SAÚDE E BEM ESTAR

“Meu pai partiu em paz”, diz Júlia Almeida, filha de Manoel Carlos

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Júlia Almeida compartilha a jornada afetuosa e dolorosa de cuidar de Manoel Carlos durante o avanço do Parkinson, priorizando sua dignidade e privacidade. Após a partida do pai, ela assume o compromisso de zelar por seu vasto legado, mergulhando em sua obra e honrando sua memória.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

A convivência com meu pai, Manoel Carlos, nos anos em que o Parkinson avançava, foi ao mesmo tempo afetuosa e dolorosa. Preservar a dignidade dele era minha prioridade. Encontrei paz na convicção de que fiz tudo ao meu alcance para confortá‑lo. Exigiu adaptação, vigilância e decisões constantes, e me ensinou o que significa cuidar de alguém com responsabilidade. Nasci enquanto ele escrevia Sol de Verão, em um apartamento do Leblon, no Rio de Janeiro, onde ficção e realidade frequentemente se misturavam. Lembro‑me da máquina de escrever e do som reconfortante que ela fazia. Aprendi cedo a conviver com as noites em claro dele trabalhando, com toda a disciplina. Novelas como Laços de Família e Mulheres Apaixonadas entraram na casa das pessoas com a mesma intensidade com que transformaram a profissão de meu pai em uma bela história que hoje cabe a mim preservar.
O diagnóstico mudou completamente nossas rotinas. O dia a dia passou a ser tomado por consultas, exames, ajustes práticos e gente entrando e saindo da casa dele para ajudar. Minha mãe, Bety, foi presença permanente, dando o suporte emocional que nos sustentava. Ele era uma pessoa que cultivava hábitos, e procuramos manter os que tanto valorizava: a ida à piscina, que passou a ser acompanhada de um fisioterapeuta, e também os prazeres simples, como o picolé de coco, a cerveja gelada aos domingos, a água mineral que só gostava em garrafa de vidro. Também lhe dávamos o jornal, que ele lia diariamente. O vinho que tanto adorava teve que ser abandonado. Fiz uma profunda reflexão sobre quão essencial era deixá-lo longe dos holofotes. Embora fosse figura pública, meu pai tinha direito à privacidade. Muita gente questionou seu recolhimento, mas fui firme: ter escrito tantas novelas ao longo de mais de cinco décadas não autorizava ninguém a participar daquele momento ou convertê-lo em espetáculo. Respeitar seu espaço foi uma forma de amor.

Quando as complicações se agravaram e as internações se tornaram frequentes, no início de 2024, mantivemos uma conexão ainda mais próxima. Às vezes, alguém ligava do hospital dizendo: “Júlia, seu pai sonhou com você, fala um oi” — e fazíamos uma videochamada. Pequenos gestos nos aproximavam nos dias mais difíceis. No último Natal, organizei uma celebração em família. Conversei com ele, beijei sua testa e falei: “Pode descansar”. Não era um gesto de resignação, mas o reconhecimento de um desfecho que eu já vinha aceitando. Nosso último diálogo foi uma troca de olhares. Ele partiu aos 92 anos, em 10 de janeiro, segurando minha mão no hospital. Foi em paz, sereno, ainda que tudo tenha sido doído.

Apesar das renúncias, cuidei dele mantendo um círculo restrito de amigos que me acolheu e me ajudou a não perder o equilíbrio. Esses anos me amadureceram. Bem antes de sua morte, eu já elaborava sua perda e assumia a tarefa prática de zelar por sua obra, o que exigiu tempo e método. Um trabalho e tanto: são mais de 8 000 caixas de papéis, cartas, rascunhos, prêmios e fotografias. No começo, me senti solitária. Houve quem dissesse: “Conte comigo” — mas os gestos práticos eram mais raros. A experiência de mergulhar em sua trajetória acabou sendo profundamente tocante. Vi ali um homem em construção, com dúvidas, vivendo riscos e paixões, que foi aos poucos se tornando o grande Maneco que todos conhecem. Catalogar cada caixa, um esforço ainda em andamento, se tornou também uma forma de atravessar o luto. Hoje, produzir os documentários O Leblon de Manoel Carlos e As Helenas de Manoel Carlos (no YouTube) é parte do compromisso de fazer essa história ser lembrada. Meu pai dizia que o que construiu era maior que o tempo. Para mim, isso significa um compromisso. Estive ao lado dele até o último minuto e sigo agora cuidando de seu vasto legado.
Júlia Almeida em depoimento a Amanda Péchy
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985

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