Doença renal crônica: um desafio silencioso no Brasil
A doença renal crônica (DRC) é, há anos, chamada de “epidemia silenciosa”. O termo não é exagero. No mundo, mais de 850 milhões de pessoas convivem com algum grau de disfunção renal. No Brasil, segundo o Censo 2024 da Sociedade Brasileira de Nefrologia, já são cerca de 172 mil pessoas em diálise, com mais de 50 mil novos pacientes a cada ano.
Mas o dado mais preocupante não é o tamanho da fila. É o acesso ao tratamento. Uma parcela significativa dos brasileiros ainda inicia hemodiálise de forma não planejada, muitas vezes internada, em caráter de urgência, usando cateter temporário porque não houve tempo para preparar uma fístula arteriovenosa. Em outras palavras: chegamos tarde demais.
Chegar tarde custa caro ao paciente e ao sistema. Custa tempo de vida, aumenta o risco de complicações, eleva as taxas de internação e pressiona o orçamento público. A doença renal raramente surge de forma abrupta. Na maioria das vezes, ela avança lentamente em pessoas com diabetes, hipertensão ou doença cardiovascular. O que falta não é tecnologia sofisticada. É diagnóstico oportuno.
Se dosássemos a creatinina para verificar a função renal com a mesma disciplina com que medimos glicemia ou pressão arterial em grupos de risco, milhares de brasileiros poderiam ser encaminhados precocemente ao nefrologista. Isso permitiria planejar o tratamento, retardar a progressão da doença e preparar o paciente para a terapia renal substitutiva com segurança. Ou, idealmente, para o transplante.
Nos últimos anos, o setor de diálise passou por consolidação, mas é necessário ter padronização da qualidade. O paciente que faz diálise em uma capital deve ter o mesmo rigor assistencial daquele atendido no interior. Protocolos clínicos bem definidos, monitoramento contínuo de indicadores e cultura de segurança não são ferramentas administrativas, são instrumentos de sobrevivência.
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Na nefrologia, pequenas variações fazem grande diferença. A prevenção de infecções relacionadas ao acesso vascular, o controle adequado da anemia, a eficiência da diálise medida por parâmetros técnicos, tudo isso impacta diretamente a mortalidade e a qualidade de vida.
Quando analisamos dados em rede, conseguimos identificar rapidamente desvios, corrigir rotas e aprender com boas práticas. A tecnologia ajuda, mas o centro continua sendo a equipe multiprofissional bem treinada e o paciente informado.
Há outro ponto que precisa ser dito com clareza: diálise não é o final da linha. É ponte. O transplante renal deve ser o objetivo para todo paciente elegível. Isso exige preparo clínico, exames organizados, educação e integração com os centros transplantadores. Uma rede estruturada tem condições de encurtar esse caminho.
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A mortalidade anual na diálise brasileira (em torno de 16%) lembra que estamos lidando com pacientes de alta complexidade clínica. Por isso, a discussão sobre doença renal precisa sair do nicho técnico e entrar de vez na agenda de saúde pública.
O envelhecimento da população brasileira tornará esse debate ainda mais urgente. O desafio para os próximos anos não é apenas ampliar vagas ou cadeiras de hemodiálise. É mudar o ponto de partida. Diagnosticar antes. Planejar melhor. Integrar atenção primária, especialistas e centros de diálise. Usar dados para melhorar desfechos. Preparar mais pacientes para o transplante. Escala sem responsabilidade é número. Escala com responsabilidade é compromisso com a vida. E, na doença renal, tempo é vida.
*Bruno Zawadzki é médico nefrologista, membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, vice-presidente médico da DaVita Tratamento Renal










