Por que algumas doenças neurológicas afetam mais mulheres?
Estudos de neuroimagem mostram que homens e mulheres compartilham a grande maioria das características cerebrais, com uma sobreposição superior a 90% nas medidas estruturais e funcionais. Não existem “modelos” separados: o que temos é um espectro de variações individuais. Pequenas diferenças de volume ou conectividade não determinam nossa inteligência ou personalidade. No entanto, ignorar as particularidades biológicas da mulher seria um erro médico. Se o cérebro não tem gênero, a saúde neurológica da mulher tem, sim, suas especificidades.
Se por um lado a estrutura cerebral é semelhante, o funcionamento é profundamente influenciado pelos hormônios ao longo da vida. A enxaqueca, por exemplo, não é uma “frescura”: segundo dados do estudo Global Burden of Disease, ela atinge cerca de 18% das mulheres contra 6% dos homens. As oscilações de estrogênio modulam os circuitos da dor, explicando por que as crises costumam ser mais severas perto do período menstrual.
O mesmo vale para doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, que chega a ser de duas a três vezes mais comum no sexo feminino. Isso acontece por uma combinação de fatores genéticos e uma resposta imunológica mais intensa que, embora nos proteja de certas infecções, pode se voltar contra o próprio sistema nervoso.
O perigo do viés ‘emocional’
Um dos maiores desafios que enfrentamos no consultório ainda é o peso da cultura. Historicamente, sintomas neurológicos em mulheres, como tonturas, formigamentos ou dores crônicas, foram mais facilmente rotulados como “emocionais”.
Esse viés diagnóstico, bem documentado na literatura médica, pode atrasar tratamentos vitais ao interpretar queixas físicas como apenas ansiedade ou estresse. É fundamental que os sintomas sejam investigados com rigor técnico e sem pressupostos.
Longevidade feminina traz desafios específicos
De acordo com a Alzheimer’s Association, aproximadamente dois terços das pessoas com a doença de Alzheimer são mulheres. Além de vivermos mais, a queda do estrogênio na menopausa retira um efeito neuroprotetor importante, o que pode influenciar processos inflamatórios e metabólicos no cérebro.
No caso do acidente vascular cerebral (AVC), embora ocorra menos em mulheres do que em homens, ele tende a ser mais grave nelas. Durante a gestação, o risco de um derrame é cerca de três vezes maior em comparação a mulheres não grávidas da mesma idade. Além disso, as mulheres costumam apresentar sintomas “atípicos” de AVC, como confusão mental súbita, fadiga intensa e náuseas e mal-estar geral. Reconhecer esses sinais precocemente é a diferença entre uma recuperação plena e uma sequela grave.
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Vale lembrar: coração e cérebro estão intimamente conectados. Hipertensão, diabetes e colesterol elevado aumentam tanto o risco de AVC quanto o de demência.
O peso do estresse e da sobrecarga mental
Não podemos falar de saúde da mulher sem mencionar a sobrecarga mental, a sensação de estar permanentemente responsável por múltiplas tarefas e demandas. O estresse crônico eleva os níveis de cortisol, o que impacta diretamente a memória, o sono e o humor. O cérebro não é uma ilha; ele conversa com o intestino e com o sistema imune, o chamado eixo intestino-cérebro, influenciando desde a ansiedade até a sensibilidade à dor.
A boa notícia é que a prevenção é poderosa. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o controle de fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, tabagismo, hipertensão e isolamento social, pode reduzir em até 40% o risco de demência.
O cuidado começa com a informação
Diferenças biológicas não devem ser vistas como limitações, mas como guias para um cuidado personalizado.
Não subestime sinais, como:
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Dores de cabeça que mudam de padrão
Perda de memória fora do habitual
Dormências persistentes
Alterações visuais transitórias ou episódios de fraqueza
O diagnóstico precoce é a nossa melhor ferramenta. O “cérebro feminino” é, acima de tudo, humano e resiliente. Compreender suas particularidades ajuda a reduzir desigualdades, melhorar diagnósticos e promover saúde e autonomia ao longo de toda a vida.
*Maria Gabriela Ghilardi é neurologista do Hcor










