos? O conceito de substâncias injetáveis para auxiliar na regulação metabólica da insulina, resultando na perda de peso, não é nada novo. As primeiras “canetas emagrecedoras”, como são popularmente chamadas, surgiram há mais de dez anos com o foco de auxiliar no tratamento do diabetes tipo 2, doença causada pela obesidade.
Muitos já sabem que a tirzepatida funciona como auxiliar dos hormônios GLP1 e GIP, produzidos no intestino delgado, cuja função é regular a taxa de açúcar no sangue, auxiliando na perda de peso. Ficou comprovado que os medicamentos, utilizados por via injetável na barriga, e liberados pela FDA em 2022, realmente funcionavam para perda de peso e controle do diabetes.
Com a disseminação de informações nem sempre confiáveis sobre a perda de peso rápida nas redes sociais, citando famosos ou pessoas públicas que utilizaram estes medicamentos, o uso com fins estéticos se disseminou em progressão geométrica entre o público consumidor, iludido com a falsa ideia do emagrecimento a curto prazo e sem sacrifícios.
Começaram a surgir os problemas de aspecto ético/legal: “canetas falsificadas”, Mounjaro do “Paraguai”, manipulação ilegal realizada por algumas farmácias, aplicações do medicamento sem origem comprovada, feitas em consultório, não médicos utilizando o medicamento, entre tantos outros.
Os efeitos colaterais indesejáveis e de risco, como lesões oftalmológicas, alterações pancreáticas e problemas psiquiátricos pela difusão do uso das “canetas” proliferaram. Isso por causa da automedicação e das prescrições por profissionais não habilitados.
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A queda dos cabelos veio juntamente com o emagrecimento rápido. Um trabalho de observação, realizado no Instituto do Cabelo, clínica médica especializada exclusivamente em recuperação capilar não invasiva, sob a minha coordenação, mostrou que os usuários apresentavam queda anormal intensa dos cabelos, e tinham deficiências nutricionais e vitamínicas específicas muito semelhantes.
Foram analisados 618 pacientes de diferentes gêneros, idades variadas e sem doença tricológica primária, usando as canetas antiobesidade há mais de oito meses.
É fundamental citar que a importante Universidade George Washington, nos Estados Unidos, chegou a resultados semelhantes ao acompanhar 550 mil pacientes. Eles reportavam queda abundante de cabelos e estavam utilizando a tirzepatida.
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Como tudo em medicina, a observação clínica é fundamental para o médico recomendar de forma segura qualquer medicação. Visando a integridade da saúde de seu paciente, é imperativo que o profissional médico acompanhe os resultados de protocolos clínicos de instituições confiáveis, trabalhos científicos de origem e metodologia confirmadas (não advindas de publicações do Instagram) e artigos acadêmicos publicados em periódicos fidedignos.
Diante desses estudos clínicos de observação citados, podemos chegar a conclusões importantíssimas para o acompanhamento médico tricológico dos pacientes com queda anormal dos cabelos fazendo o tratamento contra obesidade: a tirzepatida não é a responsável direta pela perda expressiva dos cabelos.
O eflúvio telógeno (intensa queda dos fios) ocorre devido a uma situação metabólica chamada de estresse calórico, que se origina da baixa ingestão de calorias, pois as células do bulbo capilar, a “fábrica” do cabelo, se multiplicam muito rapidamente e necessitam de um suprimento calórico importante.
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Uma descoberta que merece destaque: o estresse calórico, causado pela baixa ingestão de calorias advinda da utilização das canetas antiobesidade, funciona como um gatilho para a alopecia androgenética (calvície) tanto no homem quanto na mulher.
Ao apresentar os primeiros sinais de queda intensa dos cabelos, excesso de fios na escova ou pente, no box do chuveiro, na pia, na fronha ou pelo chão da casa, o caminho para o paciente é não se automedicar, muito menos seguir orientações dos “especialistas” das mídias sociais ou ceder aos apelos de marketing, que prometem soluções mágicas imediatas. E fugir de procedimentos invasivos que utilizam agulhas, injeções, mesoterapia e outros.
É fundamental que o paciente procure uma clínica ou profissional especializado em medicina tricológica, tenha uma investigação completa por meio de uma anamnese clínica adequada, faça um check-up laboratorial direcionado para o problema e seja submetido a um exame altamente detalhado do couro cabeludo, com a utilização de equipamentos de última geração, como o scanner, que aumenta até 30 mil vezes a imagem do couro cabeludo e dos fios de cabelo, além da microscopia de tela, realizada com um microscópio específico, que mostra as possíveis anomalias encontradas no bulbo capilar.
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Com o tratamento especializado e um acompanhamento adequado do paciente, a recuperação dos cabelos é total, mesmo com a continuidade do tratamento com as canetas.
*Luciano Barsanti é médico e tricologista, presidente da Sociedade Brasileira de Tricologia, membro titular da Sociedade Italiana de Tricologia, membro titular do AHLC (American Hair Loss Council, USA) e diretor médico do Instituto do Cabelo










